Entrevistão Maglore – com Teago Oliveira

 

 

Entrevista boa é aquela em que o entrevistado se sente à vontade para falar. E assim foi com Teago Oliveira, guitarrista e vocalista da banda baiana Maglore. Se alguém fizer uma lista de grupos brasileiros atuais realmente importantes, a Maglore precisa estar nas posições mais altas. Com mais de uma década de estrada,  quatro discos de estúdio lançados e um DVD ao vivo, o grupo é um dos preferidos do público que se embrenha pela Internet em busca da música nacional que realmente importa – e que, não necessariamente, está na mídia hegemônica.

 

Teago é gente fina e talentoso. Ano passado lançou “Boa Sorte”, seu primeiro disco solo, eleito aqui na Célula como o melhor álbum nacional de 2019.  Além dele, estão na Maglore Lelo Brandão, Felipe Dieder e Lucas Oliveira.  Mandamos as nossas habituais treze perguntas e vieram as respostas generosas e totalmente à vontade. Transcrevemos tudo, com gosto e oferecemos a você, leitor/a da Célula Pop, este bate-papo com Teago Oliveira. Divirta-se.

 

 

– Como vocês estão fazendo para não perder a sanidade neste tempo de Covid-19 e com as pessoas passando por cima do distanciamento social?

 

Acho que a sanidade todo mundo deve ter perdido um pouquinho desde primeiro de janeiro de 2019, nesse país, né? Mas a gente tenta sempre, eu acho que  manter atividades, saúde mental, essas coisas, enfim. E também não se cobrar muito por isso, não cobrar tanto para ser produtivo e tal. As pessoas estão muito exaltadas porque estão dentro de casa, e tudo mais. Acho que isso realmente potencializa a loucura, você sair da sua cabeça. Mas acho que na banda todo mundo tem se mantido na medida do aceitável, todo mundo tem produzido até certo ponto, a gente se fala, conversa e segue os dias esperando que essa fase acabe logo, porque já durou muito né? Mas a gente tem a responsabilidade de se manter em casa e de dizer pras pessoas para elas ficarem em casa. Muito embora seja realmente lamentável que tanta gente agora ache que não tenha quarentena. Só uma pequena parte da população tá fazendo quarentena. Então é torcer para que essa pequena parte faça a diferença 

 

 

– Quais os planos de vocês para quando tudo isso passar? Disco? Turnê?Tudo junto?

 

Os planos da gente, acho que tá sendo grava o disco que a gente começou a pré-produzir antes da loucura toda. Janeiro e fevereiro a gente já tava ensaiando coisa nova etc. E vai sair fazendo tudo junto, quando puder, quando acabar isso tudo, vai ser disco vai ser clipe e vai ser turnê, enfim. A gente tá com saudades de tocar, de fazer show, de encontrar as pessoas no show, enfim. Pra gente é o que mantém, não só financeiramente, mas também o estado de espírito tranquilo com o nosso trabalho, enfim, feliz, realizado, mais ou menos isso que queria dizer. Sim, a gente vai fazer tudo junto. Plano pra lançar o disco é 2021, na verdade muitas melodias já estão encaminhadas, falta a letra. É que eu sou um cara muito preguiçoso para escrever letra, devo ter uma só.     

 

 

Vocês acham que, mesmo com a tecnologia e as distâncias menores de hoje, ainda é difícil pra uma banda baiana conseguir dar conta de um país como o Brasil? 

 

Não, acho que sempre o fato de ser uma banda nordestina, baiana, em algum momento pesa, acho que pesou muito mais antigamente, hoje em dia a coisa felizmente tem mudado, as pessoas têm mudado a visão. Inclusive, ser da Bahia chega até ser uma chancela em termos de qualidade e essas coisas. Mas a gente já passou, e a gente percebe em alguns momentos que ainda não existe a mesma preferência, sabe? Mas eu to muito longe de utilizar isso pra me vitimizar de alguma coisa, porque eu não sinto que isso afete meu trabalho. Embora eu reconheça que sim tem artistas que não tem, às vezes, a mesma oportunidade, ou então que tenha uma dificuldade maior de fazer o trabalho por ser nordestino, por ser do norte, por não ser o padrão que as pessoas esperam, que os artistas sejam cariocas ou paulistas. Muito pelo sotaque também, muita gente tem, lamentavelmente tem estranheza com o sotaque. E outro lado também, que adora sotaque nordestino também. Chegou a ser um empecilho em algum momento, mas algo muito pequeno. Tem as dificuldades de lidar com esse brasilsão. Muito embora a gente seja uma banda multi lugares, tem dois morando em salvador e o resto aqui em São Paulo. Isso não chega a ser um grande problema.

 

– Qual o lugar do país que vocês têm mais público? E por que seria?

 

O lugar do Brasil que a gente tem mais público foi o lugar onde a gente conseguiu trabalhar mais, a gente trabalhar muito com esse lance dos shows. Com o show da gente a gente consegue formar muito público através dos shows. E obviamente s lugares onde a gente mais tocou foi Salvador e São Paulo. Então o público é mais consolidado nestes lugares, em números e em tudo também, em estar presente, a maior parte da galera que curte a gente é de São Paulo e Salvador, mais de São Paulo, inclusive , por incrível que pareça eu acho que São Paulo deu uma ultrapassada, mas tá meio parecido a quantidade. São Paulo tem mais gente, né. É maior. São os dois lugares que a gente tem. Como a gente nunca foi trabalhado em nível mainstream assim, eu acho que isso acontece, o fato de a gente ter mais público é onde a gente trabalhou mais, então são esses dois lugares.  

 

 

– Como foi começar a ver grandes nomes da música nacional gravando canções de vocês? Gal, Erasmo…

 

Pra gente foi uma honra ter dois artistas da qualidade deles gravando música da gente. Uma surpresa também, né? No início a gente ficou muito surpreso e ao mesmo tempo realizado assim, acho que isso serviu pra gente mesmo acreditar, obviamente todo músico independente sempre tem essas dúvidas e relação à carreira, assim. Se a música dele tem qualidade mesmo que ele quer que tenha, enfim. O que ele pode fazer pra melhorar… sempre rola essa crise existencial. Acho que esses episódios deram meio que uma atestada de que a gente conseguiu fazer música boa (risos). De que a gente conseguiu fazer umas músicas interessantes, que abrissem os olhos de outros artistas que a gente, inclusive, admira muito. O que é muito legal quando um artista que você admira, ainda mais quando é um monstro sagrado assim como Gal e Erasmo, quando ele gosta do que você faz e canta, e representa ali o que você escreveu. Pra mim foi uma loucura, pra banda também. Todo mundo ficou muito feliz, o momento… um dos melhores momentos que a gente teve assim.

 

– De “Veroz” a “Todas as bandeiras” as temáticas da banda mudaram, questões políticas, não necessariamente partidárias, foram incorporadas e  a sonoridade também, como foi esse processo? 

 

A Maglore começou com canções que eu fiz na minha adolescência, algumas canções eram da minha adolescência e foi muito… foi jogado muito pela internet, a gente foi virando banda muito pelo fato de ter dado certo a coisa lá no myspace. Em salvador todo mundo começou a ouvir, começou a rolar um burburinho na cena. E a gente foi meio que uma colcha de retalhos no início. Esteticamente a gente também não tinha muita clareza de como a gente queria soar, por isso que os discos foram mudando. Na verdade eu acho que a gente aplicou o conceito da banda ali no “Vamos pra rua”, que foi o segundo disco. Ali eu acho que a banda virou a banda mesmo assim, sabe? A banda é mais ou menos aquilo e, obviamente, a gente é muito inquieto com as coisas. Eu não tenho nada contra um disco, como posso dizer…, todo homogêneo ou monocromático, mas eu adoro fazer com que o disco tenha várias cores diferentes, músicas completamente diferentes entre si, eu gosto dessa caminhada do disco ser bem múltiplo, heterogêneo pra caramba. Eu acho interessante um disco assim. E o processo? Eu acho que é o processo de amadurecimento das ideias, o lance de você tocar muito tempo com os seus amigos, a coisa toda. Todo esse lado mais místico acaba influenciando também na mudança de som. A gente é muito inquieto com o lance estético, sabe? A gente sempre curte explorar coisas novas. Muito embora o núcleo da criação é nosso, tem a nossa personalidade, por exemplo, do “III” e do “Todas as bandeiras” algumas músicas são até semelhantes,  apesar dos dois discos terem sons quase que opostos. O “Todas as bandeiras” já é um super flerte com os anos 80 com chorus etc, essa geração nova que usa chorus, a gente achou super legal. E de temática também, dos anos 80. Obviamente que tem muita coisa dos anos 70 também, mas enfim. Acho que foi muito o lance de amadurecer mesmo. Acho que as questões políticas sempre tiveram, sempre tiveram,  desde o primeiro disco, eu sempre falei um pouco sobre isso.  É que é sempre uma visão um pouco mais… não vou ter a pretensão de falar filosoficamente porque soa muito arrogante. Mas é uma viagem mais de fala política de uma forma mais abrangente, mais geral, fugi um pouco dessa, dessa coisa centrada na política de partido. Ideal de partido, etc. É muito mais uma reflexão da política em si, como o mundo se comporta, do que panfletar, sabe? 

 

 

– Falando nisso, como vocês olham pra própria discografia? Como percebem seus discos ao longo do tempo?

 

 Isso da discografia, a gente já, eu até ja respondi um pouco na outra, mas posso falar mais. Eu acho que a discografia da gente ao longo do tempo, eu acho que os discos foram sinceramente melhorando, de um pro outro. Muita coisa do disco que, pra mim e  disco mais importante, porque ali a gente se firmou como banda, como unidade estética, que foi o “Vamos pra rua” de 2013. Acho que a partir dali muita coisa foi desenvolvida, os outros discos vão, em parte, ser uma ramificação do “Vamos pra rua”, apesar de serem super independentes também. Na verdade o “III” já é bem diferente, o som e as temáticas também, enfim. Já estou falando besteira aqui, porque o  “III” já foi um disco completamente fora, acho que o “Todas as bandeiras” é mais parecido com o “Vamos pra rua” neste sentido que eu falo. E eu acho que o “Todas as bandeiras” é mais completo que os outros todos, uma forma mais madura mesmo. Eu acho que a grande pira de vocês fazer disco é fazer disco até você enxergar que tá indo bem assim. Eu tenho um pouco de receio de fazer disco enchedor de linguiça, sabe? Fazer disco por fazer. Eu não viajo muito nisso não. Eu prefiro não fazer, ficar sem lançar nada. Mas eu acho que ainda não chegou esse momento, tomara que não chegue em breve. Mas eu acho que ainda tem mais disco que a banda rende, eu acho que a banda ainda rende mais uns discos divertidos para a gente. Quando a gente faz a gente tá ali se divertindo, são quatro caras mucho louco que ficam ali tocando, curtindo dando risada, criando as coisas e enfim, trabalhando isso junto. Então é uma onda legal, assim. Mas eu acho que os discos vão amadurecendo sem perder a… a Maglore tem uma coisa, tem uma certa juventude, uma energia nas músicas, sem perder esse frescor, que eu acho assim superinteressante para uma banda. Ainda mais para uma banda, entre aspas, de rock. Acho legal, acho interessante. 

 

 

É possível pensar em conquistar mais público no país sem abrir mão das convicções que vocês têm hoje?

 

Você sabe que eu já pensei muito nisso, durante um tempo isso foi até uma,, acho que uns cinco anos atrás, isso era uma obsessão muito grande da minha parte. Teve um momento que a gente tava super crescente assim sabe, a coisa tava indo. Eu acho que a Maglore tem um tamanho menor do que, do que o que nos foi proposto, muito por conta das nossas escolhas. Algumas das quais eu não me arrependo não, de ter feito. Mas também acho que não dá pra ficar caindo num moralismo absurdo com as coisas. Tipo… tem que ser meio claro com as coisas. Uma das coisas que eu tenho assim convicção… o nosso público se formou muito pela verdade das canções, assim, porque tudo começou só com a vontade de tocar as músicas  e botar pra fora. Então nosso público foi muito construído nisso, a relação é muito verdadeira e direta. E quando a gente faz algo que não tá muito ali, verdade, o público saca também, para além da gente né? Eu acho que também não piro mais tanto nessa onda de super estrela sabe? Esse super, eu não tenho mais, eu acho que já tive, não sei se porque eu não alcancei, eu me conformei (risos) ai é só um papo para psicólogo mesmo. Eu não sei se foi por isso, mas eu acho que eu fui me ligando em outras coisas, eu fui me preocupando com outras coisas, porque afinal de contas o mundo hoje é super cheio de estrelas e etc. eu acho que a música, a arte em si fala menos, a música, por exemplo, fala menos que a figura hoje em dia. Hoje em dia muitas pessoas são famosas e atingem um status de fama, de público enorme, muitas vezes apenas por serem pessoas interessantes. Sem tirar o mérito assim, sabe. Eu acho que o espaço na música, para transformar alguém em uma estrela hoje, decorre muito em função disso. E não é aquela questão ah eu tenho os meus valores, os meus valores, os meus valores são esses então eu não posso”, simplesmente não aconteceu assim, simplesmente não aconteceu o “boom”, mas é uma banda que cresce a cada ano, pra gente ficou muito confortável também estar nesse lugar. E já busquei, teve uma época que eu ficava “oh, nós estamos bombando de seguidores etc.”. E você começa a agir de outra forma, parece que você não é mais você, você entra numa onda assim, numa obsessão por like, por seguidores e etc. e isso dita muito hoje. É muito engraçado falar isso, porque às vezes um artista que tem 400 mil seguidores, 500 mil seguidores no Instagram, coloca menos gente no  que a Maglore (risos), que tem 30 isso é surreal as vezes. A gente já constatou esse acontecimento algumas vezes, inclusive. Mas o mundo hoje é muito regrado por essa, a régua é muito essa coisa do alcance, do like enfim, e eu considero a gente com pouco, com pouca visibilidade nesse cenário, mas com um público muito cativo também. O pouco que tem faz um barulhaço. Então eu acho que não fiquei muito… assim, é possível conquistar mais público sem abrir mão das convicções que a gente tem? É até possível pensar, mas eu não sei se a gente  sairia fazendo não, a gente tá meio virando tiozão, sabe? (risos). Eu acho que a gente tá de boa onde tá e a gente gosta que o crescimento da coisa seja através da música, da coisa mesmo, que é o que sempre foi, como funcionou. Já pensou se estourasse, virasse algo de uma projeção nacional absurda, do tamanho de um Skank da vida uma coisa super mainstream e sei lá, acabasse depois de 2 anos, quando a gente começasse a fazer coisas nada a ver com nosso…. Acho que não, prefiro o caminho do tijolo por tijolo porque até então tá subindo. 

 

 

– Vocês hoje estão num segmento que muita gente chama de “midstream”, ou seja, que já têm um público, mas ainda não chegaram a um patamar de estrelas nacionais. Como é estar neste patamar? Vocês concordam com essa avaliação?

 

Uma porção de bandas, hoje em dia praticamente o mercado que me interessa da música tá no midstream, pouca coisa do mainstream me interessa, infelizmente. E sem críticas algum gênero ou estilo musical, não tenho isso não, competência existe em qualquer lugar do mundo, mas o que eu tenho vivido são as bandas que tão no mesmo lugar que a gente, são os artistas que estão no mesmo lugar. Obviamente uns maiores que os outros mas nada que seja completamente discrepante, e a gente convive com essa galera, é muito legal fazer parte de uma geração, que eu acho que é uma geração incrível na música brasileira. Eu acho que nos últimos 10 anos evoluiu muito a produção do Brasil, qualidade das pessoas, a consciência delas mudaram, a arte mudou também. O Brasil criou um cenário muito rico assim, já vinha de antes. É porque os anos 90… minha lembrança é meio apagada ou então ofuscada pelo mainstream. Mas eu acho que o desenvolvimento desse midstream, do meio termo entre o underground e o mainstream, é engraçado que a gente só tem palavras em inglês pra essa merda, né? Porra. Mas enfim, voltando, sou meio louco, fico divagando. Mas sim a gente tem um grande lance com o Helinho, Helinho foi um grande amigo na real. Hélio foi um dos caras que deixou a gente ser a banda que a gente queria ser, que deixou a gente confortável, porque… ele chegou a tocar com a gente, ele segurou uma barra, ele deixou a gente tranquilo, foi isso que eu quis dizer, porque chegou um momento qu  a gente ia acabar a banda Nery tinha saído, Lelão tinha saído pela primeira vez, Rodrigo tinha assumido o baixo,  coisa tava meio incerta, eu era muito inseguro em assumir uma guitarra naquela época e tal. E ele foi um cara que segurou a onda, começou a tocar, ir nos shows toda vez que a agenda batia. E apresentava a gente para as pessoas e tal “pô, você já conhece essas músicas e tal”. Ajudou muito e acabou virando amigo, né, pra além da amizade ta´me, total admiração pelo talento do cara. É muito bom trabalhar com quem é seu amigo, sabe? Tem o lance também, que pe muito bom trabalhar com a galera que é da sua onda tipo assim. É interessante poder trabalhar com pessoas totalmente diferentes? É. É interessante também. Mas sei lá, quando você cria uma relação de amizade com a pessoas… é engraçado né porque o nosso trabalho,  o meu trabalho com o Hélio, como posso dizer criativo… a gente não tem uma música junto, é incrível. A gente mostra as músicas da gente um pro outro, muito louco né, a gente fica brincando de mostrar as músicas. Ele mostra uma música, eu falo alguma coisa ou outra, mostro uma música pra ele, e a gente vai se criticando e se elogiando (risos), isso é muito legal né, é uma forma de trabalhar, nós não temos nenhuma parceria, eu sinto falta, vou propor a ele isso, depois de hoje. Mas a gente tem uma relação bem legal com todas as bandas. Já tocamos com todas, com muitas também. Dingo Bell também, super amigos nossos, lá no sul, Giovani lá de Salvador, os caras do Boogarins que a gente encontra na estrada, a gente não é tão próximo, mas enfim a gente encontra na estrada. O Terno também. Eu sou super fã do Gui Jesus, que é do selo Risco, que é amigo dos caras do Terno, ele mixou meu último disco, é uma galera bem legal, uma galera super talentosa.  Meus brothers do Bixiga 70 também. Enfim é uma cena bem rica. Ah, tem tanta gente que eu gosto assim, artistas assim que eu admiro, Luiz Gabriel Lopes. Galera incrível, artistas grandes e artistas menores, enfim, é bem legal.

 

 

– Falando em “midstream”, como é a relação com as outras bandas nacionais que estão neste mesmo momento que vocês? Tem a colaboração com o Helio Flanders, por exemplo …

 

É a gente tá no mindstream, eu costumo dizer que a gente toca pra 50 e pra 5 mil pessoas. É muito louco transitar entre  esses dois mundos, e a gente é uma banda que transita muito. É muito engraçado porque a pergunta anterior tem total sentido com isso, por exemplo, a gente não tem o status de estrela nacional, mas as músicas da gente toca nas novelas, a gente toca nas rádios, pra você ver que enfim… foi o jeito que a coisa andou, foi o jeito que a coisa foi. E a gente tá no nicho de mercado, a gente tá dentro de um espectro de mercado que de certa forma a gente se sente confortável. É óbvio que a gente quer aumentar o público, seria uma mentira eu dizer que não, é óbvio que a gente quer que o público seja maior, alcançar mais lugares, é legal. Não no sentido da jaqueta de couro e do óculos escuro, sabe? Eu acho isso tão anos 80 assim, nessas horas eu não tenho tanta referência dos anos 80 não, então não é muito isso. Mas eu concordo com essa avaliação do mindstream, é uma banda alternativa né, é vista como uma banda alternativa, as músicas são bem pop às vezes, vai. Mas a banda é alternativa, não é uma banda que vai tocar em estádios, apesar de já ter tocado (risos). É muito louco falar isso, porque tudo que eu estou falando, eu já fiz (risos) e ao mesmo tempo eu não sou, é meio estranho mas eu acho que é isso mesmo, o mindstream da porra mesmo. E agora com esse… parece papo de jogador de futebol, né, eu acho que é com esse ritmo que a gente vai conquistando os 3 pontos, fazendo o nosso, trabalhando pra conquistar cada vez mais resultados (risos). Acho que é mais ou menos isso, a gente vai fazendo disco né, nossa onda é fazer disco, de criar música, claro que o que vier depois é consequência, obviamente que isso acarreta várias responsabilidades profissionais que a gente tem que ter e a gente sabe que isso ajuda, inclusive financeiramente todo mundo.Mas aquela coisa do super auge e tal, eu acho que isso é um negócio meio… não passa tanto na cachola não. Poderia ser legal, não virou um objetivo de vida não.   

 

 

– E o que vocês têm ouvido como influência? O que mudou nisso desde que formaram a banda? Alguma coisa mexeu muito com vocês?

 

O nosso som mudou muito ao longo do tempo porque a gente foi se apaixonando por coisas no meio do caminho, assim. Por exemplo, a banda que mudou o som, muito por minha causa, porque eu fiquei muito obcecado , foi o Dr. Dog, então o som da Maglore, às vezes ele é bem chupado de Dr. Dog, assim como Dr, Dog chupa de outras bandas (risos). Isso que é legal, assim. A nossa influência básica é a música brasileira, né? Que a gente foi sempre tarado, ouvia os discos em casa quando morava todos juntos numa casa aqui na Vila Mariana. A banda toda morava junto e a gente ficava assim ouvindo os discos o dia inteiro, sabe? Ali em 2012, 2013 foi o ano pra… nossa isso tem quase 10 anos! E isso formou um pouco a influência da gente, e com o tempo também foram surgindo outras coisas, a gente sempre teve um pezinho nas coisas que Devendra (Banhart) faz, a gente sempre curtiu muito. Não sei… depois também surgiu o Mac DeMarco ali  pra mim, que na minha opinião é um dos grandes compositores, assim… fazedores de canción, cancioneiros mesmo do mundo hoje, tô falando do mundo tô falando do universo que a gente tá. Acho ele um cara fantástico, não sei se chegou a influenciar ou não, mas não diretamente no som, mas acho que em algumas áreas ele chegou a influenciar, o lance de ser mais despojado, o lance do chorus, a todo mundo foi na onda do Mac Demarco. Apesar da gente adorar os chorus de coisas de anos 80, à la The Smiths e etc. “Todas as bandeiras” tem uma certa influência disso. Então as coisas foram mudando pra isso, mas a gente sempre volta, a gente sempre revira o passado pra ouvir algumas coisas. Eu tenho uma frase do Dieder que é engraçada  “tanta coisa pra escutar no mundo que às vezes eu acho melhor pegar um artista que eu já conheço e me aprofundar em coisas dele que eu não me aprofundei”. As vezes eu faço isso, às vezes eu tiro da gaveta uns discos de uns caras, uns Jorge Mautner da vida, que eu ouvi pouco ou não sacava tanto e escuto, eu sou apaixonado por música brasileira, então eu sempre escuto música brasileira, eu sou apaixonado por música gringa também, eu escuto de tudo. Eu voltei a escutar rock progressivo (risos) esses dias, na verdade esses meses que eu estou na quarentena, eu comecei a lembrar de uma época da minha vida e me veio uma memória, me veio uma memória sonora ativou “cara eu ouvia isso!”. Então eu ouvi de novo o Transatlantic, que é uma banda que reúne vários artistas do prog, um supergrupo assim, umas músicas de 40 minutos, ouvindo The Flower Kings que é de um dos caras do Transatlantic, o Roine Stolt. Prog de novo, umas coisas assim, acho interessante, mas nada que vá me influenciar no disco não, eu acho muito difícil que isso mude alguma coisa, ou sei lá, tô falando aqui e daqui há pouco faço um disco com uma faixa meio prog ali no meio, daqui há pouco queimo a língua, 

 

 

– A Internet possibilita um contato bem direto com os fãs. Que tipo de projeto maluco vocês fariam só para os fãs, caso eles pedissem? Faixas toda semana? Covers?

 

A gente… faixa toda semana talvez . essa coisa dos fãs, do que a gente faria se eles pedissem, eu acho que o que for confortável pra gente, na medida do possível, da loucura deles, a gente faz. Tipo assim, covers pode ser, eu faria, não ´tanto a nossa praia, a gente é meio enferrujado pra isso, mas a gente já fez vários covers de brincadeira nos shows etc. tocava uns Pepeu Gomes, no início na banda a gente tocava até Perlla do funk no show, e era super divertido assim. Mas sei lá, pensar num projeto maluco, assim… meio difícil. Uma música toda semana… acho que a gente poderia mostrar as músicas novas antes de gravar elas e ai arrumar a maior briga com a gravadora (risos), acho que poderia ser por ai dai é bom. Apesar de eu adorar os meninos, adorar Rafa, os menino é bom né, eu falando como se fosse um cara velho, os caras são bem mais velhos que eu. Mas enfim, é isso. Essa coisa da live e da conversa, de explicar os discos e de explicar as coisas  pra galera, isso  é legal assim. Isso é uma coisa que a gente não faz. Eu acho que isso poderia ser uma coisa legal, uma rodada de conversa com os fãs no Zoom também seria legal. Enfim… 

 

 

– Como vamos superar esse momento terrível que estamos experimentando no Brasil e no mundo? Não só quanto à Covid-19, mas, enfim, veja o nosso presidente …

 

Agora a derradeira resposta, como a gente vai superar esse momento (risos) no Brasil, o bicho, queria que você estivesse aqui pra gente abrir uma cerveja, porque ia ser longa a conversa, mas eu tenho que responder em um áudio, né. Enfim…o problema é crônico, o problema de país, o país vive um problema crônico assim, e é histórico ao mesmo tempo. Existe uma certa perversidade na forma de conduzir as coisas no país, na forma de manipular a informação. É muito difícil você continuar acreditando em uma livre democracia, quando a democracia que você vive é completamente manipulada e aí é um assunto pesado, né? Não que eu não seja uma pessoa que acredita nos valores da democracia, que eu não seja um democrata, sim sou, mas é muito complicado você viver num momento em que tudo é tão facilmente dissimulado, e você tem uma parcela da população que simplesmente ela compra um discurso porque ela sabe que beneficia ela de alguma forma, né? Nem que seja psicologicamente, é muito louco você ver isso. vocÊ vê as pessoas apostando no absurdo, sabe, porque talvez negar a verdade seja a única coisa, o de melhor que elas podem fazer no mundo hoje. E tem uma parte da população, principalmente as camadas mais pobres, de trabalhadores que eu já cheguei à conclusão que eles não têm capacidade de se libertar disso, nem de se contaminar com essas ideologias, porque eles estão sendo controlados durante a vida inteira, durante séculos. É interessante que o Estado sempre controle a educação das pessoas, que o Estado informe menos, para que seja mais fácil manipular elas mais tarde, né? Isso é muito triste, porque o conceito de democracia, os meus valores é o contrário. Às vezes as pessoas acham que eu sou comunista, por falar essas coisas mas… se isso é ser comunista, eu sou comunista então. Acho que tá na hora, tá na hora não, eu acho que tem que chegar o momento que o conhecimento e o acesso à informação tem que chegar à classe trabalhadora, à classe pobre e elas se conscientizar por elas mesmas, sem manipulação ideológica seja de direita e de esquerda. A esquerda, por exemplo hoje é uma esquerda extremamente elitista, ela fala menos com o povo do que a extrema direita. O povão do Brasil se descobriu, nós descobrimos  que grande parte do povo brasileiro é extremamente conservador, isso foi um choque para várias pessoas de esquerda, por exemplo. Porque eu, no caso, não conheço a fundo a realidade do país, tenho uma visão um pouco mais vaga. Mas acho que ainda tenho esperança de que as coisas mudem. Acho que não vai ser tirando Bolsonaro, obviamente que é algo que eu gostaria muito que acontecesse amanhã às 6 da manhã, mas não vai ser tirando Bolsonaro que as coisas realmente vão mudar no Brasil. É um assunto complicado, eu acho que pra superar isso é isso é conversar, é debater sobre o assunto, conversar sobre ele, por mais doloroso que seja. Eu acho que esse exercício, até a pergunta e essa resposta é uma forma de superar, porque você s´supera porque você entende o que tá acontecendo. E às vezes é tudo muito novo que a gente não entende ainda, não consegue fazer uma leitura do que realmente tá acontecendo. Agora que a gente tá caindo um pouco na real, que são obviamente forças conservadoras que estão chacoalhando depois de muitos anos de governos humanitários, a gente sabe muito bem o que eles pensam de governos humanitários, governo humanitário custa caro, alguém tem que pagar essa conta, enfim, a mesma história de sempre. Mas eu acho que a gente só supera entendendo, de forma tranquila, sem cair nas obviedades, sem cair nos discursos fáceis que a gente gosta de ouvir, seja tanto de direita quanto de esquerda, que é o espectro onde eu me encaixo, onde eu acho que me encaixo, vai que alguém de esquerda diz que eu não sou. Tem muita gente de esquerda que diz que várias  pessoas de esquerda não são de esquerda, ainda tem esse problema, né? A esquerda contra esquerda…

 

Mas é isso aí, 5 minutos de áudio, meu Deus. Muito obrigado, foi massa responder. Algumas respostas não ficaram tão boas como eu gostaria, mas eu fiz do freestyle, mas espero que tenha sido legal, adorei!

 

Colaborou Ariana de Oliveira.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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