Jorge Drexler lança um de seus melhores discos

Jorge Drexler – Taracá
36′, 11 faixas
(Sony)
(4,5 / 5)
Jorge Drexler habita uma prateleira solitária na música hispânica. Enquanto o mundo se rende ao impacto imediato do pop urbano, ele permanece como um dos últimos cavalheiros da canção ibero-americana, um arquiteto de versos que equilibra o rigor de um cirurgião com o lirismo de um poeta. É um artista que ainda vive em um nicho de “culto” desproporcional ao seu tamanho; houvesse justiça nas paradas globais, ele seria um fenômeno de massas. Drexler é o elo vivo entre a bossa nova, a crueza do rock subtropicalista e as influências da música uruguaia, muito mais rica do que se supõe,, mantendo uma classe inabalável que o torna referência obrigatória — embora ainda mereça ser descoberto por plateias muito mais amplas.
Em “Taracá”, ele abandona a redoma orquestral de “Tinta y Tiempo” (2022) para um mergulho no que é essencial. O título é puro movimento: emula o som do tambor chico, o pulsar mais agudo do candombe uruguaio, mas também esconde um “estar acá”. Após trinta anos radicado em Madri, Drexler voltou a Montevidéu para colocar os pés no chão. Gravado em sua terra natal, o disco é um exercício de presença absoluta. Ele trocou o laboratório de ideias sofisticadas pelo pátio de terra onde o ritmo ressoa, provando que, para avançar, às vezes é preciso reencontrar o próprio pulso geográfico e afetivo. É também o primeiro álbum que ele lança após perder os pais entre 2023 e 2024.
A trajetória de Drexler sempre teve esse viés científico — o médico que virou músico e passou décadas analisando a biologia do afeto. Mas em “Taracá”, ele parece menos interessado em explicar o mundo e mais em senti-lo. Ele assume o papel de um articulador de experiências coletivas. Se antes era o mestre da canção solitária ao violão, agora ele se joga no meio de uma roda de tambores, deixando-se conduzir. Essa mudança traz ao álbum uma classe rara: não há esforço para parecer moderno, pois a modernidade vem da honestidade. O disco abre com o manifesto “Toco madera”. Entre a superstição e o toque real, ele confronta nossa era hiperconectada com versos como “tu geolocalizador dice que estás alejándote”. É o ponto de partida para uma obra que busca o pé no chão. Logo em seguida, “¿Cómo se ama?” investiga o marasmo das relações digitais, sugerindo que o amor exige presença física para não se perder na névoa da rede. O coração do álbum, porém, bate em “El tambor chico”, gravada com a Rueda de Candombe. Aqui, Drexler não é um turista visitando as raízes afro-uruguaias; ele se submete à cadência da madeira e do couro, afirmando a percussão como o idioma definitivo do Rio da Prata.
Essa conexão com o sul se estende ao Brasil em “¿Qué será que es?”, onde ele verte Gonzaguinha para o espanhol sob o balanço do candombe. É uma costura perfeita entre a resistência brasileira e a síncope uruguaia. Já em “Te llevo tatuada”, a parceria com a rapper Young Miko mostra que ele transita pelo frescor do agora sem perder a elegância. Outro destaque é “Cuando cantaba Morente”, homenagem tocante que funde o flamenco à memória de seu pai e do mestre Enrique Morente. Com o violão de Julio Cobelli e a voz de Ángeles Toledano, a faixa reflete sobre o que sobra quando os patriarcas partem: uma luz suave que persiste através da arte. A vida pessoal de Drexler atravessa o disco, especialmente na crítica sutil de “¿Hay alguien A.I.?”, onde ele questiona a automatização da alma. O álbum encerra de forma apoteótica com “Las palavras”, ao lado da murga Falta y Resto. É o som das ruas de Montevidéu expulsando a desesperança. Ao voltar para casa, Drexler não buscou apenas um estúdio, mas o reencontro com as esquinas que o formaram.
Ele nos entrega um trabalho que prefere a “falha” humana ao perfeccionismo mecânico. “Taracá” é, enfim, o som de um homem que descobriu que a maior sofisticação é saber estar presente. Enquanto houver esse ritmo, haverá esperança. Ouça.
Ouça primeiro: “Toco Madera”, “El Tambor Chico”, “Ante La Duda, Baila”, “Hay Alguien A.I?”, “Cuando Cantaba Morente”, “Las Palabras”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
