“Corpos Secos”: Quem sobreviverá ao fim do Brasil?

 

Comprei “Corpos Secos” antes da pandemia entrar pelas nossas portas, janelas, TV e Internet.

 

Como nas primeiras semanas desse terror eu tive todas as crises possíveis de choro e ansiedade deixei o livro de lado até apenas os meus momentos de raiva despontarem diariamente. Detesto histórias de zumbis, mas um Brasil apocalíptico povoado por eles despertou minha curiosidade (talvez a ideia hoje em dia nem pareça tão absurda)

 

Luisa Gesler, Samir Machado, Natalia Borges Pelasso, gaúchos e Marcelo Ferroni, paulista, imaginaram nosso país devastado pela epidemia conhecida popularmente como corpo seco, causada pelo consumo dos agrotóxicos insanamente liberados pelo governo (opa).

 

Acompanhamos a corrida dos irmãos Constância e Conrado, do menino Murilo, da vaidosa Regina e Mateus, o único infectado a não manifestar a doença, rumo à Florianópolis, a única cidade dita segura em um país devastado, sem governo, de ruas ocupadas por doentes que só despertam de seu transe para obedecer a um falso líder religioso e atacar quem  se mantém  são e inteiro fisicamente

 

Qualquer semelhança é mera coincidência.

 

Será?

 

O livro começou a ser escrito em 2018, antes das eleições presidenciais e acabou tendo sua trama atravessada pela pandemia. Os personagens são particularmente brasileiros no jeito de lidar com a tragédia: muitos diminuem sua gravidade, alguns sofrem por entenderem a realidade, outros se protegem pelas suas crenças.

 

Várias cenas são violentas e apelam para o clichê, entretanto deixam um sabor de filme bom para ver de madrugada, sentimento que resulta do trabalho cuidadoso para um livro escrito a oito mãos não se tornar um apanhado de tramas confusas. Cada personagem foi criado por um dos autores, o que explica eles partirem de diferentes pontos do Brasil em busca da sobrevivência e a diferença na forma narrativa das trajetórias, o que não tira o interesse da construção final.

 

Difícil passar pela leitura de “Corpos Secos” em um momento como o nosso sem o mínimo envolvimento emocional, seja pelos seus cenários familiares ou as críticas a uma realidade que nem Stephen King imaginaria melhor. Como nos nossos tempos adoecidos pessoas queridas morrem e se perdem pelo caminho, a empatia surge no limite da sobrevivência, a maldade mostra as suas caras de todas as idades, não se sabe em que e quem confiar e não existe um final fechado.

 

É uma história sem heróis e idealizações, mais próxima de nós do que a gente gostaria.

 

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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