O fim da MAD e a geração mimimi

 

Uma das minhas revistas favoritas da pré-adolescência chega ao fim depois de quase 70 anos de trajetória: a MAD, revista de humor que já foi publicada no Brasil pela editora Vecchi, pela Record, pela Mythos e pela Panini.

 

Na MAD, que existia no Brasil desde 1973, conheci o trabalho de cartunistas como Al Jaffee (ainda vivo e ainda publicando na edição americana!), Dave Berg, Don Martin, Antonio Prohías (que pouca gente conhece de nome, mas todo mundo conhece a dupla de espiões ‘Spy vs Spy’). Conheci o Ota, conheci o Ed Ondo, conheci trabalhos de cartunistas brasileiros. A MAD tinha paródias de produtos pop super conhecidos, como filmes, séries e novelas (na edição brasileira). A MAD sacaneava políticos, tanto na edição brasileira como na gringa; eventos esportivos, hábitos e costumes. A seção “O lado irônico”, as dobradinhas, até a seção de cartas era engraçada (me amarrava na equipe tirando sarro do Welberson).

A MAD Brasil chegou ao fim em 2017, a MAD gringa anuncia seu fim hoje.

 

Como disse Ota Assunção em postagem no Facebook, que reproduzo abaixo:

Já estava sabendo desde ontem mas hoje virou a notícia mais bombástica da mídia. Após 67 anos, a Mad deixa de circular nos EUA. Serão publicados mais alguns números com reprises para atender exigências jurídicas (só para cumprir as assinaturas já pagas) .

A revista, que começou em 1952 sob a batuta do genial Harvey Kurtzman, estava capengando desde 2008 ou 2009 quando começou a crise americana (aqui era só uma marolinha).De um ano pra cá houve uma tentativa de zerar a numeração mas esta nova fase não passou do número 8 ou 9. Agora bateram o martelo para o cancelamento definitivo.

Será? Tudo acaba voltando mais cedo ou mais tarde. Mas voltar ao patamar de 1962 quando a circulação beirava 3 milhões de exemplares, nunca mais.

No Brasil a recordista foi a edição 20 da Vecchi (Tubarão na capa) cuja tiragem foi de 210 mil. Depois estabilizou-se em 150 mil. Quando esteve na mão da Record também voltou a este patamar na época do Plano Cruzado. Aos poucos foi caindo e parou em 2000 quando vendia 8 mil. Na editora seguinte, a Mythos, estava nessa faixa mas eles não me informavam os números. Soube que na Panini chegou a vender apenas 3 mil. Em 2016 deixou de sair, voltando um ou dois anos depois numa edição especial pra aproveitar o filme da Liga da Justiça.

Será mesmo o fim? Vamos ver. De repente algum milionário compra a revista e começa tudo de novo.

 

Muitos órfãos da MAD lamentam esse fim. Eu lamento esse fim. E alguns estão num mimimi interminável sobre o “politicamente correto”, como se a culpa da revista não vender mais tanto quanto antigamente fosse da necessidade de um humor que não ofenda quem já está fudido (sacanear grupos dominantes pode, sempre).

 

Vamos por partes:

1. “Politicamente incorreto” virou sinônimo, hoje em dia, de ser racista, machista, homofóbico e “conservador nos costumes”. Era sinônimo de “humor anárquico que não perdoava ninguém” e de uns tempos pra cá virou sinônimo de “piadas racistas, machistas e homofóbicas que nem são engraçadas”, um arremedo de humor representado por nomes como… bem, a responsabilidade jurídica me impede de citar nomes, mas vocês sabem bem quem são.

2. “Politicamente incorreto” nunca precisou do artifício do racismo, do machismo e da homofobia pra ser engraçado. Vide “South Park”, que tem lá seus deslizes, mas no geral sacaneia a sociedade branca, racista, machista e homofóbica – e continua engraçado pra caramba.

3. “Hoje em dia nunca existiria um programa como ‘Trapalhões’ ou publicações como ‘Casseta popular’ e ‘O Planeta Diário’”. Verdade. Ou não. Os Trapalhões tinham muitos quadros de humor pastelão que eram engraçados pra caramba (aquelas brigas no bar, gente!); paródias musicais e outras sátiras. “O Planeta Diário” tinha muito humor político e sacaneando celebridades. Dá pra fazer humor politicamente incorreto sem precisar diminuir mulher nem chamar preto de macaco. Que, aliás, não é humor. Repito: racismo, machismo e homofobia não é “humor politicamente incorreto”, é só gente sendo escrota com os outros mesmo.

4. Curioso que é a mesma galera que reclama que “aiinnn fizeram humor sacaneando o presidente, virou panfletagem política”. Criticar a situação é uma das funções do humor.

5. Inclusive o lema da MAD sempre foi “pensar por você mesmo e questionar autoridades”. E as autoridades, atualmente, têm tido dificuldades em aceitar questionamentos. Vocês conseguem imaginar uma MAD Brasil com o Marreco de Maringá na capa, sendo sacaneado? Eu super visualizo os pitbulls da milícia de guarda do governo no Twitter orquestrando ataques organizados às redes sociais da revista, galera questionando a credibilidade do Ota e alguma notícia circulando do ZAP dizendo que a revista recebeu dinheiro da lei “Ruaney”.

Isto posto, parem com o mimimi de “a MAD acabou por causa do politicamente correto”. A MAD acabou porque o público da MAD é jovem e jovem não lê impresso. A MAD acabou porque o público-alvo da MAD não desgruda o olho do celular. Sim, existe um site da MAD, mas o público da MAD também não bate ponto em site, não. É YouTube, aplicativos, games, Tik Tok e Snapchat mesmo.

A MAD acabou pelo mesmo motivo que a DC enxugou a Vertigo. A MAD acabou pelo mesmo motivo que publicações impressas fecham as portas, e não é “a crise”. É mais uma crise criativa, eu diria: a falta de vontade de investir naquela propriedade como uma central de conteúdo de humor para diversas mídias. A MAD TV foi um acerto, e a mesma estrutura de produção poderia servir para YouTube, apps de vídeo e apps próprios. Que poderiam levar para redes sociais e os quadrinhos.

O problema é de gestão.

O problema foi não acompanhar as tendências de tecnologias e consumo de mídia.

Parem de mimimi. Parem de vitimismo.

Vamos focar no que importa: reinventar e acompanhar as mudanças no mundo.

O resto é mimimi.

Lia Amancio

Lia Amancio trabalha com produção de conteúdo online desde que a internet era mato. Teve zine, teve banda, teve catapora quando era criança, só não teve ainda a sorte de ganhar na Mega-Sena. Mãe da doce Diana e ativista pela mobilidade urbana, Lia atende em www.liaamancio.com.br e em www.lounge42.com, e também pode ser vista por aí rodando bambolê e tocando ukulele - às vezes ao mesmo tempo. Pergunte-me como.

Um comentário em “O fim da MAD e a geração mimimi

  • 7 de julho de 2019 em 04:49
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    A MAD nunca foi unanimidade no Brasil, mas é fato que essa geração mimimi recente, é fraca de leitura. Tanto que elegeram um cachaceiro corrupto, e seu partido entupido de grampos e cambalachos por quase 4 mandatos, mas a culapa é da ‘lava-jato’ Hummmm ”çei”. Uma piada tupiniquim, pra variar. HEHEHE

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