Morreu João Gilberto, morreu o Brasil.

 

Morreu João Gilberto. Morreu, de fato, o Brasil. Esta afirmação – minha – é incondicional e eu não topo modificá-la, ou mesmo relativizá-la. Posso fazer isso mais tarde, com o passar do tempo. Agora, horas depois de saber que João morreu, nada me parece mais justo e perfeito para definir como me sinto. Vai-se o último sobrevivente, uma espécie de garantia, de um Brasil que não chegou a se confirmar. Que foi abortado, que foi aviltado, que, carambas, não rolou. João era essa garantia, esse elemento que ainda mantinha, nos sentidos figurados, abstratos, sabe-se lá, a esperança utópica de que o Brasil moderno, autônomo, independente, autossuficiente, existiria. Provavelmente a ideia não morre com ele, aliás, tenho minhas dúvidas se ele é capaz de morrer, mas, por ora, tudo é cinza, triste e nublado nesta Ipanema conceitual que só existe no plano das ideias.

 

João era um Brasil dos anos 1950. Do ápice do capitalismo, de uma variação menos cruel do sistema econômico. Era para poucos em seu início, mas, depois de Vargas, da fundação das empresas estatais e seu conceito, do florescimento do cinema, da arquitetura, das artes plásticas e da música nacionais, este Brasil da Zona Sul do Rio poderia ser maior e mais abrangente, se tivéssemos tempo. E João foi a expressão máxima disso tudo, o sujeito que veio da Bahia com um violão e criou todo um estilo. Não é exagero pensar que, sem João, Tom Jobim, Newton Mendonça, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal e todos os outros criadores da Bossa Nova, teriam criado outra coisa. Outra Bossa, talvez nem tão nova assim. Mas havia João.

 

Ele inventou um jeito de tocar o violão. Veja, isso não é para poucos. Colocou no instrumento e em seu canto uma pulsação só obtida – até então – com mais vozes e mais violões, baixos, baterias, escolas de samba. E fez isso com uma forma de cantar igualmente nova, na qual não era preciso soar como um macho-man latino-americano com voz impostada. Era só ter a sutileza e a sensibilidade suficientes para perceber a fragilidade de uma brisa que vem do mar, de um coração que bate no peito dos desafinados, de peixinhos a nadar no mar ou , mais recentemente, de olhos que já não podem ver. Os “mais recentementes” de João já eram antigos. Seu último disco de inéditas é do ano 2000, “Voz e Violão”. Antes dele, “João”, de 1991. E antes dele, um duplo ao vivo em Montreux, na 19ª edição do festival suíço, cujo LP eu tinha em casa. Foi meu primeiro disco de João e eu o escutava sem parar. Aos 15 anos.

 

A música de João não era difícil, pelo contrário. Ela era profundamente ligada com o que nos faz brasileiros. Tem a ver com a noção do Brasil como nação, como um lugar com características próprias, traços culturais e identitários únicos, que nos fazem ser uma terra diferente de todas. O que estava embutido no canto e nas interpretações de João – um compositor pra lá de bissexto – era uma espécie de orgulho natural em falar disso, era como se ele fosse uma divindade do interior do país que tivesse encontrado o meio de chegar até nós de forma, digamos, banal. A palavra talvez não seja a mais exata, porque, João era tudo, menos banal. Após o início da Bossa Nova, de lançar seus três primeiros discos, mandou-se pros Estados Unidos, que haviam recebido o estilo como uma variação solar e amistosa do que eles chamavam de “exótica”. Lá criou e gravou com mestres do Jazz, uma espécie de pai da Bossa. Seu primeiro disco com Stan Getz é discoteca básica do século 20 sem pestanejar.

 

O meu disco preferido do homem é o de 1973, com capa branca e uma versão espiritual de “Águas de Março”. É uma espécie de conjunção perfeita para mim, o melhor intérprete da melhor canção possível no Brasil. O que Tom Jobim conseguiu fazer em sua letra e melodia é algo comparável a uma mistura de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, com um ideário urbano ainda em formação no país, é estudo histórico-sociológico e música, tudo junto – dá pra perceber que eu não sei defini-la direito, né? Pois João a interpreta e a refaz, como se fosse sua – era algo que ele fazia com tudo o que cantava – e surgia um Brasil ainda mais novo, mais único, mais dele. E nosso.

 

Mas não é fácil dizer que este ou aquele disco de João é melhor. Tem “Amoroso”, de 1977, que tem “Wave” e “Estate”, dois lados do verão ideal, da onda que se ergueu no mar e do romance que se foi com a mudança da estação. Copacabana e Roma, cantadas em português e italiano por um baiano que deve ter descido de uma estrela colorida, brilhante. Aliás, falando em Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos devem estar inconsoláveis. Gravaram junto com João o impressionante disco “Brasil”, em 1981, um trabalho para o qual preciso ir mais vezes, conhecê-lo melhor. Geralmente a audição de “Amoroso” me segura por lá e eu não saio por um bom tempo.

 

É uma tristeza imensa, um vácuo. Uma melancolia que não sai de mim, não sai.

 

Um beijo, João. E obrigado por tudo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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