O absurdo do Jedi pinochet

 

 

A Revista Fórum publicou ontem uma alarmante nota sobre a propaganda do Fuerza Nacional, partido de extrema direita chilena. A montagem traz a foto do ditador augusto pinochet vestido como se fosse um Cavaleiro Jedi. Alguém nas redes sociais marcou o ator americano Mark Hamill, o próprio Luke Skywalker, que respondeu com um emoji vomitando. O texto da propaganda ainda fazia alusão à “força”, dizendo que a “verdadeira força” estava com eles, se referindo ao ditador como um “gladiador que conseguiu derrotar os subversivos da esquerda que está destruindo o país”. No fim das contas, uma alusão ao aniversário de nascimento do sujeito.

 

Isso me fez pensar sobre o significado do que vemos nas telinhas e telonas do mundo. Vejo nos filhos do nosso atual presidente – e nele mesmo – espectadores e fãs de filmes como “Rambo”, “Braddock”, “Predador” e similares, nos quais um indivíduo resolve fazer justiça com as próprias mãos, dizimando “inimigos”. Nos casos mencionados, os antagonistas são vietnamitas, nicaraguenses, árabes, ou seja, povos que tiveram seus países invadidos pelos Estados Unidos, para “levar a democracia” ao lugar. Longas de Clint Eastwood na fase “Dirty Harry”, ou de Charles Bronson em “Desejo de Matar”, também vão pelo mesmo caminho, mas, em outro cenário. Saem as selvas estrangeiras e entram as metrópoles americanas, inchadas pela presença de contingentes populacionais altíssimos. Sendo assim, sobra para negros e latinos, que são os alvos de detetives que fazem justiça com as próprias mãos.

 

No caso de “Rambo”, “Braddock”, Dirty Harry” e outros, o protagonista é sempre o americano branco, enquanto os inimigos são “o outro”. Em “Independence Day”, seja o primeiro ou o segundo, o “inimigo” surge na figura de alienígenas peçonhentos e feiosos, que chegam à Terra para acabar com seus recursos naturais e, enquanto isso, dizimar a população do planeta. Não precisa muito esforço para entender que o “ser humano” ameaçado é o americano e os ETs são “o outro”, que chega em grande número, como se fossem hordas de refugiados ou de “bandidos” ou de qualquer um que não seja um americano “defensor da liberdade”, vivendo seu American Dream em algum ponto do país.

 

Filmes de bangue-bangue também são virtuosos em mostrar o ataque americano às fronteiras do oeste no século 19. Estados como Califórnia, Novo México, Arizona, Colorado, entre muitos outros, faziam parte do território mexicano, que foi sendo conquistado ao longo do século, dentro das política da Doutrina Monroe, que dizia “América para os americanos”. Lembro sempre de um professor de História que completava: “Para os americanos DO NORTE”. No caminho estavam os mexicanos e os índios, aquela gente morena, que era vilanizada e dizimada pelos heroicos cowboys, ou pela impávida cavalaria americana, vestindo azul marinho.

 

O imperialismo americano teve como terreno de atuação não só a América Central ou o “Oeste Bravio”. Chegou ao Pacífico e atingiu o Japão. Um filme badalado mostra isso: “O Último Samurai”, com Tom Cruise liderando o elenco. O roteiro é mais uma situação de militar arrependido e desgraçado pela guerra e pela amargura. Cruise deixa de ser americano e se junta aos japoneses, que resistem contra a modernização do país. Lembro de estudar no colégio sobre a Era Meiji (entre 1867 e 1912), que foi responsável por este processo de atualização do país que, depois dela, passou a exercer ele mesmo o imperialismo na China e arredores.

 

O tal “mito do militar arrependido” reveste outros dois filmes conhecidos do povo. “Dança Com Lobos”, com Kevin Costner, e “Avatar”. Em ambos, americanos brancos chegam em lugares distantes e, depois de verem as atrocidades cometidas, têm crise de arrependimento e se juntam aos locais, tentando combater o invasor. Outro que vai nesta mesma linha, mas com um relativo viés histórico é “Tempo de Glória’, no qual Matthew Broderick é um coronel branco que lidera o primeiro pelotão de negros do exército americano. Ao longo do tempo, ele vai deixando de lado seus preconceitos e se torna “um negro”.

 

Voltando a pinochet como Jedi, temos um caso claro de … burrismo. A direita chilena entende “Força” como algo que é necessário para manter a ordem e exterminar as diferenças. Nos filmes de Star Wars, “força” é a energia vital que mantém as coisas em seus devidos lugares. Um exercício simples de interpretação nos mostrará que os Jedis, guardiões da força e de um sistema de governo chamado REPÚBLICA, com viés democrático, não estão falando de força bruta. Seria melhor colocar pinochet de negro, como se fosse o Imperador Palpatine e seus seguidores na pele – ou na armadura – de stormtroopers imperiais. Aliás, quantos reacionários vocês conhecem que se identificam com Luke Skywalker, ou Han Solo, ou qualquer outro personagem rebelde de Star Wars?

 

Aposto que há vários.

 

Este pequeno guia interpretativo de filmes talvez sirva para que eles começem a enxergar os verdadeiros significados. Ou para mantê-los na burrice total. De qualquer forma, estamos com Mark Hammil vomitando sobre a montagem com pinochet vestido de Cavaleiro Jedi.

 

Link para a reportagem da Forum: aqui

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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