“O Rapto dos Dias” e o país que a gente não vê

 

 

Acabei minha primeira  leitura do ano. Acabei de fechar a última página de “O rapto dos dias”, o mais recente livro do escritor e psicólogo gaúcho Kenny Teschiedel.

 

Pela terceira vez.

 

Eu acompanhei esse livro desde a sua concepção e tive alguns momentos de receio pelo Kenny: eu  não conseguia imaginar como ele criaria uma história distante da sua realidade e sustentaria as reviravoltas de personagens tão machucados, valentes e humanos?

 

Pois Rosana ,Chico e Catarina nasceram com a força dos personagens verossímeis, que cometem erros, têm  sentimentos bons e ruins e que podem ser parecidos com tantas pessoas que vivem no território cruel da invisibilidade.

 

Depois de ser abandonada pelo marido, Rosana se envolve com o crime no morro onde mora e acaba presa. Seus filhos Catarina e Francisco são  levados para um orfanato e nele começam a enfrentar a dureza de serem filhos de uma mãe presa, negros e mais velhos do que a maioria dos casais na fila de adoção desejam. Até Teodora os levar para fazer parte de sua família  e tudo mudar nessa relação testada pelas limites de uma vida inconstante e cruel ?

 

A separação de Rosana e seus filhos  acontece nos anos 80  e, para narrar a história, Kenny intercala as vozes dos irmãos  e de Marcela, a assistente social responsável pelo caso entre aquela época  e os dias de hoje, criando expectativa e  dúvidas:  de quem foram os piores erros?  Quem  fez as melhores escolhas? O tempo realmente cura todas as mágoas?

 

Kenny não teve  pudores em abordar tabus  sem ser piegas, mas sim com a sutileza e o respeito de um profissional que ajuda diariamente jovens, adultos e idosos a se verem como parte da sociedade que muitas vezes não os enxerga. O relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção, a situação dos presídios femininos o abuso sexual e o racismo cruzam o caminho de Francisco  e Catarina e os obriga a crescer cedo demais.

 

Quando eu morava com meus pais, minha mãe volta e meia me contava que meu pai se incomodava com a quantidade  de livros que eu tinha,  já que, para ele, “vai ler só  uma vez”, ao que ela respondia:  “cada vez que você lê o mesmo livro ou vê  o mesmo filme sua visão de mundo pode mudar um pouco “.  Essa sensação me arrebatou ao fim de mais  uma leitura de  “O rapto dos dias”.

 

Na semana em que um morador de rua  morreu depois de ter seu corpo incendiado  e ainda com a memória terrível da morte da também moradora de rua, que tomou um tiro pelas costas depois de pedir dinheiro para um homem, o livro me fez refletir sobre a violência, a desigualdade, o preconceito, a falta de dignidade: para quantas pessoas como essas vítimas, como Rosana, Francisco  e Catarina nós  olhamos de verdade, todos os dias ?

 

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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