Milton Nascimento, a música brasileira não está uma merda

 

O venerável cantor e compositor mineiro-carioca disse, em entrevista publicada na Folha de São Paulo de hoje, domingo, dia 22 de setembro, que “a música brasileira está uma merda”. Confesso que não li a entrevista e, sinceramente, não me animo. A afirmação de Bituca me parece mais uma daquelas que são feitas sem um cuidado necessário. Talvez ele pense que sua carreira – vitoriosa e emblemática – seja suficiente para lhe dar respaldo para falar tal frase. Mas parece que ele, com 77 anos, não tem ideia de como é complicado afirmar tal fato.

 

Vivemos um tempo em que a produção cultural brasileira e várias esferas da vida pública são norteadas pela possibilidade financeira da própria existência. A política é assim, a cultura está perigosamente contaminada por esta lógica, a do lucro e do sucesso serem a mesma coisa. Talvez este seja o prisma da análise feita por Milton, a de que apenas artistas que produzem música sob esta perspectiva estariam fazendo sucesso e que, a partir desta visão, o resultado seria “uma merda”. Uma olhada em recente lista publicada sobre os artistas mais ouvidos no país mostra que, não, a música brasileira não está uma merda, mas que, sim, há uma lógica excludente que impede que as pessoas conheçam mais do que vem sendo produzido por aqui. Teus amigos Lô Borges e Fernanda Takai, em entrevistas que fiz recentemente, se queixam desta mesma lógica. Eles parecem mais ligados que você.

 

Por exemplo, será que Milton conhece Autoramas? Transmissor? ruido/mm? Gabriela Deptulski? Castelo Branco? Luiza Brina? Momo? Amaro Freitas? Bazar Pamplona? O Branco e o Índio? Facção Caipira? Jonnata Doll? Letrux? Livia Nery? Pietá? Rubel? Terno Rei? Jaloo? Entre tantos outros, estes artistas estão na batalha, todos com ótimos trabalhos lançados recentemente, que reafirmam a fé de qualquer pessoa na música nacional. Basta ouví-los. Basta que atrações como The Voice Brasil deixem de ser sinônimo de “novos talentos”. Basta que o Domingão do Faustão só dê espaço para quem está “fazendo sucesso”. Basta que haja mais gente comprometida com a divulgação destes artistas. Já pensou se Milton, em vez de dizer que “está uma merda”, fizesse uma lista de belas recomendações? Mas não.

 

Aqui na Célula Pop, totalmente independente, a gente mostra um monte destes artistas. Faz resenha, artigo, publica playlist em streaming, enfim, faz a nossa parte para enfrentar o grande dragão dos monopólios que estão por aí, que quase deixam de nos notar. Veja, para a gente ser credenciado para alguns eventos, é preciso que tenhamos midia kit, para que, pelo número de likes e pageviews, sejamos afiançados como algo que “vale a pena”. Pois bem, é uma lógica injusta, certo? E se a gente tiver talento, informação e capacidade de orientar o leitor para que conheça coisas legais? Pois bem, substitua a Célula por qualquer artista igualmente independente, que precisa de espaço para ser conhecido. E teremos a realidade. Sem falar que, por trás dos artistas há um time de profissionais de produção e assessoria de imprensa que enfrentam esta mesma realidade opressora. É um prazer tê-los na batalha ao nosso lado.

 

A música, Milton, não está uma merda. O que está uma merda é a preguiça à la Matrix que norteia a vida cultural e social do país hoje e há tempos. Gente como você, consagrada e que desfruta de uma posição de destaque, poderia fazer melhor.

 

Aqui embaixo tem uma playlist da Célula Pop com as melhores músicas nacionais de 2019 até agora.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Milton Nascimento, a música brasileira não está uma merda

  • 23 de setembro de 2019 em 14:45
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    80% dos exemplos citados são uma bosta

    0
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