Milton Nascimento – A Retratação

 

Vocês já devem saber: Milton Nascimento foi entrevistado pela Folha de São Paulo, com a terrível manchete: “Milton Nascimento: A Música Brasileira é uma merda”. Isso foi ontem, dia 22 de setembro, domingo. Ao ver a manchete, logo decidi escrever um texto atacando a posição dele. Achei estranho que Milton desse uma declaração como esta, mas, como já estamos cansados de ver e ouvir absurdos recentes, escrevi algo sobre a música brasileira ser muitas e não uma só. E que a mídia e seu monopólio eram determinantes para a triste realidade de apenas os representantes de uma música mais fácil e empobrecida serem conhecidos por uma maioria. Sendo assim, ninguém poderia dizer que “a música brasileira é uma merda” sem fazer ressalvas importantes.

 

Horas depois, já na parte da tarde, a página do artista no Facebook e seu perfil no Instagram publicaram uma errata, explicando que, sim, Milton considerava “merda” a música que o mainstream veicula, não a enorme quantidade de artistas que batalham em meios alternativos, especialmente a Internet e que, têm sim, trabalhos ótimos e dignos de menção honrosa. E ele mencionou vários, de Maria Gadu a Tiago Iorc (ambos contratados de gravadoras grandes e com público solidificado), além de Emicida e outros como Zé Ibarra, Tom Veloso, Amaro Freitas, Dani Black, Silva, Rubel, Tim Bernardes, Djonga, Emicida, Beraderos, Rincón Sapiência, Liniker, Marcia Castro, Luedji Luna, Cicero, Mallu Magalhães e Céu.

 

Certo, tal postura parece mais adequada é tenho prazer em publicar esta explicação no site. Porém, é bom fazermos uma observação aqui. A repercussão da entrevista de Milton foi enorme. Artistas se apressaram em explicar o ocorrido, muita gente deduziu que, sim, o cantor e compositor se referia aos sucessos mainstream como “merda” e que, mesmo mal explicado no texto da Folha de São Paulo, isso seria evidente. Má fé do jornalista. O pior não foi isso: ao ver a repercussão nas redes, vi um número enorme de gente dizendo: “Milton está certo. A música brasileira está uma merda, sim”. Tenho certeza quase absoluta que a maioria esmagadora dessas pessoas estava endossando a afirmação supostamente descuidada do cantor, ou seja, de que TODA a música brasileira feita hoje seria ruim. E aí está o problema.

 

Vivemos num país em que a informação está nas mãos de poucos. A veiculação dela é feita com propósitos, servindo a interesses que são norteados por vários fatores. Vou dar um exemplo: Aqui, na Célula Pop, o interesse é informar a partir da crença de que a informação pode se transformar em conhecimento e que, a partir dele, as pessoas podem atingir novas instâncias em suas vidas. Acreditamos que música, cinema, TV, livro, cultura pop, tudo isso faz bem e que a sua apreciação faz bem para as pessoas e a torna melhores, mais esclarecidas, mais conhecedoras. Simples assim. O nosso interesse é esse, sem rabo preso. Não dá pra dizer o mesmo de veículos enormes, cheios de anunciantes, compromissos empresariais e pautas que passam por questões políticas e sociais. São estes veículos enormes que informam seu público sobre a realidade. E, se eles não falarem de algo, isso, simplesmente, nunca terá existido.

 

Aplique esta lógica à música. Aos filmes, livros, programas de TV, quadrinhos…Pense: a Rede Globo veicularia informações sobre o filme “Legalidade”, sobre a ação de Leonel Brizola em 1961? Não. Como este há vários, inúmeros exemplos, que seguem, não só as linhas editoriais dos veículos como a lógica do clique = sucesso. Nada que faça o público pensar demais, ler demais, refletir demais entra nessa norma. Daí temos uma cultura de informações curtas, direcionadas intencionalmente. E tudo muda a partir daí. Se não há notícia, não existe.

 

Daí você me dirá que isso não se aplica mais num mundo conectado. Eu concordarei, mas te perguntaria em troca: “quem vai orientar as pessoas para que procurem e pesquisem na Internet?”. Provavelmente os mesmos veículos de comunicação que já monopolizam tudo. A música passou por algo que gosto de chamar de “terceirização da informação”. Ela deixou a TV e o rádio para a Internet, onde a informação está disponível, mas exige que o INTERNAUTA tenha a disposição de procurar e pesquisar. Toneladas de dados, links, informações, estão à sua espera, mas, quem irá abandonar sua lógica de receber de bandeja as dicas da semana, tudo mastigado? Poucos. Sem falar na enorme multidão de vítimas do péssimo sistema escolar nacional, que vive realidade alarmante e que não é capaz de formar grandes quantidades de estudantes com senso crítico. Ou seja, é uma batalha muito desigual a que travamos.

 

Pois bem. Espantou o número enorme de gente que concordou com o Milton logo de cara. Este é um viés bem autoritário, pessoal. Não existe música ruim ou cultura inferior. Existem música e cultura diferentes. E a música tem uma peculiaridade decisiva: ela reflete a época em que é feita, o lugar, o contexto. Se temos multidões de duplas de “sertanejo” cantando letras hedonistas, cheias de porres, transas e ostentação, algo está acontecendo, pois estes artistas cantam para um público. O que terá acontecido? Quem ouve? Quem se identifica com estas músicas? Se elas têm arranjos que soam empobrecidos, qual o motivo? Será que é o aumento das classes menos favorecidas economicamente? Será que é o reflexo da preponderância do agronegócio sobre outras formas de produção no interior do país? Será que é a propagação via mídia de informações e signos provenientes dessa lógica econômica? Será que é o enfraquecimento da divulgação de outras manifestações culturais por conta de instâncias públicas e/ou privadas? Numa sociedade em que dinheiro significa sucesso, como defender quem é pobre e não canta para uma multidão endinheirada? Deixa de existir? Ou, tem público menor que “não justifica o investimento”?

 

São questões complexas, mas o viés autoritário do coro que se formou a partir da declaração de Milton Nascimento – que, no fim das contas, era equivocada – só reafirma que vivemos tempos obscuros e precisamos desesperadamente de um governo que priorize a educação, não como um meio de dar a alguém uma profissão, mas que forme pessoas com consciência e senso crítico. Não há outra saída e os inimigos do conhecimento sabem disso, tanto que estes setores estão sob pesado ataque. Ou resistimos ou fazemos o coro irresponsável/autoritário. A escolha ainda é nossa.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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