Melvin & Orquestra Inoxidável Tocam Bora Bora

11/06/19 – Teatro Sesc Ginástico – Rio de Janeiro

 

 

Os melhores shows de música podem estar nos menores espaços. E neste dia 11 de junho de 2019, um dos melhores shows estava no Centro do Rio, no velho – porém reformado – Teatro Sesc Ginástico. No palco um aglomerado de batalhadores da música carioca, gente que toca por prazer, que não abre mão de estar diante de um público – seja de que tamanho for – para se divertir. A senha é a sinceridade, a cooperação, a garra e a disposição para enfrentar uma cidade que não tem tratado com carinho os seus artistas. Mas isso já é um outro assunto. Melvin Ribeiro, uma das caras da musica underground do Rio, jovem veterano de várias bandas, atualmente no glorioso Autoramas, reuniu uma galera para tocar um de seus discos preferidos: “Bora Bora”, dos Paralamas do Sucesso.

 

O show de ontem foi o segundo que a Orquestra Inoxidável realizou. O anterior foi em 2018, quando o álbum comemorou 30 anos – o tempo voa – e teve o Teatro Ipanema – outro pequeno templo histórico da música na cidade – como palco. Não há qualquer firula na apresentação, são músicos tocando pela felicidade da celebração, pelo amor à música e pelo carinho com a plateia, que, infelizmente, não era numerosa, mas que compensou qualquer problema aritmético com animação e retribuição.

 

“Bora Bora’, o disco, é uma obra com várias facetas. Quando foi lançado, em 1988, o disco teve em “Uns Dias” e “O Beco” os seus maiores hits, com a balada derramada “Quase Um Segundo” tocando bastante também. Quem olha o disco de longe, pensa que é mais um trabalho rítmico e caribenho dos Paralamas, na época totalmente envoltos numa proposta musical que os colocava milhas à frente de qualquer artista na música nacional. Só que, como disse Melvin no palco, “Bora Bora” tem um lado de baile infernal e outro de dor de cotovelo intensa. Por essas e outras, ouvir faixas que ganharam status de tesouro escondido, como “Fingido”, “Três”, “O Fundo do Coração” e a soberba “Dois Elefantes”, soa como uma redescoberta do disco e da própria poesia de Herbert Vianna, que ainda há de ser reconhecido como um dos grandes letristas da música nacional.

 

O “lado baile” do disco, porém, é o que identifica “Bora Bora” com o povo. Sendo assim, a abertura do show, com “O Beco”, levada por B Negão, já mostra as credenciais dos músicos presentes no palco. É uma galera capaz de reproduzir fielmente o repertório do álbum, com detalhe para as duas baterias, levadas por Rodrigo Barba e Fred Castro, com a intenção de reproduzir a porradaria sônica de João Barone. Além deles, Guga Bruno (guitarras), Marcelão (baixo, guitarra), Fabrizio Iorio (teclados) e o naipe de metais com Marcello Magdaleno Fernando Oliveira e Marco Serragrande no trombone, dá a garantia de reprodutibilidade para o disco. Sem falar na participação crucial de Marco Homobono, recriando os toasts de Peter Metro em “Don’t GIve me That” e “The Can”.

 

Momentos iluminados: “Um a Um”, com B Negão à frente; “Sanfona”, devidamente ressuscitada para receber a glória que sempre mereceu; “Fingido”, cantada por Guga Bruno, uma das baladas mais bonitas que Herbert já assinou, “Don’t Give Me That”, com Homobono mostrando a que veio  e o bis, incandescente, com “Perplexo”, “Melô do Marinheiro”, “Alagados” e “O Beco”, todas com mais um baterista presente:  Rafael, filho do papai coruja João Fera, devidamente maravilhado na plateia.

 

Shows sensacionais não precisam estar em grandes palcos, repito. Ontem, provavelmente, o melhor show possível era esta afetuosa apresentação de Melvin Ribeiro e seus Inoxidáveis amigos. Agradecemos e reverenciamos a música underground carioca.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Melvin & Orquestra Inoxidável Tocam Bora Bora

  • 12 de junho de 2019 em 16:22
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    Só de ler a resenha deu muita vontade de estar nesse show! Imagina assistir os Paralamas recriando o Bora a Bora num palco pequeno, bem próximo da plateia! Ia ser de arrepiar.

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