Hot Space – o disco que mudou a minha vida para sempre

 

No dia 21 de maio de 1982, o Queen lançava o Hot Space, considerado por muitos o pior disco de toda a carreira da banda. Eu discordo frontalmente desta afirmação. Para mim, ele foi um divisor de águas: existia uma Maria antes do HS e surgiu outra depois do HS.

Eu tinha 13 anos e já me interessava por rock e rádio, dois assuntos que me mobilizavam na época. Não era fã de nenhuma banda em especial, só conhecia o que se tocava nas paradas de sucesso e nas novelas. Próximo ao meu aniversário, em agosto ou setembro, eu, meus irmãos e meus pais estávamos na saudosa Mesbla da Rua do Passeio. Uma loja linda, enorme, cuja seção de discos não deixava nada a dever às grandes redes. Lá estava eu olhando o que poderia me interessar e dois discos me chamaram a atenção: o Hot Space e o duplo Live Killers, ambos do Queen e os únicos da banda à venda naquele dia. Poderia não ter o Hot Space, poderia ter o The Game, o Greatest Hits, sei lá, mas eu só achei esses discos. Não conhecia nada de nenhum dos dois e não titubeei: “Pai, por favor, pode me dar estes discos de aniversário?”. Pronto, ali estava selado o meu destino.

Em casa, eu escutei esses dois discos sem parar, dia e noite. Sem a opinião formada sobre o Queen dos anos 70, o Hot Space me agradou de cara. Como não se apaixonar pela linha de baixo de Body Language? Como não se emocionar com a homenagem ao John Lennon em Life Is Real? Como não amar Under Pressure? Por outro lado, este disco tem a PIOR música do Queen de todos os tempos: Cool Cat. Aaargh!!!! Não, não é um disco ruim, é um disco diferente, uma proposta arrojada em relação ao que a banda havia feito até então. E, por isso mesmo, ele tem ainda mais o meu respeito.

Junto com o Live Killers, que me apresentou ao restante do repertório da banda, o Queen virou uma FEBRE para mim. Dali em diante, eu comprei todos os discos, revistas, pôsteres, camisetas, broches e tudo mais que fizesse referência aos meus queridos Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon. Junto com o fanatismo pelo Queen, descobri a revista Somtrês e a Rádio Fluminense no final de 82 e aí, não tinha mais jeito: 1983 seria o ano da virada.

Eu não fiz outra coisa em 1983 a não ser escutar Queen. Sem brincadeira, eu não estudei nenhum dia naquele meu 1º ano do 2º grau. Eu escrevia os nomes dos integrantes do Queen nas provas da escola! Tem cabimento uma coisa dessas???? Nesta adoração total, meu pai ainda me trouxe dos EUA os discos Queen II (que me fez me apaixonar de vez pelo Queen), A Night At The Opera, A Day At The Races e Greatest Hits (que era diferente do brasileiro). Todos lindos, com uma camada brilhante sobre as capas, coisa que os brasileiros não tinham.

Com a Somtrês, passei a trocar cartas com fãs do Queen de todo Brasil. Um deles, o paulista Marcelo Neves, virou meu namorado por correspondência por um tempinho. Coisa boba, bem de adolescente. Graças a um correspondente gaúcho, conheci outro fã carioca do Queen que foi o meu primeiro namorado pra valer e que me apresentou um universo musical totalmente novo (e que ficou com o meu Live Killers! Se arrependimento matasse…).

Neste meio tempo, resolvi tocar violão, mas não deu certo e eu parti para a bateria. Sim, por que não? Fui pedir isso de presente de 15 anos e a casa caiu. Cheia de notas vermelhas no boletim e querendo tocar um instrumento de homem, é claro que eu me estrepei.

O ano terminou com a minha reprovação sem direito a recuperação. Não poderia ter sido melhor. Fui estudar com uma turma maravilhosa, com pessoas que são minhas amigas até hoje (sequer me lembro da outra turma). Dois anos depois do Hot Space, finalmente consegui entrar na aula de bateria e passei a encarar isso como uma meta de vida a partir de 1985. E, na hora do vestibular, um ano depois, escolhi Comunicação para ser a programadora musical da Rádio Fluminense. Santa ingenuidade…

Hoje, 37 anos depois, tenho um novo, lindo e perene amor, tive três bandas, toco em casa, mas não consegui seguir a carreira de baterista, lancei um livro sobre a Fluminense FM e jamais fui programadora musical de qualquer rádio. Mas eu faria tudo de novo, sem pestanejar. O Hot Space continua morando no meu coração, pois me definiu como pessoa e direcionou minhas escolhas pessoais e musicais dali em diante. O original eu acabei jogando fora depois que comprei ele em CD (burrice…), mas o maridão já providenciou um substituto. Já pensou como seria a minha vida se eu não tivesse ido à Mesbla naquele dia de 1982? Viva o Hot Space! Viva o Queen!

 

 

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Maria Estrella

Jornalista, baterista, fã de rock, mãe e primeira-dama da Célula Pop.

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