Mastodon – Medium Rarities

 

 

Gênero: Metal, alternativo

Duração: 70 min.
Faixas: 16
Produção: Mastodon, vários
Gravadora: Reprise

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Bandas modernas que fazem som pesado me agradam bastante. O Mastodon, de Atlanta, é um ótimo exemplo. Faz som interessante, forte, com guitarras, baixos e efeitos que levam o ouvinte para viajar pelo cano da tubulação de água e esgoto do prédio – pelo menos é a minha impressão ou algo bem perto disso – e dão um revertério no estômago do pobre coitado que pousa as orelhas em sua música. Em algum ponto do processo, entretanto, fica claro que os caras do Mastodon não são ogros, criaturas fantásticas, heróis ou qualquer coisa assim. É gente normal, como eu e você, que pega ônibus lotado – bem, pegava, antes da covid-19 -, ouve desaforos aqui e ali, não se conforma com os rumos que os governantes dão às nossas vidas enquanto não param de enriquecer…São caras reflexivos, atentos, com a cabeça no que está acontecendo agora. E são caras com senso de humor e, acima de tudo, respeito pelos fãs. “Medium Rarities” é uma bem apanhada coletânea de raridadade, lados-B, covers, que já saíram aqui e ali, mas, juntas, guardam um frescor similar ao que a gente sente quando abre o pacote de figurinhas e encontra aquelas que faltam pra preencher o álbum.

 

Ainda que muita gente diga “metal”, o que dizem os rótulos modernos sobre o som do Mastodon é que ele se denomina “sludge-prog”, ou seja, algo como um “progressivo sujo”, ou um “progressivo lamacento”. É mais ou menos como pensar em uma sonoridade que puxa o ouvinte pra baixo, que lembra paisagens subterrâneas, enclausuradas, em que o ar é grosso, difícil de respirar. Faz sentido se ouvirmos a totalidade das faixas, mesmo que elas venham de tempos, espaços e contextos diferentes. A constante sonora está lá, a seriedade com que a banda trata os arranjos, o instrumental exuberante em seus tons escuros, tudo funciona surpreendentemente bem e dá coesão ao disco, algo complexo de se ver/ouvir numa compilação de lados-B e sobras de estúdio.

 

Tem bastante coisa interessante por aqui. A começar pelo single – e única canção nova contida no disco – “Fallen Torches”, que mostra bem como funciona um dos aspectos fulcrais do Mastodon: peso e melodia, sem que essa mistura soe banal nem por um milésimo de segundo. Tem cinco versões ao vivo (“Capillarian Crest”, “Circle Of Cysquatch”, “Blood & Thunder”, “Crystall Skull” e “Iron Tusk”, todas mostrando a habilidade impressionante do baterista Brann Dailor, especialmente “Capillarian…” que ganha em peso e dinâmica com a gravação. Tem “White Walker”, que faz parte da trilha sonora de “Game Of Thrones”, tem “A Commotion”, que surgiu na colaboração “Feistodon”, na qual a banda dividiu duas canções com a cantora canadense Feist. De alguma forma estranha, a delicadeza do original foi preservado por aqui, mesmo soando como uma avalanche que vai te alcançar de qualquer jeito. Também surgem vários instrumentais, versões e originais, entre eles, “Jaguar God”, do álbum anterior, “Emperor Of Sand”, que soa melhor assim.

 

O que é mais bacana em “Medium Rarities” é o compêndio de covers. Tem de tudo. Uma releitura traiçoeira de “A Spoonful Weights A Ton”, do Flaming Lips, engana o ouvinte até a metade, quando um atropelamento sonoro ocorre e o arranjo, que parecia emular o original, vira ao contrário. Tem “Atlanta”, do Butthole Surfers, com participação de Gibby Clarke, totalmente tributária do original. Tem “Orion”, do Metallica, com apenas oito minutos e meio de duração, algo que, para quem conhece o original e suas versões ao vivo, sabe que é quase um “radio edit”.

 

Quem gosta e enxerga em bandas como o Mastodon uma importante versão das sonoridades mais modernas e antenadas em ação no planeta atualmente, não pode perder esta coletânea. Ela é um prato cheio pra fãs e serve muito bem para neófitos conhecerem a diversidade do grupo. Maravilha.

 

Ouça primeiro: “Falling Torches”

 

4+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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