Marker Starling – High January

 

 

 

Gênero: AOR, soft rock

Duração: 33 min.
Faixas: 8
Produção: Sean O’Hagan
Gravadora: Tin Angel

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Marker Starling é um trio de Toronto, Canadá, liderado por um sujeito chamado Chris Cummings, fã de soft rock dos anos 1970. Como é quase regra entre os músicos alternativos em nosso tempo, Chris é um adepto do chamado lo-fi, também conhecido como “bedroom pop”, ou seja, música feita em casa, com poucos recursos, privilegiando a espontaneidade. O termo espanta os fãs da música bem produzida porque estes não compreendem que um bom disco não precisa, necessariamente, de grandes estúdios hoje em dia. Basta ter alguém com talento e noção, coisas que Chris certamente tem. Mesmo assim, ele decidiu dar um passo enorme à frente, recrutando um ótimo sujeito para produzir “High January”, seu novo trabalho. Este produtor é Sean O’Hagan, uma das mentes mais brilhantes da releitura Beach Boys/Bossa Nova desde os anos 1980, quando era um dos cérebros por trás da ótima banda irlandesa Microdisney. A mistura destas influências gerou um ótimo disco.

 

A outra grande diferença de “High January” em relação aos outros trabalhos do Marker Starling é que há um trio de músicos tocando no estúdio. Saem os teclados e a bateria eletrônica de Cummings e entram em campo Matt McLaren e Jay Anderson, os sujeitos que já se apresentavam ao vivo com Chris Cummings e sua chegada faz toda a diferença. A produção de O’Hagan confere seu toque característico: arranjos harmoniosos, vocais de apoio celestiais, clima de futuro do pretérito – altamente indicado para um álbum como esse – e a sensação de estarmos vivendo uma realidade alternativa na qual toda a concepção de música eletrônica foi usada em favor apenas da harmonio e dos climas das canções – e não dos beats. É como se O’Hagen e Cummings se esmerassem em polir todas as oito faixas com o intuito de conferir o máximo de camadas de detalhes, sintetizadores, pianos elétricos, à frente de bateria, baixo e guitarra. É como mergulhar num mar morno e gentil de um outro planeta. E é bom.

 

Dá pra notar ecos de Steely Dan e 10cc em vários momentos do álbum, além de, claro, algo dos High Llamas, banda da qual Sean O’Hagen é o principal integrante desde o início dos anos 1990. Só que o experimentalismo que ele gosta de dosar com suas canções harmoniosas foi totalmente limado deste trabalho, deixando apenas a moldura e as texturas que já mencionamos lá em cima. O talento de Cummings para a melodia se impõe naturalmente e surgem pérolas como “Wait The Night”, cheia de belos fraseados de pianos elétricos, vocais vaporosos e teclados que conferem climatização gelada, lembrando muito o 10cc de “I’m Not In Love” e outros clássicos. A faixa- título, que começa com o singelo verso “Music is a form of expression/It’s how I express myself/If it comes from the heart you can never go wrong”, tem a pinta de soar como uma demo nunca lançada por Christopher Cross em seu célebre álbum do flamingo na capa, o que é um baita elogio.

 

Às vezes as levadas que Cumming oferece têm certa malemolência setentista inegável. É o caso do jazz insinuado em “Drop And Pierce”, cheia de vocais de apoio num quase doo-wop moderno. “Waiting For Grace”, cheia de guitarras em wah-wah tem a participação dourada de Laetitia Sadier, vocalista do Stereolab, colaboradora história de Sean e do próprio Cummings. Seus vocais tradicionais de apoio são definitivos para conferir uma graça a mais. Ela também dá as caras em “Starved For Glamour”, uma canção mais enigmática, mas cheia de citações a algo que Michael McDonald poderia ter composto lá por 1982/83. O topo é alcançado com a lindíssima “Coin In The Realm”, cheia de elegância no arranjo com toques de jazz-pop.

 

Marker Starling é um desses nomes que você só vai conhecer de cavar por novos artistas na Internet. A gente está aqui para fazer este trabalho para você. Ouça os discos, estão todos no Spotify e cheios de revelações para fazer. Se o seu negócio é essa nova-velha música pop de FM setentista, cheia de esmero na reprodução, periga você se apaixonar.

 

Ouça primeiro: “Coin Of The Realm”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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