Marcelo D2 – Assim Tocam os MEUS TAMBORES

 

 

Gênero: Rap

Duração: 37 min
Faixas: 12
Produção: Marcelo D2, Luiza Machado
Gravadora: Pupila Dilatada

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Marcelo D2 é um destes artistas que ganharam fôlego renovado na adversidade. Se suas incursões no rap até, digamos, o fim da década de 2000, soavam menos interessantes que seu trabalho pregresso no Planet Hemp, as agruras que os anos 2010 trouxeram ao país o fizeram se engajar de uma forma nova. Assumindo posturas nas redes sociais, ele reviveu as origens plantadas em “Usuário”, estreia do Planet de 1995, um disco no qual, ao lado de sua banda, D2 se assumia dentro de um contexto conservador e defendia um ponto de vista – a legalização da maconha – de uma forma contundente. Ainda que os outros discos da banda abordassem a mesma temática, a força deste primeiro trabalho nunca foi igualada, tampouco os discos de rap de D2 soavam tão fortes. Até agora. A chegada deste “Assim Tocam Os MEUS TAMBORES” abarca uma gama de temas muito maior, enfileirando questões como negritude x racismo, conservadorismo x progresso, gentileza x raiva, além da manutenção de seu tema original, configurando um disco poderoso. Além disso, o processo de gravação e a própria concepção das canções que o integram dão ao álbum um caráter novo e interessante.

 

D2 foi convidado para fazer lives no início da quarentena. Deixou a produção de um novo álbum do Planet Hemp de lado e mergulhou no processo das transmissões diárias como uma forma terapêutica de lidar com o confinamento. Ele e sua esposa, Luiza Machado, além dos filhos, surgiam em pequenas aulas de culinária, oferecendo sets de discotecagem até que ele teve o estalo de fazer músicas a partir desta experiência e usar as lives para documentá-las. Tal sacada fez com que o álbum acontecesse naturalmente, com D2 convidando várias pessoas para participar – Anelis Assumpção, Baco Exu do Blues, Criolo, Djonga, Jorge du Peixe, Juçara Marçal, Rogê, Tropkillaz, Kiko Dinucci, Helio Bentes e Russo Passapusso. Além deles, o historiador Luiz Antônio Simas serve com uma espécie de guia sobre alguns pontos da cultura afro e a própria família de D2 se engajou na produção e realização do álbum em diversos níveis. O resultado é um esforço coletivo que tem jeito de declaração de posicionamento sobre estes diversos assuntos mencionados lá em cima, além de mostrar uma versatilidade que a obra de D2 nunca exibiu. Seu rap evoluiu neste ambiente, suas letras, ainda que resvalem no constante auto-elogio, olham para outros lados com bons resultados.

 

Mais que isso: a parte musical também tem boa desenvoltura e acompanha a boa lufada de ar que o disco sugere. O invólucro musical que reveste “Meus Cria”, por exemplo, é um sinal de que o uso de sampling ainda é um traço – bem-vindo – na obra de D2 e isso é um dos grandes méritos do álbum. Logo vem a ótima “Rompeu o Couro”, que mistura batidas modernas com atabaques tradicionais e “Malungoforte”, que evoca a importância de Chico Science e Nação Zumbi ao usar trechos de “A Praieira” em sua estrutura. A presença de Russo Passapusso, do BaianaSystem na faixa faz e encerra uma espécie de percurso no aceno a grupos e artistas que souberam usar tradições musicais afro-brasileiras recentemente dentro de uma lógica moderna.

 

Simas e Criolo participam da faixa “Tambor, o Senhor da alegria”, na qual um conto sobre a história de “NGo’ma, o próprio tambor africano personificado, apresentada a D2 por Simas, surge narrada por Criolo em meio a uma base instrumental que comporta percussão, metais jazzísticos e toda uma ideia de sonoridades amplas. Outro momento interessante, que faz acentos ao afrobeat é “Pela Sombra”, com a participação de Jorge Du Peixe, cujo vocal grava funciona como bom contraste ao de D2. E o encerramento com “Pelo Que Eu Acredito”, dividida por Sain – filho mais velho de D2 – e Djonga, mostra uma atenção especial a esta modernidade/urgência que o rap experimenta hoje como principal veículo de informação e narrativas que importam. Funciona.

 

“Assim Tocam Os MEUS TAMBORES” é, certamente, o melhor trabalho que D2 fez em sua carreira solo. Ele é diverso, oportuno, curioso e com resultados em amplo espectro. Há 25 anos, a inocência afiada do rapper marcava seu tempo por instigar conservadores com a estreia do Planet Hemp. Hoje, num tempo ainda mais retrógrado, a experiência do já cinquentenário cantor e compositor se torna necessária e bem-vinda. Um acerto.

Ouça primeiro: “Bem-Vindo Meus Cria”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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