Lou Reed: “New York” revisto e ampliado

 

 

 

Eu conheci Nova York em 1993. Era uma excursão muito bacana, que saía de Miami e ia até a Grande Maçã, de ônibus. Fomos, minha mãe e eu, percorrendo este trajeto pelo sul- sudeste americano até passar por Washington e, de lá, adentrar Manhattan por uma daquelas pontes que ligam a ilha ao continente. Próximo do ponto de entrada, o guia colocou “New York, New York” no sistema de som do ônibus, enquanto os prédios iam ficando mais e mais próximos. Lembro de não me dar conta exatamente do tempo de travessia da ponte, mas recordo nitidamente de como aquela cidadela de concreto logo era parte absoluta da paisagem. E daí pra frente, nós e a cidade éramos uma coisa só. Já se vão 27 anos e ainda vejo os prédios se aproximando e aquela ideia de turista-jeca de que entrar em NYC significa algo semelhante a visitar um zoológico humano em que quase tudo possível existe em relativa harmonia. Tem comércio, tem gente de tudo que é canto, tem locação de filmes que a gente já assistiu, tem Empire State, tem Estátua da Liberdade, tem as avenidas e ruas perpendiculares entre si e tinha o World Trade Center, o qual cheguei a conhecer. Mas você sabe, pressente que aquela fauna de elementos vive um equilíbrio estranho. Há algo de errado naquilo tudo.

 

“New York”, o disco de Lou Reed, lançado em 1989, é uma espécie de prova disso. Nada desta exuberância capitalista, dessa ostentação do sonho americano. Esta é uma cidade que tem problemas, maldade, injustiça, sofrimento e decepção. E ela tem seus cronistas: Woody Allen é um. Lou Reed é outro. Há mais. Lou sempre teve a cidade como sua musa, como cenário de seus discos e músicas. E ele nunca foi exatamente generoso em abrir espaço para todo mundo compreender exatamente o que ele cantou. Em “New York”, o disco, ele fez o contrário: escancarou o entendimento de gente que nunca havia pisado na cidade, levou o drama humano das ruas de Manhattan para as ruas de quase qualquer cidade enorme do planeta. É quase como se os monumentos e pontos turísticos de NYC surgissem como contraste para a tragédia mundana. Opressão sob a Estátua da Liberdade. Injustiça mundial simbolizada pelo WTC, que seria destruído anos depois. Decadência nas ruas sujas, na fumaça que sai do esgoto e nos táxis amarelos, pilotados por imigrantes de vários lugares do mundo. Está tudo nas 14 faixas do disco.

 

E agora, está nas outras 28 canções que a edição ampliada, lançada ontem, marcando o 31º aniversário do álbum, traz. São mais dois discos, um deles com versões ao vivo das faixas, gravadas em lugares como Dinamarca, Inglaterra e em cidades dos Estados Unidos, que Lou visitou na turnê do álbum. No terceiro disco há um monte de rascunhos, outtakes e duas apresentações ao vivo de “Sweet Jane” e “Walk On The Wildside”, feitas em agosto de 1989, em Richmond, Virginia. A turnê de “New York” foi marcada por shows em que Lou tocava o álbum em sua totalidade, seguindo o conselho que dava no encarte do mesmo: “ouça como se fosse um filme”. É um aviso para que nenhuma faixa seja deslocada deste contexto literário em que ele situa o álbum. É um livro, uma peça que comportaria uma outra forma de expressão.

 

E também uma declaração de que há chance de usar os cenários sujos e decadentes de uma Nova York, que só ele conhece, como pano de fundo para situações universais. A abertura, por exemplo, com “Romeo Had Juliette” recria o drama shakespeariano em lugares como o Brooklyn oitentista, não o lugar hypado que ele se tornou nos anos 2000. As tragédias da vida real também estão lá. E como estão. Tem a AIDS pré-coquetel de “Halloween Parade”; tem o problema do desabrigo em “Dirty Blvd.”, que fala dos “Welfare Hotels” da cidade, na verdade, lugares para se passar a noite. Tem “Endless Cycle” sobre violência doméstica; tem a preocupação com o meio ambiente em “Last Great American Whale” e considerações sobre ter filhos em “Beginning Of A Great Adventure”. O desafio de sobreviver só com a fé, em “Busload Of Faith”; tem referências ao pastor Jesse Jackson em “Good Evening, Mr Waldheim, falando sobre antissemitismo; a pobreza e a importância da ajuda aos mais pobres em “Christmas In February”.

 

“New York” marcou a chegada de Lou Reed à Sire Records. Também é considerado o seu melhor trabalho nos anos 1980 – muitos o consideram o seu melhor disco solo – e ele ressurge acompanhado por novos e sensacionais músicos: Mike Rahtke (guitarras), Rod Wasserman (baixo) e Fred Maher (bateria). Além deles, “New York” conta com participação de Dion em “Dirty Blvd.” e Mo Tucker, do Velvet Underground, tocando percussão em “Last Great American Whale” and “Dime Store Mystery”. Seu relançamento em versão tripla é uma forma de mostrar a contundência do original e reafirmar a precisão que Lou Reed sempre teve quando o assunto é … Nova York. Um clássico do rock atemporal.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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