Madonna volta a ser relevante em novo álbum

Madonna – Confessions II
63′, 16 faixas
(Warner)
(4,5 / 5)
Madonna fez seu melhor disco desde 2005, justamente o ano do lançamento do primeiro “Confessions On The Dance Floor”. Com ele, há mais de vinte anos, ela cravou o último momento em que desfrutou de uma certa e inquestionável unanimidade de crítica e público, ocupando uma posição que lhe pertencia por direito – a de ditar tendências, capitanear uma modernidade artística e estética no terreno do pop dançante e, mais que isso, exercer uma certa ascendência sobre artistas que se dispunham a reivindicar um papel de destaque nesse terreno. Dali em diante, ela meio que foi engolfada pelas tendências e informações geradas, cada vez mais rápido, pelos ritmos, tons, situações e novas estéticas, se tornando muito mais uma seguidora do que uma vanguardista. Não por acaso, neste período, ela produziu aqueles que parecem ser os seus piores trabalhos – “Hard Candy” (2008), “MDNA” (2012), “Rebel Heart” (2015)” e “Madam X” (2019). Agora, com “Confessions 2”, ela resgata esse protagonismo perdido e retorna a um caminho no qual já provou ser soberana – a pista de dança de matriz oitentista, funk, pop, anglo-americana, a mesma na qual surgiu e que transformou por diversas vezes ao longo do tempo. Saem as tentativas superficiais de fazer trap, pop latino e outros idiomas nos quais Madonna não era exatamente fluente e voltam os timbres e detalhes dançantes, sob a batuta de Stuart Price, o mesmo produtor do primeiro “Confessions”. Ou seja, Madonna está em casa.
Relatos de bastidores sugerem que as sessões foram despidas de grandes equipes de marketing, focadas apenas em obter sonoridades ideais dos sintetizadores vintage, atuando dentro da lógica da acid house de Chicago. Com a maioria das faixas assinadas exclusivamente pela dupla, Madonna reassumiu o posto de arquiteta, e a “crocância” deste trabalho está na recusa ao polimento digital estéril. Enquanto a indústria tenta limpar qualquer aspereza sonora em softwares, “Confessions II” se permitiu preservar o estalo do vinil e a textura de um estúdio real, algo relativamente raro para um trabalho de música sintética. Não que isso seja decisivo, mas é um sintoma interessante de uma busca por algo mais real, legítimo, talvez. O que é importante em “Confessions II”, é que ele emerge com mais ressonância do que um mero trabalho “dançante”. Por mais que as faixas sejam “rápidas” e feitas para o sacolejo na pista de dança, há informações que vão na direção oposta, como, por exemplo, o luto pela morte do irmão, Christopher Ciccone.
Além disso, também estão presentes as complexidades e asperezas de uma maturidade sob décadas de holofotes e exposição constante. Faixas como”The Test” e “L.E.S. Girl”, onde o uso do apelido “Little Star” são sobre esse aspecto, sendo que, nesta última, há conexão direta com a era “Ray of Light”, com Madonna, durona e autoconfiante quase sempre, assume uma certa vulnerabilidade, que não parece roteirizada para o marketing. É mais um embate entre a figura pública da “Rainha do Pop” e a mulher que, aos 67 anos, começa a lidar com a finitude. Mas, como a gente sempre diz por aqui, é preciso um elemento indispensável para que um álbum seja bom. Canções. Boas, robustas e sensacionais canções e “Confessions II” traz a melhor safra que Madonna coloca num trabalho desde o próprio “Ray Of Light”, até hoje, o seu melhor trabalho nesta seara dançante, superior mesmo do que o primeiro “Confessions”. Temos uma verdadeira pororoca de timbres, detalhes, batidas, reviravoltas e situações rítmicas que não apareciam tão bacanas num álbum de Madonna há muito, muito tempo.
Desde o primeiro single, “I Feel So Free”, que abre o álbum, Madonna vai direta e reta, sem escalas, rumo ao que a pista de dança pode ter de melhor – o local de exorcismo de situações opressoras, tomada de posição e afirmação. Esta primeira canção tem teclados, programações e tudo que é importante, mas não abusa de timbres e modernismos, é elegante, meio contida até. Outro momento ótimo é “One Step Away”, que já tem mais timbres de teclado emulando cordas percussivas, com uma batida elegante, aerodinâmica na medida certa. A participação de Sabrina Carpenter em “Bring Your Love”, cumpre esse papel de “bença” que Madonna gosta de fazer com jovens artistas, e não compromete dentro do conjunto geral. Mas há um quarteto de canções que se coloca de um jeito superior dentro do que já é bom: “Danceteria”, que tem um certo parentesco atemporal com “Vogue”, mas sem qualquer traço de nostalgia, é a primeira delas. “Love Sensation”, mais leve que o ar, parece até uma faixa produzida pelo The Avalanches, uma das melhores gravações de Madonna em todos os tempos. “My Sins Are My Savior”, com participação do produtor e rapper belga Stromae, é outra porrada, a vice-campeã do álbum, com um batidão elegante, meio big beat, meio “Erotica’, lindeza total. E “The Test”, com a cantora Lola Leon, também tem uma pegada orgânica que funciona bem no meio de tanta faixa mais sintética. Além dessas, há traquinagens de Stuart Price, como a inclusão quase transgressora do piano de Erik Satie em meio ao breakbeat de “Betrayal”. Toque de gênio no meio do todo.
Por fim, a discussão sobre a relevância de “Confessions II” levanta uma questão honesta: estaríamos diante de mais uma jogada de mestre de uma das maiores estrategistas de marca da história? É plausível que Madonna tenha percebido que a “nostalgia de luxo” é, hoje, muito mais lucrativa do que a disputa desigual por um hit nas plataformas de streaming contra artistas muito mais jovens. No entanto, se o preço da manobra for esse, a gente paga com prazer. Ela voltou para a casa que construiu e, pela primeira vez em muito tempo, sua música não soa como um produto, mas como um manifesto. Ela deixou de ser a passageira que tentava acompanhar o ritmo alheio e reassumiu o controle da nave. Madonna, finalmente, volta a fazer sentido e isso é bom.
Ouça primeiro: “Danceteria”, “Love Sensation”, “My Sins Are My Savior”, “The Test”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
