Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy

Gênero: Rock alternativo, Lo-fi
Duração: 46 min
Faixas: 13
Produção: Mac DeMarco
Gravadora: Mac’s Record Label
3 out of 5 stars (3 / 5)

Mac DeMarco sempre me pareceu um cara mais conduzido pelo hype do que por algum suposto talento como músico, cantor e compositor. O sujeito é esperto e tem razoável senso de oportunidade, mas sua música oferece pouco além da já manjada releitura lo-fi de gêneros gloriosos do passado, a saber, o AOR e alguma vertente branquela de funk setentista esquecida pelo tempo. Parece uma espécie de Jack Johnson indie, referendado por uma mídia alternativa com uma boa vontade acima do normal para com ele e seus discos. Verdade seja dita, o trabalho anterior, “This Old Dog”, no qual revisita com força os tiques e taques do soft rock americano setentista, continha boas ideias e composições interessantes, mas exalava aquela impressão de que o espírito resvalava para aquele mecanismo pós-moderno de “olha, sou muito cool e estou revisitando preguiçosamente este estilo”. Saco.

Com este “Here Comes The Cowboy” a coisa vai pelo mesmo caminho. DeMarco segue com sua pegada lo-fi de poucas variações e vocais desleixados, com baixo. bateria e guitarras no limite do aceitável, revisitando climas e sons que são muito familiares para quem viveu nos anos 1970/80. Para quem nasceu no ano 2000, por exemplo, a música do sujeito deve ter ares transcendentais. Mas, até pra esse pessoal, deve ser duro aturar uma primeira faixa, justo a que leva o título do disco, se limitar a repetir a frase ‘Here comes the cowboy” ao longo de pouco mais de três minutos. Aquela sensação de tiração de sarro e coolzice volta com tudo.

Ouvindo adiante, percebe-se que o clima do disco é esse. A largação sonora intencional domina as ações. Isso pode ser extremamente chato – além da faixa-título – em canções como o single “Nobody”, que funciona como um bom indutor do sono involuntário; ou em “Finally Alone”, que tem uma levada que suscita fofura mas que é estragada pela voz anasalada de Mac. A chapação presente em “Little Dogs March” também chega a irritar bastante, mas, felizmente, a canção tem dois minutos e meio de duração. A coisa começa a melhorar um pouco em “Preocuppied”, que tem um refrão grudento e uma levada que poderia ser comparada à de James Taylor, não fosse a voz de Mac, totalmente diferente.

O disco começa a ganhar algum contorno realmente legal na sexta faixa, “Choo Choo”, que parece um rascunho do Parliament do fim dos anos 1970, tocado anonimamente por algum roadie branquelo e clandestino. Além dela, mas totalmente distante deste arremedo funk, estão outras duas canções que fazem sentido: “On The Square”, que tem levada pianística discreta e melodia ok e a melhor faixa do álbum disparado: “All Of Our Yesterdays”, na qual Mac dá um sinal inequívoco de que está vivo, cantando um belo refrão que explode além da melodia, no qual o arranjo brilha e faz sentido, dissipando qualquer impressão de ironia estética.

Mac DeMarco tem pouca ou nenhuma novidade para quem está no planeta há mais tempo, mas pode ser interessante para quem chegou há pouco. Só precisa equilibrar estética, talento e conceito, para ser um dos interessantes cantores e compositores. Este “Here Comes The Cowboy” funciona quando ele está acordado.

Ouça primeiro: “All Of Our Yesterdays”.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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