Lloyd Cole – Guesswork

 

Gênero: Eletrônico, rock
Faixas: 8
Duração: 44 min
Produção: Lloyd Cole
Gravadora: Ear Music

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Lloyd Cole é um intelectual. Um sujeito com potencial lírico e artístico para ser uma contraparte de Morrissey, mas que preferiu levar uma vida, como gostam de dizer os ingleses, “under the radar”. Isso não quer dizer que ele tenha deixado sua verve musical de lado. Ficou até 1989 com sua banda, The Commotions, ingressando numa carreira solo multifacetada e cheia de acertos, porém discreta, logo em seguida. Neste momento de mudança, ele fixou residência na Costa Leste americana e passou a exercitar seu lirismo e abordagem da música pop pela via pós-punk. Nestes 30 anos transcorridos, Cole sempre manteve suas marcas intactas, a saber, a voz profunda e emocional, as ótimas composições e a elegância. “Guesswork” é o mais novo capítulo desta história. E um dos bons.

 

A novidade por aqui é a mistura da experimentação eletrônica com a veia pop tradicional do sujeito. Convenhamos: nada de novo, uma vez que Cole já deu suas voltinhas no terreno da eletrônica no passado recente e o que ele faz em “Guesswork” está bem longe da experimentação. São arranjos e roupagens com sintetizadores, que dão uma dimensão de elegância ainda maior às composições, que também seguem seu modelo de canção desde o início da carreira. Ou seja: tudo aqui poderia estar num disco com arranjos de baixo, bateria e guitarra, mas a opção pela abordagem mais polida e calcada nos sintetizadores confere um ar novidadeiro que cai bem ao tradicionalismo de Lloyd Cole. A seu lado estão dois ex-Commotions, Neil Clark (nas guitarras) e Blair Cowan (nos sintetizadores e programações). Fechando a trinca de colaboradores, Fred Maher, que também maneja synths e teclados, e já cerrou fileira ao lado de gente como Lou Reed e do próprio Cole.

 

As angústias que forneceram combustível pras canções de Cole no passado – sempre orbitando o amor não correspondido ou a beleza desta correspondência quando ocorria – agora são diferentes. As oito composições tratam da sensação de desajuste vivenciada por gente que está na casa dos cinquenta e tantos anos – Cole tem 58 – e ainda se sente jovem, produtivo, atento e capaz de vivenciar experiências consideradas “jovens” para quem cresceu num mundo que envelhece bem diferente do que há algumas décadas. E toda essa visão de desajuste temporal/atividades permeia a pena de Cole em momentos inspirados como “mostly I prefer to live in the future”, em “Moments and Whatnot”, mas isso pode se transformar no mesmo dizendo “I’m a complicated motherfucker”, em “Night Sweats”.

 

Há faixas realmente belas por aqui. Além da já mencionada “Night Sweats” (que tem fraseados de teclado com tom oriental mas que lembram “All My Loving”, do Led Zeppelin), há a maravilhosa “Violins”, primeiro single lançado, que tem um instrumental que lembra os momentos mais acessíveis do Kraftwerk, como em “Computer World”, por exemplo. “The Afterlife” também tem seu charme, com uma programação que soa mais moderna que a maioria do álbum. A melodia é linda, a voz é triste, a impressão é de alguém olhando por uma janela com pingos de chuva para uma paisagem cinza de prédios e gente de guarda-chuva passando lá embaixo. “When I Came Down From The Mountain” é o mais dançante que Cole pode chegar do termo. A letra começa com “The air was heavy with the whore’s perfume when I came down from the mountain”, emulando algo que Leonard Cohen poderia ter escrito em seus últimos dias. A produção – a cargo do próprio Cole – é cristalina e precisa.

 

“Guesswork” é um disco límpido mas que esconde camadas de compreensão que vão das letras aos arranjos e demanda um tempo de circunavegação que pode ser excessivo para os padrões atuais. Quem parar e dedicar 44 minutos à sua completa audição, será recompensado e terá algumas canções memoráveis esperando pela revisita inevitável. Lloyd Cole é gênio.

 

Ouça primeiro: “Violins”

 

 

English version.

 

Lloyd Cole is an intellectual. A guy with lyrical and artistic potential to be a counterpart to Morrissey, but who preferred to lead a life, as the English like to say, “under the radar.” This is not to say that he has set aside his musical verve. He stayed until 1989 with his band, The Commotions, entering a solo career multifaceted and full of accuracy, but discreet, soon after. In this moment of change, he settled in the US East Coast and began exercising his lyricism and approach to pop music via the post-punk route. In these 30 years, Cole has always kept his marks intact, namely the deep and emotional voice, the great compositions and the elegance. “Guesswork” is the newest chapter in this story. And one of the good ones.

 

New here is the mix of electronic experimentation with Cole’s traditional pop vein. Let’s face it: nothing new, since he has already turned around of electronics in the recent past and what he does in “Guesswork” is far from experimentation. They are arrangements and clothes with synthesizers, which give a dimension of even greater elegance to the compositions, which also follow their song model from the early career. In other words, everything here could be on a disc with bass arrangements, drums and guitar, but the option for the more polished and squashed approach on synthesizers gives a novelty look that fits Lloyd Cole’s traditionalism. By your side are two former Commotions, Neil Clark (on guitars) and Blair Cowan (on synthesizers and programming). Closing the team of collaborators, Fred Maher, who also handles synths and keyboards, and has already closed ranks with people like Lou Reed and Cole himself.

 

The anguish that fueled Cole’s songs in the past – always orbiting unrequited love or the beauty of this correspondence when it occurred – now they are different. The eight compositions deal with the feeling of misfit experienced by people in their fifties – Cole is 58 – and still feels young, productive, attentive and capable of living experiences considered “young” to who grew up in a world that is aging quite differently than a few decades ago. And all this view of temporal misfit / activities permeates Cole’s worth in moments inspired by “mostly I prefer to live in the future” in “Moments and Whatnot” but it can turn into the same saying “I’m a complicated motherfucker” in “Night Sweats “.

There are really beautiful tracks here. In addition to the already mentioned “Night Sweats”, there is the wonderful “Violins”, first single released, which has an instrumental reminiscent of the Kraftwerk’s most accessible moments, such as “Computer World”, for example. “The Afterlife “also has its charm, with programming that sounds more modern than most of the album. The melody is beautiful, the voice is sad, the impression is of someone looking for a raindrops window to a gray landscape of buildings and umbrella people passing down there. “When I Came Down From The Mountain” is the most dance that Cole can come from the term. The lyrics start with “The air was heavy with the whore’s perfume when I came down from the mountain “, emulating something Leonard Cohen could have written in your last days. The production – Cole himself – is crystal clear and precise.

“Guesswork” is a clear record that hides layers of understanding from lyrics, arrangements and demands a time of circumnavigation that may be excessive by current. Those who stop and devote 44 minutes to their full listening will be rewarded and given some memorable songs waiting for the inevitable revisit. Lloyd Cole is a genius.

 

Essential listening: “Violins”

 

2+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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