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A voz aveludada e soul de Samantha Schmütz

 

 

 

 

Samantha & Adrian – Samantha Schmütz e Adrian Younge
35′, 9 faixas
(Linear Labs)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Provavelmente você conhece Samantha Schmütz dos programas de humor televisivo, da encruzilhada Zorra Total/Multishow. Ou de filmes como “Tô Ryca”. Ela é engraçada e tem talento na arte de fazer rir, porém, os mais atentos hão de lembrar que, em entrevistas aqui e ali, Samantha já disse também ser cantora. De fato, uma olhada em seu perfil na plataforma de streaming Spotify aponta alguns singles postados desde 2020, nada especial. Mas, do fim de 2024 para cá, Samantha disponibilzou quatro canções gravadas com o produtor e músico americano Adrian Younge, um dos grandes revivalistas da soul music setentista, dono de um gosto bastante amplo e especialmente devotado à produção brasileira daquela década. Para quem não o conhece, sugiro ler a resenha que fizemos sobre o álbum de canções inéditas que ele lançou com Hyldon há alguns meses (link aqui). Pois bem, Younge e Samantha estabeleceram uma parceria surpreendente e o resultado está aqui: “Samantha & Adrian” é um discaço em que Younge provê a atmosfera de arranjos e tons do soul funk de FM – que alimentou muito a música samba-funk-soul brasileira setentista – e Samantha encarna uma cantora com voz surpreendente e cheia de personalidade.

 

O álbum foi produzido e gravado no Linear Labs, estúdio 100% analógico de Younge em Los Angeles e soa grandioso, orquestral e cheio de alma. Estabelece uma conexão forte e autêntica entre a tradição da MPB e a elegância da soul music californiana dos anos 1970. É admirável ver como Samantha soa engajada, vulnerável e sincera ao longo das dez faixas compostas pela dupla. Ela não imita ninguém, estabelece um estilo próprio, mostrando que domina a técnica necessária para soar forte em meio ao instrumental que Adrian provê. É uma postura que se ofuscou em meio ao seu grande sucesso como atriz. Nascida em Niterói em 1979, desde pequena ela cantava junto com os discos que seu pai ouvia em casa. A música sempre esteve no centro de seus interesses artísticos. Ao escrever as letras das canções, tudo soa ainda mais natural e admirável, corajoso até, visto que são íntimas, poéticas e cruas. Adrian, que já trabalhou com gente como Marcos Valle, Joyce e João Donato, forneceu o cenário perfeito para que ela expressasse quem ela realmente é. É um lado de Samantha que seus fãs nunca viram antes.

 

Os dois se conheceram num evento do selo de Adrian, Jazz Is Dead. Depois de vê-la se apresentar com Criolo, ele se inspirou a escrever músicas que dariam conta de sua amplitude vocal e emocional. Convite para gravar juntos feito e aceito por ela, os dois criaram harmonias, melodias e Samantha escreveu as letras. Assim como o disco gravado com Hyldon, este “Samantha & Adrian” se beneficia pelo ineditismo das canções, não resvalando para o terreno fácil e banal das versões. O resultado é como se ouvíssemos um artefato de outro tempo, com autenticidade impressionante. Os arranjos são belos, adequados e bem feitos, completados com precisão pelas palavras.

 

Como vários discos feitos em nosso tempo, há o perigo do conceito superar a qualidade estética do álbum. Felizmente, isso não acontece por aqui. Ainda que, para os mais velhos, haja pouca ou nenhuma originalidade nas dez canções, é impossível não se admirar com o capricho e a ambiência que Younge conseguiu imprimir nas faixas. Há ótimos momentos ao longo dos pouco mais de 35 minutos. “Nossa Cor”, que foi o primeiro single lançado, tem uma levada que mistura soul e bossa nova, com belas inserções de vocais de apoio, metais e cordas, tudo muito belo e bem feito. “Depois do Amor” tem melodia dramática e arranjo que brinca com psicodelia e floreios de cordas que surpreendem a cada pequena alteração na melodia. “More Than Love” já tem estética totalmente inspirada na disco music e traz o dueto entre os dois, num momento que reedita muitas canções do fim dos anos 1970. Nossas preferidas, no entanto, são “Quando o Sol Chegar”, que tem débito com o soul setentista brasileiro em todo o seu esplendor, com ótima orquestração de cordas e orquestra, com ótimos vocais de Samantha, agudos na medida certa. , a profundidade espiritual das tradições afro-brasileiras brilha, um testemunho da herança africana compartilhada que une a música brasileira e americana. A outra é “Samba Canção”, com silêncios e detalhes que vão acompanhando a voz de Samantha, que plana solene: “aumente o volume do coração”. E “Revoada”, na qual Samantha chega a lembrar o timbre de Elis Regina.

 

“Samantha & Adrian” é um belo disco. Surpreendente não só pelos vocais, mas pela precisão com que suas nove faixas se alinham a um momento da produção musical brasileira que vem sendo muito revisitado. Ainda bem. Ouça.

 

Ouça primeiro: “Samba Canção”, “Quando o Sol Chegar”, “Depois do Amor”, “More Than Love”, “Nossa Cor”, “Revoada”.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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