Lenny Kravitz – Lollapalooza, 06/04/19

Lenny Kravitz: 4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Duas metáforas para entendermos Lenny Kravitz. A primeira é futebolística: ele é aquele jogador que a crônica esportiva chama de “cigano”. Saiu cedo do país, tem experiência no exterior, fora dos grandes centros, voltou para o Brasil veterano e já defendeu vários times, sempre com competência e profissionalismo. A outra é alimentar: ele é como um almoço na casa da avó nestes tempos de hoje. Nada de comida processada, hamburguer artesanal e outras invenções do sistema. O tempero, o cardápio, o amor ao cozinhar é que determinam o sucesso e comer na casa da avó – ou da mãe, da sogra etc – é sobre isso.

Lenny talvez só tenha sido um artista do primeiro time do pop lá pela metade dos anos 1990. Surgiu como um revisionista do rock no início da década, com três bons discos em sequência: a estreia, “Let Love Rule”, em 1989 e os dois seguintes, “Mama Said” (1991) e “Are You Gonna Go My Way”, de 1993. Lenny transmutou-se num hitmaker com o passar do tempo, chegando aos píncaros do sucesso quando gravou uma versão de “American Woman”, dos canadenses do Guess Who, e “Fly Away”, já em 1998. Depois sua carreira nunca mais teve relevância semelhante e ele passou a ser um artista com um bom show ao vivo, com hits e uma abordagem da música “padrão século 20”, ou seja: bons músicos, bom repertório, quantidade razoável de improvisação no palco – para padrões atuais, claro – e um bom senso que os artistas atuais parecem não ter.

Com estas credenciais, Lenny subiu ao palco disposto a fazer o feijão com arroz bem feito e temperado que sempre entregou. Foi executando hit atrás de hit, à frente de uma banda que trazia bons músicos, como a baixista Gail Ann Dorsey e o guitarrista Craig Ross, capazes de solos, riffs, linhas de baixo fora dos originais, algo que sempre cria aquela velha impressão de – oh, estamos ao vivo, não ouvindo o disco. Nesta onda, “American Woman” transforma-se numa pequena jam, com direito a citação de “Get Up Stand Uo”, de Bob Marley. Seria óbvio nos anos 1990, soou como a chegada do profeta em 2019.

Diante da falta de cancha dos artistas atuais em compreender a mágica do show ao vivo, Lenny e sua visão noventistas de apresentação o fez tornar-se diferente de tudo o que apareceu no Festival até agora. E não é nada mau ver interpretações dedicadas de sucessos legais como “Always On The Run”, “Are You Gonna Go My Way”, “Believe”, “Fly Away” e “It Ain’t Over Til It’s Over’, modificada no andamento, como pedem os shows ao vivo.

Kravitz saiu do palco aclamado e tenho certeza que suas músicas velhuscas – mas competentes – foram parar nas playlists de um monte de gente presente ontem no Lolla.

Foto: Equipe MRossi

Setlist:

“Fly Away”
“Dig In”
“American Woman”
“Low”
“It Ain’t Over ‘Til It’s Over”
“Believe”
“Always on the Run”
“Where Are We Runnin’?”
“Again”
“Let Love Rule”
“Are You Gonna Go My Way}”

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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