A engajada “P…da Vida”

 

 

Talvez você nunca tenha notado, mas “P da Vida” é uma análise de conjuntura dos primeiros momentos do governo Sarney. Mais ainda: é uma análise involuntária dos primeiros anos do neoliberalismo como modalidade de capitalismo adotada no mundo.

 

Composta pelo italiano Lucio Dalla em 1984, com o nome de “Tutta La Vita”, a canção recebeu versão em português de Edgard Poças, respeitado músico que teve origens na cena do início dos anos 1960 e que abraçou a carreira de produtor de jingles nos anos 1970, chegando a compor canções para campanhas do Mc Donalds e da gelatina Royal.

 

Poças, que é pai da cantora Céu, foi responsável pelas canções do primeiro álbum da Turma do Balão Mágico, no início dos anos 1980 e poderia fazer uma letra sem qualquer engajamento político para a versão em português de “Tutta La Vita”, mas optou por analisar o momento do mundo naquele 1986/87.

 

Ele fala de guerras, da ineficiência da ONU, desmatamento, de opressão econômica mundial, do Plano Cruzado (baixado pelo ministro Dilson Funaro em 1986), da corrupção, de preconceito de cor e gênero e das iniciativas humanitárias de artistas americanos, com a música “We Are The World”, gravada para angariar fundos para o combate à fome na África e ressalta a disposição das pessoas em enfrentar as adversidades com união e otimismo, acreditando que as coisas vão melhorar.

 

Não há qualquer engajamento político-partidário na letra, não há palavras de ordem, mas “P da Vida” é um caso único de canção “séria” gravada por uma boy band no período, no caso, o Grupo Dominó, que estava em seu terceiro disco. Além da letra, o arranjo de “P da Vida” é puro pop oitentista e, como tal, não deixa nada a dever em relação ao que era feito na época.

 

Fica a certeza de que, caso fosse composta em 1971/72, “P da Vida”, teria problemas com o crivo da censura militar.

 

OBS: como dissemos, é claro que a letra de “P da Vida” não fala em revolução ou algo mais agudo em termos de inconformismo, mas é admirável, dadas as circunstâncias e os envolvidos, ver uma canção como esta sendo cantada pelo público habitual do Dominó à época.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “A engajada “P…da Vida”

  • 14 de novembro de 2019 em 13:55
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    Sob o efeito do RiR, Afonso montou uma super banda de apoio que contava com Kiko Loureiro; hoje no Megadeth.

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