Lembrando dos Mulheres Que Dizem Sim

 

O Rock brasileiro dos anos 1990 era tão diferente do que se fazia na década anterior que exigiu uma renovação quase total na cena de artistas e bandas em atividade. Se medalhões como Paralamas do Sucesso, Titãs e Legião Urbana enfrentavam momento de decadência, uma nova galera surgia para disputar a preferência do público, cada vez mais diferente, mais influenciado por uma contradição elementar, mas típica da época: em tempos de globalização, o caminho mais viável comercialmente apontava para traços peculiares e cada vez mais regionais. O lance era fazer Rock com elementos tipicamente brasileiros, variando de região para região dentro do território nacional. Vinham Raimundos com a mistura de Rock com Forró, Skank com Reggae de branco e mineirices diversas, a turma de Manguebeat com sua caldeirada de ritmos pernambucanos, devidamente conectados com Hip Hop, Funk e Rock sessentista e, mais discretamente, vinha uma banda carioca que durou pouco, mas que honrava uma linhagem nobre de formações interessantes surgidas na Cidade Maravilhosa e que lançaria várias sementes na cena musical que surgiria mais tarde, no fim da década e adentraria o milênio. Estamos falando de Mulheres Q Dizem Sim.

 

Tive a sorte de ver um show do grupo no Teatro Odylo Costa Filho, na gloriosa e tradicional UERJ. Eu, então estudante do segundo ano de Jornalismo, celebrei com meus amigos uma temporada de apresentações interessantes de gente legal, que a universidade ofereceria gratuitamente ao público – alunos e não alunos – naquele ano. Além de gente mais conhecida, como Cássia Eller, Sandra de Sá e o grupo vocal Boca Livre, estava o quarteto formado por Palito, Maurício, Pedro Sá e Domenico Lancellotti, que escolheu o nome a partir de um filme pornô. A banda estava lançando seu disco homônimo pela Warner e surgia como uma aposta da gravadora, num páreo que também trazia o ex-vocalista de Picassos Falsos, Humberto Effe, O Rappa, entre outras formações cariocas em busca do tal lugar ao sol, dentro da nova lógica. A receita do quarteto era simples e ambiciosa: misturar elementos de Rock, Jazz, Samba, Funk e uma novíssima malandragem urbana carioca, algo que surgira na esteira da década anterior, fruto da aproximação crescente entre Zona Norte e Zona Sul, com influências e vivências que tinham a distância cada vez mais encurtada dentro do Rio de Janeiro. Algo semelhante, porém muito à frente do tempo, fora registrado pela própria Picassos Falsos em 1989, em seu segundo álbum, Supercarioca (que ainda será alvo de texto nesta coluna). A banda trazia a mistura ambicionada por Mulheres Q Dizem Sim, mas a proposta fracassara comercialmente. O resultado desta vez poderia ser outro, uma vez que a MTV estava interessada na divulgação de todas estas novas bandas. Em pouco tempo, a programação da emissora exibiria o clipe de Eu Sou Melhor Que Você, uma das composições mais legais do álbum.

 

Além dela, outras duas canções surgiam com potencial de pequeno clássico: SOS, com o maravilhoso verso “Intelectuais aqui não sabem que é salgada a água do mar. Darks a quarenta graus não sabem que o Sol tem vitamina D” e, a melhor, Cinema Francês, cheia de ritmo de Samba com guitarras crocantes e abrindo com o definitivo versinho: “se eu nunca te disse pra sair, saia, por favor, é verdade, eu não sou mais aquele cara que eu já fui mas nunca tinha de ser, cinema francês”. Claro, pela complexidade e inteligência dos trechos destacados, já é possível perceber que as paradas pop não estavam exatamente preparadas para a verve do Mulheres. A inventividade dos arranjos, o talento da dobradinha de guitarristas Maurício e Pedro Sá, a boa bateria de Domênico e o baixão suingado de Palito, nada conseguiu salvar a banda do ocaso. Mesmo assim, como dissemos no início do texto, as sementes dessa sonoridade foram lançadas. Em 1999, Los Hermanos iniciava sua trajetória agregando um pouco dessa lógica em sua mistura musical de Carnaval e Hardcore, algo que trazia muito dessa visão intelectual do Mulheres. Kassin, amigo de Domênico e da galera criativa da banda, assumiria a produção do segundo disco do grupo, Bloco do Eu Sozinho, em 2001.

 

Moreno Veloso, outro amigo do pessoal, formaria com Domenico e Kassin o coletivo +2, lançando álbum pouco tempo depois, com uma versão voz/violão para a clássica Eu Sou Melhor Que Você, primeiro hit da velha banda. Em 2005, Caetano Veloso, pai de Moreno, enxergaria em Pedro Sá o guitarrista ideal para alavancar sua nova mutação estética, através do lançamento de Cê, álbum que chamou a atenção pela informação musical atual e guitarras rascantes, cortesia de Sá. Além de Caê, do coletivo +2, de Los Hermanos, há participação de ex-Mulheres e amigos em álbuns de Talma de Freitas, da Orquestra Imperial, e toda uma ideia de música popular carioca, que também respingaria em grupos como Acabou La Tequila e Farofa Carioca, do qual surgiria Seu Jorge.

 

Esse pessoal modernizou a música produzida no Rio, colocou-a no mapa nacional e, mais ainda, no internacional. Em pouco tempo, Moreno, Kassin, Pedro Sá, Domenico, produziram e tocaram em discos de quase todo mundo importante na música nacional, de Gal Costa a Erasmo Carlos, passando pelos já citados Caetano e Los Hermanos. O ponto de partida para essa visão foi este álbum de 1994, que pode e deve ser redescoberto pelo maior número possível de pessoas.

 

Originalmente publicado em 22 de setembro de 2014 no Monkeybuzz.  Link aqui.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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