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Os Testamentos – A continuação de “O Conto da Aia” dá as caras

 

 

Seria burrice definir “Os Testamentos” como um mero “spin-off” de “O Conto da Aia”. Simplesmente porque Margareth Atwood, escritora de “O Conto”, movida pelo sucesso de sua adaptação para a TV, se inspirou a tal ponto que resolveu escrever uma sequência. Pareceria oportunismo se o livro original não fosse escrito e lançado em 1986, mais de trinta anos depois da versão para a TV (2017-2025). Daí nasceu “Os Testamentos – As Filhas de Gilead”, publicado em 2019, com uma história que dá continuidade ao drama dos personagens criados por Atwood. Se você ainda não sabe do que estamos falando, aqui vai um breve resumo: em algum ponto do futuro próximo, um atentado terrorista vai matar o presidente americano e boa parte dos políticos. No vácuo de poder se instalará uma facção religiosa católica radical, que ocupará posições de poder e causará a fragmentação dos Estados Unidos como conhecemos. De um lado, haverá Gilead, formada pelos territórios da Costa Leste, tomados por essa gente, e do outro, um campo de batalha em que rebeldes e forças militares lutarão em meio a um cenário de radiação nuclear, poluição e esterilidade. Sim, a fertilidade feminina tornou-se um objeto raro e pelo qual a sociedade irá cometer crimes terríveis. Em Gilead vai surgir uma norma social em que as mulheres ocuparão posições subalternas, serão proibidas de ler, de trabalhar e de ter opinião própria. Qualquer tipo de desvio, seja comportamental, sexual, será punido de forma severa. Só existirão para servir seus maridos. Nos estratos mais altos da vida em Gilead, os Comandantes – chefes militares – terão suas esposas e uma aia, que é uma mulher fértil, com a única função de procriar, visto que a própria esposa do líder é estéril. É neste cenário distópico e terrível que a ação de “O Conto da Aia” transcorre, mostrando a luta de June, uma editora que perde seu emprego, marido e filha e passa a viver como uma aia, na casa de um Comandante e de sua esposa.

 

Corta para “Os Testamentos”. Quando Atwood pensou numa continuação e a escreveu, levou em conta que já iam mais de trinta anos e acrescentou um intervalo de quinze anos ao novo livro. Mas, como a atualidade do assunto continuava ainda mais terrível, tudo o que há de mais hediondo em “O Conto da Aia” foi transposto para a trama atual, mudando o foco para o amadurecimento de duas meninas, vivendo na mesma sociedade. Com a produção da mesma Hulu, canal da Disney +, as filmagens inciaram-se em Agnes (Chase Infiniti, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Uma Batalha Após a Outra) é filha de um Comandante e está prestes a menstruar pela primeira vez. Ela estuda na Escola de Futuras Esposas da Tia Lydia (que, apesar do nome fofo e brega, traz uma das mais terríveis personagens de toda a literatura de sci-fi, vivida por Ann Dowd, que repete seu papel na série) junto com outras meninas da elite do país, quando recebe a incumbência de tomar conta de uma menina recém-chegada à cidade, vinda de Toronto, no Canadá: Daisy (Lucy Halliday).

 

Como no romance original e em sua adaptação, “Os Testamentos” tem uma atenção especial às cores das vestes femininas. Aqui, as meninas usam roupas rosa e as adolescentes usam violeta. Quando menstruam, ganham um pin que indica a “bênção da fertilidade” e iniciam o processo de preparação. E as que vêm de fora, como Daisy, usam branco, indicando o desejo de pureza. Na trama, Gilead se gaba de ser uma sociedade que acolhe qualquer pessoa que deseje “se purificar” e iniciar uma vida temente a Deus. Os três primeiros capítulos da primeira temporada já estão disponíveis na Disney +. O que temos é uma revisita aos planos aéreos de “Contos da Aia”, à ambientação asséptica das mansões de Gilead, violência costumeira das “Tias”, mulheres que existem para “ensinar” como as outras mulheres devem se comportar, tudo devidamente empacotado numa trama que também tem uma narração em primeira pessoa e ritos de passagem pesados. A amizade entre Daisy e Agnes fará com que elas iniciem um processo de conscientização e rebelião contra o sistema, com consequências definitivas. Se a trama seguir o livro de Atwood, ainda há um enorme segredo que conecta as duas histórias de forma inapelável. Daisy e Agnes estão diretamente ligadas a essa situação, que ficou pendente ao final de “Conto”, em 2025. Não vou dar spoilers, mas, se você viu a série ou leu o livro, sabe do que estou falando.

 

A série iniciou sua produção em 2023 e traz o mesmo Bruce Miller, responsável pelo sucesso de “O Conto da Aia”, como showrunner. A primeira temporada tem dez episódios previstos e já estamos na ansiedade total por aqui. O que é mais relevante, tanto em “Os Testamentos”, quanto em “O Conto da Aia”, é a conscientização de que, descontadas algumas poucas alegorias, o que está descrito ali já é vivenciado por nossa sociedade. Como toda a questão dos ataques às mulheres parece tristemente longe de uma solução, é sempre bom e necessário termos obras que falam dessa situação de uma forma contundente. Ver “Os Testamentos” é ter certeza de que estamos perigosamente perto de viver numa Gilead. E que isso parece inevitável se não pensarmos no que está sendo feito no mundo de hoje.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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