Jota Quest canta Tim Maia: por quê, gente?

Há muito tempo o jornalismo cultural no Brasil, via de regra, se caracteriza por não mencionar o que não acha válido. É como uma declaração de intenções velada, algo que, pessoalmente, sempre me pareceu mais omissão do que qualquer coisa. Eu ainda acredito que existe uma missão de informar contida nesse ofício, mas, vá lá, anda meio esquecida. Por isso, peço licença aos leitores e leitoras da Célula Pop ao quebrar esse mandamento e abrir um espaço para, digamos, falar mal da recente empreitada da banda mineira Jota Quest, que presta duas homenagens: uma, mais evidente, a Tim Maia, cujo repertório serve de motor para o novo álbum e show do grupo, que irá para o palco do Rock In Rio no próximo dia 6. A segunda, mais discreta, é uma auto-homenagem, de chegar aos trinta anos de carreira usando a capa de Tim, seja no mencionado repertório, seja na história de que teria sido ele a sugerir a troca de nome de JQuest para Jota Quest, sendo considerado assim, uma espécie de padrinho dos simpáticos mineiros. O álbum, que está nas plataformas de streaming, é assunto desse texto. A banda foi mencionada aqui duas vezes antes: num episódio de “Diário de Uma Tiete”, da minha amiga Chris Fuscaldo e num verbete de “44 Músicas Insuportáveis dos Anos 2000”. Este, no entanto, é o primeiro textão que o Jota recebe em quase oito anos de Célula.
Sendo bem sincero: eu só gosto do primeiro trabalho do grupo mineiro. Quando surgiu para o mundo, a bordo da efervescência da MTV daquele 1996, aquilo parecia uma versão marota e moleca do Jamiroquai, infusionada com irreverência brasileira legítima. Além disso, os integrantes usavam perucas performáticas e tudo parecia legal. A versão de “As Dores do Mundo”, de Hyldon, transformada num acid funk dançante, era um baita cartão de visitas. Além dela, “Onibusfobia”, que trazia trechos de “Neurastênico”, canção gravada pelos Cariocas e atualizada ao longo da Jovem Guarda era bem legal e criativa. Havia outra cover, “Dance Enquanto É Tempo”, do repertório de Tim Maia em seu disco pós-racional de 1976 e o single autoral “Encontrar Alguém”, igualmente bacana, mostrava que dava pra confiar nos caras como compositores. Ou seja, o JQuest de 1996 era uma promessa interessante que se diluiu completamente no segundo álbum, “De Volta Ao Planeta”, de 1999, quando canções como a faixa-título, a terrível “Fácil” e a baladona “O Vento” mostraram que a banda optara por um caminho menos criativo, apostando num formato mais popular e menos interessado no que era feito na cena funk pop mundial. A partir daí, já como Jota Quest, os álbuns que vieram em seguida – e foram muitos – comprovaram essa escolha cada vez mais. Mesmo assim, outras duas marcas indeléveis da banda foram mantidas ao longo dessa carreira – a habilidade dos músicos (Marco Túlio, Marcio Buzelin, PJ e Paulinho Fonseca), mais o vocalista Rogério Flausino e a certeza de que todos eles são pessoas bacanas e gente fina.
Sendo assim, o que faz o Jota Quest ser um grupo bem-sucedido sob o ponto de vista comercial? Além disso tudo, o repertório cada vez mais pop, a habilidade dos caras e a sorte de sempre ter feito parte do casting de grandes gravadoras desde o tempo em que isso realmente era decisivo. Tudo isso fez com que o Jota Quest se tornasse “a banda de funk pop do país”. E já se vão trinta anos desde este primeiro álbum, único bastião não-diluído de sua trajetória. Quando a gente fala de “repertório mais e mais popular”, não estamos denegrindo essas escolhas por suposta facilidade, mas por obviedade e acomodação. E também notamos que o grupo talvez não tenha seu forte nas composições e criações, sendo um bom executor do formato funk pop mais banal, aquele identificado pelo público não por sua criatividade ou originalidade, mas por fornecer sensação de familiaridade com estilos mais conhecidos, como disco music, por exemplo. É uma sonoridade de fácil assimilação, executada por bons músicos, sendo assim, o que pode dar errado? Nada, especialmente se o público é pouco ou nada informado sobre novidades ou apresentado a bandas que façam o mesmo com um pouco mais de personalidade ou apropriação. Por exemplo, quantos fãs ocasionais do Jota Quest conhecem o Incognito? Ou o Brand New Heavies? Cito esses dois só para mencionar bandas nas quais o próprio Jamiroquai se inspirou nos anos 1990 para existir. Enfim…
Daí, com essa facilidade e acessibilidade, temos a perpetuação do grupo ao longo dos tempos com essa proposta. É a delícia comercialmente viável em especiais de TV, festivais de verão e participações especiais, porque, ora, é o que todo mundo quer ouvir. E tal situação, solidificando a presença do grupo ao longo do tempo, possibilita bancar convites a gente como Black Eyed Pears, Nile Rodgers (que colaborou com a banda em algumas situações), Earth Wind And Fire (em cujo disco “Now, Then & Forever”, os mineiros participaram da canção “My Promise”), mais colaborações com Roberto Carlos, Anitta, Nando Reis, Milton Nascimento, entre outros. Agora, de uma maneira mais evidente, o grupo volta sua atenção para este álbum em homenagem a Tim, chamado “Dance Enquanto é Tempo”, que tem o aval de Carmelo Maia, detentos dos direitos sobre a obra do soulman tijucano, o que possibilitou ao Jota Quest usar a voz de Tim em 10 das 16 faixas. Mais ainda, convocou gente como Tony Tornado (e seu filho, Lincoln), Negra Li, Carlinhos Brown, Os Garotin, Mãeana e Thiaguinho, em mais uma demonstração de viabilidade comercial. Não por acaso, o show no Rock In Rio, uma semana após o lançamento do álbum nos streamings, via Universal, comprova o tino, digamos, empresarial da empreitada e, em tempos como os atuais, a justifica plenamente.
Ok, mas qual é o problema então? Bem, vamos lá. Por mais que o grupo mencione a proximidade com Tim há trinta anos e a questão de sua influência em seu nome definitivo; por mais que o próprio Tim provavelmente gostasse da homenagem, especialmente pelos royalties que ela lhe renderia e por mais que o público ocasional – aquele que conhece “Descobridor dos Sete Mares” ou “Primavera” – vá amar esse disco/show, sabemos, espero eu, que isso não é nada próximo do que deveria significar a obra de Tim. “Ah, mas isso é ingênuo, bobo, sem-noção” – dirão. De fato, os argumentos aqui são puramente subjetivos e “artísticos”, até porque, dentro das normas vigentes da música pop atual, não há nada errado no álbum do Jota Quest. Todas as canções são muito bem produzidas – pela banda – o repertório privilegia sucessos, mas dá espaço para algumas obscuridades como “Estrela do Meu Show”, “I Don’t Know What To Do With Myself”, “Vou Com Gás” e a homenagem parece realmente sincera, visto que nenhum artista que se arvore a fazer música brasileira com acento black americano escapa da sombra do velho Tim. Porém, é no detalhe de um riff de teclado emplastrando “Azul da Cor do Mar”; no vocal desinformado de Mãeana; na homenagem artificializada de Negra Li; no horror das versões de “Não Quero Dinheiro”, “Você” e “Gostava Tanto de Você’; na necessidade de cada faixa anunciar várias vezes quem é o participante da vez; numa sensação de virtuosismo pouco natural de algumas passagens, e, mais que tudo, no vocal equivocadíssimo de Rogério Flausino em todos os cantos, que o trabalho se revela raso como uma bandeja. A impressão é que se trata de um disco feito por músicos bem intencionados, mas involuntariamente contribuindo para uma confusão total da figura real de Tim Maia. Ou seja, tudo o que ele foi deve ser esquecido aqui em favor do que acham comercialmente possível e importante de ser lembrado, a construção artificial de um “legado”. O balanço, a festa, o groove. Quem conhece a história de Tim, sabe que não era nada assim.
Alguém ainda poderá dizer que esse texto é pura implicância. Eu responderei que não, que tentei enxergar o lado positivo de tudo, tanto da carreira do Jota Quest, quanto desse próprio álbum. Não imagino nada mais legal que possa ser dito. É tudo bem produzido, bem feito, bem pensado, milimetricamente pensado, sob medida para ficar muito tempo na superfície. Mas isso não é, talvez nem procure ser, soul music, funk music. É uma peça publicitária, mercadológica, quase sem alma. E a voz do próprio Tim, ecoando em samples, via anuência de seu único herdeiro legal, é um eco de que algo errado, muito errado, reside nas profundezas.
Em tempo: há algo interessante aqui, a mudança na letra de “Vale Tudo”, para “TAMBÉM vale dançar homem com homem, E mulher com mulher”. Isso foi bacana.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
