Julia Guedes estreia com ótimo disco

Julia Guedes – Álbum Vermelho
44′, 12 faixas
(Dobra Discos)
(4,5 / 5)
A primeira vez que vi Julia Guedes foi num vídeo em que ela explicava a origem da canção “Sol de Primavera”, composta por seu avô, Beto Guedes. Chamou a atenção a desenvoltura da moça, tanto por conta da história da composição – um clássico absoluto da música nacional – quanto por sua noção bem construída da importância de uma mulher, não só na vida de um homem, mas na própria sociedade como um todo. No caso, sua avó, Silvana, foi a responsável por anotar a melodia que Beto elaborou na hora, num bar de Belo Horizonte e que, se não fosse por seu ato previdente, o esboço da música teria se perdido. Corta para o presente: temos a estreia de Julia, “Álbum Vermelho”. É mais um exemplo do fascínio que os anos 1970 têm exercido na mente criativa dos jovens que se arvoram a produzir música no Brasil fora do óbvio. Enquanto o mainstream ainda chafurda nos estilos mais banais, cada vez mais bandas, cantores e cantoras ditos “alternativos” empreendem buscas estéticas pelo que foi criado naquela década. No caso de Júlia, o parentesco e a origem de sua obra servem como atenuantes, visto que ela mergulha fundo nas águas da mineirice sonora pós-Clube da Esquina. Mas sua música não é só isso.
“Álbum Vermelho”, para início de conversa, é um disco bem gravado. Sua mixagem, feita por Angelo Wolf, funciona bem, é possível ouvir todos os instrumentos com nitidez e comentar isso, longe de ser desnecessário em tempos digitais, é um estímulo para quem se importa com a qualidade sonora. No caso do disco, é ainda mais bacana, visto que Julia, além de cantora, compositora, artista gráfica, é tecladista de mão cheia – sem trocadilho – operando vários sintetizadores e teclados pelo disco adentro. Ao longo das faixas, ela surge tocando piano, Órgão Hammond, Fender Rhodes e CP80, É um fator que a distingue das queridas que mexem num tecladinho aqui ou ali. Além disso, ela compôs onze das doze faixas do álbum e isso não é pouco. A mineirice que seu canto e o próprio conceito do disco transmitem não é datada e tal fato é muito positivo. Ouvir as faixas presentes aqui dá uma dimensão exata de como é a vida de uma jovem artista em busca de espaço, mudando de cidade, lidando com um legado, não só do avô, mas do próprio “Clube”, e tudo mais. Sem cair na armadilha fácil de revisar esse passado que não lhe pertence de fato, Julia consegue dar sua visão atualizada sobre muitos temas importantes e levar o ideário humanista de Beto e cia para o nosso tempo.
“Eu sinto que todo o universo do Clube me guia de uma forma muito além da música e da arte, realoca a minha existência num tempo-espaço espiritual-metafísico. Acho que é uma forma para além da minha própria existência, de me entender, e que a partir dela, tudo que vem de arte sai daí. Então é um lugar de ancestralidade, raízes, o lugar de onde eu venho”, reflete. “Chegou um momento em que eu precisei extravasar e entendi que a minha história não é a história do Clube; a minha história é a minha história. A minha identidade é uma grande mistura de toda a bagagem que eu tenho e que eu ainda vou receber do mundo”, completa. É isso. Um fluxo de ida e vinda no tempo, usado como um fio condutor de inspiração e identidade artística, tudo isso feito de uma forma que parece totalmente espontânea e natural, como se não pudesse acontecer de outro jeito.
Várias dessas canções são exemplares. De cara, abrindo o disco, temos “Vermelho e Sem Nome”, que parece emular o andamento e os timbres de “Nada Será Como Antes”, a faixa que abre o próprio disco “Clube da Esquina”. Mas os vocais e a temática situam o ouvinte diretamente no agora e pronto para ouvir belezuras do porvir. “Chuva e Sol”, autobiográfica e existencial, é um ótimo exemplo dessa suavidade que Julia transmite ao dizer coisas sérias. O arranjo é belo e cheio de vozes sutilmente colocadas em meio ao instrumental. “Zóim” é mais acústica e soturna, com um tom quase lusitano, belo, com arranjo de Wagner Tiso, enquanto “Notas de Avião” também emula timbres “clubísticos” familiares, especialmente de piano, abrindo espaço para uma bela canção de homenagem ao avô, Beto, que sempre adorou aviação. O verso de entrada é uma lindeza: “Gosto de pensar como era a luz do seu verão // Se suas notas vão soar em mim”. Ainda temos uma pegada mais jazz pop percorrendo o arranjo de “Contra o Medo”, com algo de anos 1980 em sua dinâmica; “Tango dos Homens” é um voo estilístico em bandoneons e estética que não é tanguística, mas tangencia o estilo, abrindo espaço para “Estranha Nuvem”, com participação de Tori, mais uma faixa que soa muito familiar por timbres belos e estradeiros de outros tempos. Ainda tem a participação da ótima Luiza Brina, arranjando e tocando na bela “Sus Mareas”. E o fim do disco vem com uma bela versão de “A Página do Relâmpago Elétrico”, faixa-título do primeiro álbum solo de Beto, cumprindo uma tradição família, de gravar canções compostas por gerações anteriores. O pai de Julia, Gabriel, fez isso; Beto fez isso com o pai, Godofredo, agora Julia faz com o avô. E a roda gira.
“Álbum Vermelho” vai além de um “disco da neta do Beto Guedes”, revela uma artista cheia de habilidade e com disposição para mostrar sua cara. Seu primeiro trabalho é seguro, belo e cheio de ótimos momentos.
Ouça primeiro: “Vermelho e Sem Nome”, “Chuva e Sol”, “Zóim”, “Notas de Avião”, “Contra o Medo”, “Tango do Medo”, “Sus Mareas”, “Página do Relâmpago Elétrico”, “Estranha Nuvem”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
