Jello Biafra para presidente!

 

 

Janeiro de 1978, os Sex Pistols encerram mais um show tumultuado com Johnny Rotten provocando o público: “Você já teve a sensação de ser enganado?” A cidade era San Francisco, na Califórnia, estação final da turnê. Antes dos Sex Pistols, duas bandas locais haviam se apresentado, Avengers e The Nuns. Elas eram parte de uma cena punk já consolidada, e a provocação de Rotten foi ouvida como um desafio: como retomar para os anos 70 a energia transformadora dos beats dos anos 50 e dos hippies dos anos 60?

 

Novembro de 1978, a mesma cidade é o palco de um duplo assassinato, cometido por Dan White, um ex-policial. As vítimas foram o prefeito e um vereador. Alguns meses antes, quase mil pessoas haviam morrido na Guiana, adeptas da igreja liderada por Jim Jones originada em San Francisco. Os anos 70 na Califórnia são pródigos em serial killers. Em outro plano, tecnologias nucleares ameaçam a vida de toda a humanidade. Ronald Reagan, ex-governador da Califórnia, se tornaria presidente dos Estados Unidos em 1980. Eram os tempos da Guerra Fria.

 

Novembro de 1979, o vocalista de uma banda chamada Dead Kennedys concorre às eleições para a prefeitura de San Francisco. Em sua plataforma, propunha a construção de estátuas de Dan White disponíveis para serem vandalizadas pela população. Outros pontos focavam em políticas imobiliárias e no controle social da polícia, contrapondo-se aos interesses da então prefeita. Esta seria reeleita, mas sem impedir que Jello Biafra conquistasse quase seis mil eleitores, cerca de 4% do total de votos.

 

Começar o comentário de um álbum da Dead Kennedys com essas cenas é quase obrigatório. Falar da banda sem fazer menção à San Francisco do final dos anos 70 é como tratar dos Racionais MC’s deixando de fora Capão Redondo. As músicas de Fresh Fruits for Rotten Vegetables estão bastante conectadas ao contexto daquela época – e também ao modo como um grupo punk decidiu se situar em relação a tal contexto. Seu resultado, contudo, levou a música muito além, com repercussões para vertentes do heavy metal e do pós-punk.

 

Julho de 1978

 

Foi essa a data do primeiro show da Dead Kennedys. Rolou no Mabuhay Gardens, palco predileto da banda em seus anos iniciais. Os ensaios haviam começado algumas semanas antes. O núcleo formador da banda reuniu East Bay Ray, Jello Biafra e Klaus Flouride. Klaus, o baixista, era o mais velho, com seus 29 anos; Ray, na guitarra, e Biafra, nos vocais, empatavam nos 20 anos. Mas Ray, que usava um pedal de eco que tornava sua guitarra mais abrasiva e dissonante, tinha mais experiência como músico do que Biafra; Klaus, então, muito mais, com passagens em programas de rádios e bandas de apoio para cantores de R&B. Os três estavam fascinados pelo punk, mas a formação e as influências de Ray e Klaus foram fundamentais para compor a singularidade do som da banda. A formação contou ainda com Ted, um baterista que reunia técnica e energia. 6025 era o codinome de um segundo guitarrista que acompanhou o quarteto por alguns meses.

 

As apresentações da banda eram impactantes. O microfone virava uma arma nas mãos de Biafra. Sua performance era teatral, cheia de caretas e movimentos corporais. Os limites com a audiência eram pequenos, especialmente no Mabuhay, onde o palco não passava da altura dos joelhos do pessoal na primeira fila. Interações intensas. Biafra confrontava o público. O público devorava Biafra. Em outubro de 1979, com a Dead Kennedys abrindo para The Cramps e The Clash, Biafra ficou praticamente pelado, suas roupas despedaçadas pelos punks.

 

Em março de 1980, a Dead Kennedys foi convidada para participar de uma tradicional festa da cena musical californiana. Após ensaiar uma música, na hora do show outra foi executada, um ataque ao “rock comercial”. A letra cantava “Eu quero ser uma superestrela pré-fabricada (…) Eu quero fazer muita grana tocando rock and roll”. A certa altura, Ray improvisou um longo solo de guitarra diante de seus colegas fazendo cara de tédio. A banda havia entrado vestindo jaquetas, livrando-se delas para mostrar camisas engravatadas. Detalhe: um “S” pintado nas camisas virava um cifrão por conta do caimento das gravatas.

 

A performance ilustra bem a proposta da Dead Kennedys, definida por Biafra como “crimes criativos”. Uma mistura de choque e humor, destinada a chacoalhar as cabeças e o resto dos corpos de seu público. Isso começava no nome da banda, chocante para muitos estadunidenses, o que não impedia que houvesse apresentações no aniversário da morte de John Kennedy. Semanas depois da performance de março de 1980, a banda entraria no estúdio para registrar as 14 faixas de Fresh Fruits for Rotting Vegetables.

 

 

Setembro de 1980

 

Gravado em um estúdio nos fundos do apartamento de seu proprietário, Fresh Fruits foi produzido pela própria banda. Nos créditos, consta o nome do gato de Oliver Diccico, o dono do estúdio e engenheiro de gravação. A mixagem privilegiou a guitarra de Ray e os vocais de Biafra, sacrificando um pouco os graves do baixo de Klaus e da bateria de Ted. Guitarra e vocais tiveram ainda um tratamento obsessivo, com a dupla buscando selecionar os melhores takes. Estavam intensamente dedicados ao trabalho de gravação e produção, vendo o resultado como uma conquista da cena punk sanfranciscana. Afinal, foi o primeiro álbum de uma banda punk da cidade.

 

Destaco quatro músicas de Fresh Fruits. “California Über Alles”, divulgada já em 1979 como um single, mira Jerry Brown, governador da Califórnia desde 1975, retratando uma imaginária campanha sua para a presidência dos EUA. Interessante notar que não se tratava de um político ideologicamente conservador. Mas a banda não perdoa suas contradições e seu estilo. Brown, cuja aura sorri, promete que as crianças meditarão nas escolas. No poder supremo, contudo, seus métodos seriam mais duros, com o recurso a campos de concentração. Viveremos no cenário projetado pelo livro 1984 de George Orwell. Para embalar essa letra, uma sonoridade impactante. A entrada com bateria e baixo é um clássico. A guitarra de Ray arrepia. O andamento varia ao longo da música, em uma simbiose impressionante entre vozes e instrumentos. Uma marcha finaliza a faixa dedicada a denunciar os “fascistas zen”. “Über alles” é uma expressão que constava do hino alemão e que foi suprimida depois da II Guerra Mundial por sua associação com o fascismo. Significa “acima de tudo”. Soa familiar?

 

“Holiday in Cambodia”, também com uma versão anterior a Fresh Fruits, destoa com seus quatro minutos, a faixa mais longa de um álbum em que a maioria das músicas não passa de dois ou três minutos. A letra sugere que jovens presunçosos e mimados passem suas férias no Camboja. Lá sentirão a realidade que fingem conhecer, lá serão “escravizados por soldados até morrerem de fome”. A letra convidava os ouvintes a se inteirarem das façanhas do Khmer Rouge e sua política genocida. O ritmo é uma espécie de disco punk, engatado após outra introdução clássica conduzida pelos ruídos da guitarra de Ray. Perto do final, no frenesi da música, o nome do líder do Khmer, Pol Pat, torna-se na voz de Biafra um rap que simula rajadas.

 

“Kill the Poor” é a faixa que abre o álbum, também distinguida por um single divulgado após o lançamento de Fresh Fruits. Trata-se de uma saudação irônica à tecnologia – a bomba de nêutrons – que permite matar pessoas com poucas destruições materiais. Solução perfeita, em uma lógica eugênica e racista (que a atual pandemia retoma), para a questão habitacional: matem os pobres e sobrará lugar para os demais. O início da música é quase operístico, destacando a voz de Biafra. Ela precede um ataque sonoro que desemboca no refrão catártico, uma provocação aos indiferentes.

 

“Chemical Warfare”, por fim, merece destaque pela sua violência lírica e sonora. Descreve um ataque químico a um “country club cheio de golfistas de sábado”. A confusão é geral e um trecho da letra não pode passar despercebido nos dias de hoje: “Scratch the grass, mister, you can’t breath”. O ritmo é frenético, nos faz participar da ação. Perto do fim, ao narrar o ataque chegando às esposas dos golfistas que relaxam com seus dry martinis, a música se torna uma valsinha, até que… uma gritaria infernal invade o ambiente, interrompida pelo refrão proclamando que a batalha chega a seu fim.

 

As outras dez faixas mereceriam outros tantos comentários, pois realmente Fresh Fruits é um álbum excepcional. Nos temas e na sonoridade, nada é por acaso. A rápida “Forward to Death” e a desconstruída “Ill in the Head” representam a faceta mais niilista das letras. “When Ya Get Drafted” fala do serviço militar e tem um solo de guitarra horripilante. “Let’s Linch the Landlord”, ameaçando os proprietários de imóveis, tem uma pegada rock’n’roll. “Your Emotions”, outra rápida, retoma os temas de “Holiday in Cambodia”. Em “I Kill Children”, Biafra encarna um serial killer. Em “Funland at the Sunbeach”, com seu riff que lembra o heavy metal, as crianças voltam a aparecer como vítimas de uma sabotagem da montanha russa, para a delícia de advogados e programas de TV. “Stealing People’s Mail” é sobre uma trupe que rouba o que estiver em caixas postais, uma música entrecortada por paradas e um ritmo que remete ao rockabilly e à surf music. “Drug Me” é sobre os entorpecentes cotidianos, como a televisão, cantada com uma rapidez que a torna uma referência para o hardcore derivado do punk. Esse era o lado mais testosterônico da Dead Kennedys, lembrando que Avengers e The Nuns eram bandas com mulheres em sua composição. Para compensar, a faixa que encerra o álbum faz uma sátira de outro herói masculino, Elvis Presley: é uma cover envenenada de “Viva Las Vegas”, com a letra modificada e Biafra empostando sua voz para tornar ainda mais ridícula a viagem para os cassinos. De uma ponta a outra de Fresh Fruits, não há chance para coelhinhos peludos…

 

 

Outras histórias

 

Fresh Fruits foi lançado pelo Cherry Red, um selo inglês. Do outro lado do Atlântico, o nome Dead Kennedys era menos chocante. A banda partiu para uma turnê europeia, sendo aplaudida pela imprensa musical britânica. Haviam dado sua resposta à pergunta lançada por Johnny Rotten três anos antes.

 

A capa de Fresh Fruits é um registro histórico: uma foto de carros da polícia em chamas durante os protestos de 1979 em reação ao resultado do julgamento de Dan White. Com a foto, apenas o nome da banda. No verso, nome das faixas e créditos da gravação/produção, encimadas pela foto de uma banda bizarra. O uso dessa foto geraria uma ação judicial contra a Dead Kennedys. Não seria a única nos anos seguintes até 1986, quando o quarteto se dispersa após o lançamento de um EP e mais três álbuns.

 

No Brasil, Fresh Fruits foi lançado nesse ano de 1986 pela Continental. Veio com o encarte original no formato 60cmx80cm, na verdade um pôster que reproduzia a colagem elaborada por Biafra e retocada por seu amigo artista Winston Smith, que também colaborou na produção do logo da banda, outro clássico. A colagem é uma espécie de avalanche de “crimes criativos” que traduz graficamente os temas do álbum, permitindo que se faça viagens infindáveis por meio das imagens e das letras das músicas, também inseridas no pôster-encarte. A versão brasileira trouxe ainda uma preciosidade: parte da prensagem foi feita em vinil branco!

 

É claro que Fresh Fruits já circulava em terra tupiniquins antes de 1986. Em 1982, o registro do festival paulistano “O Começo do Fim do Mundo” em vinil tinha sua contracapa inspirada no pôster do álbum da Dead Kennedys. Algum tempo depois, três roqueiros de Brasília juntavam-se para fazer shows com o nome Dentes Quentes – dois deles (Renato Rocha e Fejão) eram negros como o baterista que sucedeu Ted na Dead Kennedys em 1981, D.H. Peligro. Em 1993, a Sepultura incluiria uma versão para “Drug Me” no EP Refuse/Resist. Mas antes, em 1992, Jello Biafra já visitara o Brasil. Em São Paulo, integrantes da Sepultura e da Ratos do Porão acompanharam o então ex-vocalista da Dead Kennedys cantar “Holiday in Cambodja”. No Rio, Biafra subiu em um palco na Lapa para se juntar à Mano Negra e, após protestar contra George Bush, cantar “I Fought the Law”, clássico da The Clash.

 

Em algum momento dessa viagem, Biafra autografou a capa do vinil de King of the Bongo, álbum da Mano Negra, que veio parar, por obra do destino, em minha discoteca. A música é cheia de histórias de várias escalas, cruzando vidas e épocas. Este texto é então dedicado aos historiadores e às historiadoras que nos ajudam a encontrar caminhos para viajarmos no tempo. Um deles, Michael Stewart Foley, autor do livro sobre Fresh Fruits para a coleção 33⅓ da Bloomsbury, foi a principal fonte das informações aqui relatadas.

 

Vale ainda conferir:

Conversa de Gastão e Clemente sobre a banda, com base em outro livro, o de Alex Ogg:

 

 

Conjunto de depoimentos de músicos e outros brasileiros sobre o álbum: https://slikeus.com/dead-kennedys-fresh-fruit-for-rotten-vegetables/

 

 

 

+3

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

3 thoughts on “Jello Biafra para presidente!

  • 23 de outubro de 2020 em 15:46
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    “I Fought the Law”, creditada a The Clash, foi originalmente composta por Sonny Curtis e gravada em 1959 pela banda Crickets.

    +1
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  • 23 de outubro de 2020 em 03:22
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    Massa, muito bacana todo o panorâma histórico da banda e a análise das faixas! É até impressionante como já no álbum de estreia a banda tinha um faro apurado pra criação de arranjos e de dinâmica entre cada faixa, imprimindo certa variedade musical que soa diferente de outros álbuns do punk norte-americano da época. Outro dado interessante do disco é a presença do teclado do Paul Roessler, membro fundamental na sonoridade dos Screamers, que tiveram forte influência sobre o Dead Kennedys. Ah, e que preciosidade o disco com a assinatura do Jello!

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