Jeff Lynne’s ELO – From Out Of Nowhere

 

Gênero: Rock
Faixas: 10
Duração: 32 minutos
Produção: Jeff Lynne
Gravadora: Columbia

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Houve um tempo em que Jeff Lynne era um músico/produtor que poderia surpreender o ouvinte. Ele fez isso ao longo dos anos 1970 e do início dos anos 1980, quando, a partir de sua Electric Light Orchestra, foi incorporando elementos de disco music e eletrônica em sua fórmula mágica de canções pós-beatle com floreios de psicodelia. À medida que fazia isso, ganhava mais e mais fãs e detratores na crítica musical daqueles tempos, encantada pelo pós-punk. Quando Jeff pendurou as chuteiras da ELO e foi ser produtor de gente como George Harrison, Tom Petty, Ringo Starr e membro dos Traveling Wilburys, ele formatou um padrão de canção belíssimo, no qual era possível emular as belezuras do rock clássico com certa modernidade, deixando de lado a inventividade. Sendo assim, Jeff lançou três discos como ELO nos últimos 33 anos, todos com esta marca sonora. Com “From Out Of Nowhere”, o mais recente, não seria diferente.

 

Isso significa que temos dez faixas do mais absoluto rock melodioso, cheio de influências, não só dos Beatles, mas de amigos/parceiros como Del Shannon, Roy Orbison e que honram o que Jeff passou a fazer. Ele se tornou um dos mais precisos produtores do mercado, além de tocar e compor cada nota do disco. Não há convidados, só ele e sua mente nostálgica de tempos mais gentis, compondo, tocando e gravando canções de amor, de carinho e de saudade. Nada pode ser menos apropriado em tempos como os nossos, certo? São verdadeiros e pequenos absurdos adoráveis de pouco mais de três minutos, nos quais há ecos das guitarras de Harrison, da levada de bateria de Ringo e vocais de apoio que ainda guardam alguns efeitos do vocoder que frequentava discos como “Discovery” e “Time”, lá entre 1979 e 1981.

 

Dito isso, se o seu lance é achar alguma novidade na carreira de Jeff, este não é o disco feito pra você. Mas, se quiser continuidade e sensação de permanência diante da adversidade, este é o seu lugar. Cada faixa tem uma ou muitas passagens familiares, que tendem a pegar o ouvinte no colo e mostrar que nem tudo está perdido. Alguns exemplos: “One More Time” é um rockão endiabrado em alta voltagem, feito para sacudir os esqueletos do pessoal adentrando os cinquenta anos. No meio do refrão contagiante, um solo de teclados oitentistas, que ninguém é de ferro. “Sci-Fi Woman” é típica canção da ELO, inclusive com possível referência a “Evil Woman” e um riff de teclado que funciona que é uma belezura, em meio à melodia sempre iluminada.

 

“Goin’ Out On Me” é um baladão clássico do início dos anos 1960, daqueles de dançar juntinho enquanto a raínha do baile é cooptada pelo capitão do time de futebol e você fica olhando cumprido. O imaginário de Jeff é esse, da doçura e do american dream e ele sabe bem como mexer com essas referências. Há a nostalgia dos tempos idos em “Time Of Our Life”, num arranjo que parece saído da trilha sonora de “Xanadu”, enquanto ao menos duas faixas saltam aos ouvidos: “All My Love”, com uma guitarrinha country intermitente em meio à sequência melódica pra lá de harmoniosa, parece alguma canção perdida de Paul McCartney, enquanto “Down Came The Rain” é uma dilacerante gema pop próxima da perfeição, triste que só ela, com andamento que emula o timbre de guitarra clássico dos Byrds e um refrão dolorido sobre a injustiça do amor. Jeff também é mestre disso.

 

Resumindo: “From Out Of Nowhere” é uma beleza para muitos, uma chatice para outros. Eu, que admiro o sujeito, valorizo a lindeza das melodias e arranjos, apesar de achar que Jeff já pode estar levemente acomodado em seu modelo, adorei o álbum. Como disse: se você quer novidade, aqui não é o seu lugar. Mas, quem sabe mais tarde, daqui a alguns anos, você não volta por aqui?

 

Ouça primeiro: “Down Came The Rain”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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