DestaquinhoMúsicaResenhas

João Bosco completa oitenta anos com revisão de carreira

 

 

 

João Bosco – Amigos Novos e Antigos
85′, 18 faixas
(Som Livre)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Nunca entendi o motivo de João Bosco não figurar entre os gigantes incontestáveis da nossa música. A meu ver, ele está no mesmo nível de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivan Lins, Djavan, Jorge Ben, Milton Nascimento e Paulinho da Viola. Por algum motivo, sua carreira, ainda que tenha experimentado momentos de imensa popularidade no passado, não o colocou neste mesmo nível. Ao menos não pelo senso comum porque, como dissemos, ele é, de fato, um desses gigantes. João é um dos mais talentosos e criativos violonistas de sua geração, dono de um estilo único e intransferível de canto, além de melodista capaz de encaixar tanto letras de amor total, como as crônicas da capitalidade pós-guanabarense perdida vertidas pelo gênio Aldir Blanc em mais de uma década de intensa parceria. Mais que isso, sua verve criativa incontrolável fez dele um reconstrutor do samba, criador de uma variante acelerada, psicodélica e urbana ao mesmo tempo, aproximando o estilo do jazz e das latinidades mil, sempre com um detalhe brilhante aqui e acolá. Agora, com oito décadas de vida e cinco de carreira, João celebra uma parte de seu portfólio com um arrepiante álbum, “Amigos Novos e Antigos”, no qual revisita clássicos de várias magnitudes e recebe um time de convidados que, como o título atesta, abarca várias gerações e estilos da música nacional. É uma celebração sensacional.

 

João atravessa um momento de grande criatividade. De 2020 para cá, lançou sete álbuns – contato com este – entre inéditos e projetos ao vivo, além de colaborações. Sua obra segue atual e seu canto recusa-se a perder força. Seu jeito rítmico e percussivo de interpretação, bem como sua maneira de tocar o violão, instâncias que exigem muito esforço físico, seguem inabaláveis e imunes ao tempo. E sua voz ainda é capaz de sustentar os tons mais altos e difíceis das canções. “Amigos Novos e Antigos” comprova tudo isso, mas, como todo projeto desse tipo, com vários convidados e escolhas de canções numa obra tão vasta, padece de algumas pisadas na bola que, no entanto, não chegam a esmaecer o brilho da empreitada. Gravado majoritariamente no Estúdio Visom, no Rio de Janeiro, o disco teve produção musical a cargo do próprio João e do trombonista Rafael Rocha, que também fez os arranjos. A banda fixa escalada para o álbum tem Ricardo Silveira (guitarra e violão), Kiko Freitas (bateria), Armando Marçal (percussão), Guto Wirtti (baixo), além do próprio João, no violão. Essa galera deu sustentação para um time impressionante de convidados: Martinho da Vila, Chico Buarque, Gonzalo Rubalcaba, Hamilton de Holanda, César Camargo Mariano, Bruna Black, Mestrinho, Caetano Veloso, Jota Pê, Anat Cohen, Vanessa Moreno, Jaques Morelenbaum, Pedro Mariano, Rafa Mariano, Silva e Ivete Sangalo.

 

A mistura de artistas contemporâneos de João e gente nova-novíssima da música brasileira confirma e materializa o frescor empírico que a obra do homem sempre exalou. A ideia de reunir gerações veio de Julia Bosco, filha do cantor e ela mesma uma cantora. É Julia quem faz a direção artística e coordena as aparições ao longo do disco. Várias releituras apresentadas aqui conseguem o incrível feito de igualar alguns originais, talvez até oferecer novas perspectivas, caso, por exemplo, da incrível versão de “Jade”, sucesso nacional de 1989, com letra de Wally Salomão, que ressurge aqui com os vocais divididos entre João e Jota Pê, com participação do saxofone de Anat Cohen. Outra releitura que, se não chega no original, bate na porta, é “Incompatibilidade de Gênios”, clássico multidisciplinar do álbum “Galos de Briga”, lançado há cinquenta anos, ainda bem longe do reconhecimento que merecia ter. A versão aqui conta com o piano jazzistico do cubano Gonzalo Rubalcaba e com a participação de Chico Buarque, cujo conto carioca acrescenta cores à crônica de tragédia amorosa suburbana que a letra de Aldir Blanc expõe com traços rodrigueanos. Também no terreno dos acertos incontestáveis do álbum estão as versões de “Memória da Pele”, outro clássico popular do repertório de João, aqui refeita com os vocais incríveis de Vanessa Moreno – uma das melhores jovens cantoras brasileiras e o cello de Jaques Morelenbaum; de “Casa de Marimbondo”, com César Mariano e “Sinhá”, parceria de João com Chico Buarque, que ganhou vocais sofridos e dramáticos de Caetano Veloso.

 

Mais releituras superlativas: “Nação”, um dos hinos oficiosos do Brasil, com vocais tinindo do próprio João e participação do bandolim de Hamilton de Holanda; “Siri Recheado e o Cacete”, com Zeca Pagodinho; a faixa-título, com participação sensacional de Bruna Black e o sanfoneiro Mestrinho, que também aparece na ótima versão de “Quando o Amor Acontece”. Martinho da Vila confere relevância e referência para “Odilê, Odilá” e sua filha, Mart’nália, até casa bem com “Kid Cavaquinho”, mas não consegue trazer nada de muito brilhante para a versão. E aqui entram os momentos em que as derrapadas acontecem: Silva quase estraga a multiplatinada “Papel Marché”, que João gravou em 1984 e conquistou o país, via trilha sonora da novela global “Corpo a Corpo”; Ivete Sangalo tenta conferir uma solenidade estranha à sua persona artística na imaculada “Corsário”, que aparece numa versão de quase dez minutos. Tiago Iorc pouco acrescenta a “Perfeição”, uma faixa belíssima e resgatada do álbum “Não Vai Pro Céu” (2009), e seu canto não encontra boa sinergia com o de João. E, para a decepção total: “O Bêbado e a Equilibrista”, clássico absoluto da música nacional, não consegue decolar com a participação de Pedro Mariano e sua filha, Rafa. Nem a bela ideia de citar “Smile”, de Charles Chaplin, salvou o resultado burocrático.

 

Como dissemos, no fim das contas, o saldo é muito positivo, com essa sensação de que estamos diante de um totem sonoro do país. O canal de João no YouTube exibe os clipes de todas as canções oferecendo imagens muito legais dos convidados e da banda no estúdio. Uma celebração muito merecida, que precisa servir para a obra de João circular muito mais.

 

Ouça primeiro: “Jade”, “Memória da Pele”, “Incompatibilidade de Gênios”, “Sinhá”, “Amigos Novos e Antigos”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *