Ed Motta em modo electrofunk lo-fi

Ed Motta – Toc Toc
44′, 11 faixas
(Dwitza/MPS)
(4 / 5)
Muita gente se surpreendeu quando “Toc-Toc”, o primeiro single e faixa-título do novíssimo álbum de Ed Motta, chegou às redes. O instrumental eletrônico, lo-fi, com pegada lembrando algo como uma demo tape do início dos anos 1980, de bandas como Cameo, SOS Band e similares, batia de frente com a exuberância de seus últimos trabalhos. E havia mais: Ed voltando a cantar em português, algo que não fazia há mais de dez anos. Então “Toc-Toc” soa, portanto, como uma retomada do início de sua carreira, um abraço ao pop? Não, essa é a explicação mais simplória e superficial. Não há nada em comum entre esse álbum e trabalhos com a Conexão Japeri (sua estreia, de 1988 e o supremo “Um Contrato com Deus”, de 1990) ou com “Manual Prático Para Festas Bailes e Afins, vol.1”, de 1997, seus momentos mais pop até agora. Ou mesmo com “Piquenique”, seu (bom) disco de 2009, completamente esquecido. O que temos aqui é uma visita de um artista muito mais complexo e hábil hoje do que antes, encorpado por ensinamentos colhidos numa vida de pesquisa e aprendizado de vários ritmos e vertentes sonoras, resultando numa abordagem sofisticada, que aqui parece enganosamente simples. Ed está intencionalmente visitando timbres velhuscos familiares, reprocessando-os com pegada lo-fi contemporânea, que hoje é chamada de “AOR” pela turma mais jovem. E sabemos que “Adult Oriented Rock”, título de disco pregresso seu que alude a esse estilo musical, é sua cachaça sonora. E “Toc-Toc” é isso, um “AOR” do século 21. Moderno, portanto, mas com ar retrô intencional.
E tem outro detalhe interessante – a música, supostamente mais simples, ou melhor, mais econômica, que ele apresenta em “Toc-Toc”, vai de encontro à natureza harmonicamente mais rica e abundante do jazz, o que, certamente, constitui em uma dificuldade a mais na hora da composição. Ed falou em entrevista para divulgação do álbum, sobre a dificuldade em conseguir escrever refrãos novamente. E “Toc-Toc” tem mais que “AOR” e lo-fi, indo muito além do “pop”, esse termo que reduz além da conta, quando se trata de Ed Motta. Talvez lhe servisse melhor lá pelos anos 1980, agora, é impossível não notar os acenos que ele insere nas faixas, ao lado de Michel Limma, co-produtor do álbum e presente na maioria das faixas de “Toc-Toc”. Há ecos de bossa nova, de lounge music, de rebuscamentos que soam depurados e intrigantes pelo enxugamento intencional dos arranjos. Ao contrário de orquestras, naipes de metais, há sintetizadores, synthbass, baterias eletrônicas adornando as melodias, além da voz do homem, que segue inabalável pelo passar dos anos, conservando seu registro versátil e cheio de estilo.
O conceito do álbum é bacana e a execução também funciona bem. Se há um ponto em que “Toc-Toc” poderia ser melhor é na qualidade de algumas composições, especialmente nas letras. Algumas soam banais e nem os arranjos minimalistas conseguem salvar a situação. Felizmente a maioria é composta por bons momentos. De cara o single “Eu Quero Ser Feliz” coloca o ouvinte nesse clima de início dos anos 1980, no qual as bandas de electrofunk tiveram alta rotação. O que Ed faz é depurar e filtrar o máximo de excessos e oferecer o básico do básico. A melodia é boa, a letra funciona e desperta o interesse para o que vem a seguir. E logo chega a melhor faixa do álbum, “O Desejo Está Nu”, com uma melodia que é puro funk brasil setentista, no sentido Tim Maia do termo. Se houvesse um naipe de metais e uma produção orientada para os padrões pop radiofônicos da época, essa canção passaria facilmente por um lado-B esquecido. A faixa-título é puro Zapp, com um baixo sintetizado gorducho e uma guitarrinha pontuando a melodia. A letra é acessória, as palavras só estão presentes para emitir sons legais. “Entra no toc-toc-toc do funk”. Legal.
“Glamour Hotel”, que tem uma pegada cinematográfica (“Da varanda do hotel // Ela enxerga a praia // Tem o mundo inteiro aos pés // Se a beleza é cruel // Abre tantas portas // E algumas levam ao céu) possui um andamento bem minimalista, com baixo sintetizado e guitarra. “Casa de Frente Pro Mar” é uma mistura de bossa nova mais ou menos como se fosse uma interpretação de teclado de churrascaria, soando intencionalmente acessível. A cancha de Ed para cantar bossa nova é algo que não é apreciado sempre e funciona. “A Marina Acende” é outro bom exemplo de como o arranjo faz maravilhas – um teclado marca o ritmo e dá a melodia, enquanto a voz do homem entra: “Esse patinete // Ele é do bom // Que refresca e mente // E revela o tom”, mostrando mais uma letra que está ali apenas para soar de um jeito específico. E o fecho do disco, “Voltei Pra Você”, tem um clima mais solene que as outras faixas, com um tom noturno “já me esqueci do seu nome // hoje eu quero a minha paz” é o verso que introduz uma letra de fim de relacionamento, com toques de piano e o mesmo minimalismo. A letra, assim como nas outras canções, é da esposa de Ed, Edna Lopes, e têm essa função sonora, ao mesmo tempo que traçam histórias básicas e que encaixam bem no clima reinante do disco. Algumas poderiam ser mais inspiradas, mas isso não compromete a fluência do álbum.
Ed Motta é um artista inquieto e com criatividade latente. Além disso, é um estudioso da música, imagino como deve ter sido complicado aceitar que “menos é mais” dentro de uma carreira que sempre prezou a exuberância sonora. Aqui, ele opta pelo básico, se reinventa e arremete para o futuro com essa visão presente do passado. “Toc Toc” é uma belezinha.
Ouça primiro: “Voltei Pra Mim”, “Toc Toc”, “Eu Quero Ser Feliz”, “O Desejo Está Nu”, “Toc-Toc”, “Casa de Frente Pro Mar”, “A Marina Acende”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
