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Terminal Guadalupe contra o burrismo

 

 

 

 

Terminal Guadalupe – Ensaio Sobre a Urgência
23′, 10 faixas
(Scream & Yell/8-Bics)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

Já faz tempo que o Terminal Guadalupe, brioso e sensacional grupo paranaense, explicitou suas convicções sobre a vida, a sociedade e a política contemporâneas em forma de música. Mas, obedecendo a uma necessidade que oscila entre o individual e o coletivo, Dary Jr e Alan Yokohama (responsáveis pelas composições, vocais e guitarras), ajustaram o foco de seu recorte e centraram fogo total contra o que estamos vivendo no país. Não adianta – e nem dá pra – relativizar o estado atual da nossa vida no Brasil de 2026, vivemos ataques que não imaginávamos sofrer e precisamos lutar por coisas que achávamos já conquistadas. Essas demandas, surgidas especialmente nos últimos doze, dez anos, intensificaram-se bastante e colocaram as almas das pessoas conscientes em estado de inquietação e revolução. Dá pra sentir o quanto Dary e Alan, mais Gabe Salmazo (baixo) e Luciano Vassão (bateria) precisaram expressar medo, raiva, inconformismo, indignação em forma de crítica, que reveste a arte presente em “Ensaio Sobre a Urgência”. Trata-se de um manifesto virulento e contundente sobre o país, as pessoas, a família, quem está sentado ao nosso lado no ônibus, um espelho poderoso e com foco muito ajustado de todas as incongruências terríveis que décadas de descaso fazem transbordar numa fossa.

 

“Ensaio…” é o sexto álbum do Terminal. É, sem dúvida, o seu mais bem resolvido artefato sonoro, provando que a banda funciona muito bem com esta temática na ponta da chuteira e do coração. Tudo aqui é necessário, os arranjos estão na medida para emoldurar algumas das melhores letras feitas recentemente sob o ponto de vista da crítica política e social. Aqui não tem frescura nem meias palavras, mas Dary e Alan, ótimos compositores, têm a manha de não resvalar para a vulgaridade na hora de escrever. Eles reservam esse espaço para os fatos que narram, vulgares e inacreditáveis, mas que não podem (mais) ser colocados para baixo do tapete. Tem simpatizante do nazismo, tem pilantra, tem ladrão, tem parente nosso que concorda com dar porrada em gays, em professores, tem vizinho nosso que aceita que não tenhamos mais direito de votar em eleições, tem gente no nosso convívio que está tranquila com o Brasil ser uma colônia norte-americana, tem amigos e amigas nossas que preferem a violência que o diálogo. É contra esse cenário que pensávamos não existir ou, na melhor das hipóteses, não ser tão grave, que a banda se insurge e com todas as forças. Mais que qualquer coisa, “Ensaio” é uma salva de socos e pontapés no que acreditamos ser algo que precisa, tem que acabar.

 

Engana-se quem pensa que é um caso de “violência contra violência”, não no sentido físico, da agressão física. Mas é, sem dúvida, uma reação em proporções justas e autênticas. Dary Jr há muito é uma voz contra esse cenário social, basta acompanhar o que ele tem escrito no próprio Terminal e em sua carreira solo. Não é surpresa a temática, mas é, sem dúvida, admirável e elogiável o ajuste finíssimo do foco. As dez faixas de “Ensaio Sobre a Urgência” perfazem um total de 23 minutos e 22 segundos, mas constituem um documento apurado sobre o que precisa ser dito por aqui. Teve até uma de suas faixas, “Love Me Like Gold”, que denuncia a proximidade e a passação de pano para o nazismo por parte de um deputado americano de origem brasileira,  censurada nas plataformas de streaming. Os vocais são pura caricatura intencional dos maneirismos dylanescos mais característicos, com um belo instrumental pop glam, algo que funciona muito bem e faz valer sua mensagem. Felizmente, o álbum está disponível para download no querido Scream & Yell, responsável pelo lançamento. O sensacional 8 Bics Estúdio encarregou-se do resto. Os links para baixar o álbum estão no fim da resenha.

 

Dary exibe sua ótima forma vocal na maioria das canções. Tudo aqui é necessário, mas temos algumas preferidas neste rosário sonoro. “O Bebê de Mussolini”, faixa que abre o álbum, destina-se à escumalha de bonecos neoliberais de agremiações como mbl e similares, que surgiram nas redes sociais e cooptaram a má fé dos ressentidos de plantão, que acreditam na violência, no deboche. “Menino mimado, garoto enxaqueca, metade mentira, a outra também”. E “de tanto espumar o que não convém, quem vai te salvar, não salva ninguém”. Em “Cristão, Esposo, Pai e Patriota”, num ritmo entre o country light e o punk, Dary documenta um caso típico de violência em que alguém “matou um gari e foi tocar o dia, como todo cidadão de bem”. Mais uma dessas situações de manifestação explícita de ódio de classe e preconceito, materializada na violência extrema. E o refrão enquadra: “O bombadão, o bombadão, disse que não fez nada, era só a hora errada”. Quem nunca viu um caso assim? Em “Para-Choque”, Dary encarna uma de suas grandes inspirações, Renato Russo, e soa contundente com o belo verso “Só vira refém quem para de sonhar”. Em “Da Venezuela Ao Irã”, num arranjo que me fez lembrar “Compromisso de Morte”, do mundo livre s/a, o Terminal fala sobre “o agente laranja” e maracutaias adjacentes. Em “Grande Família”, a banda recria o áudio enviado pelo senador flavio bolsonaro para o banqueiro daniel vorcaro. Na mais do que a verdade. E ainda temos canções necessárias como “Dia dos Berços”, “Não Falha Um” e o fecho, com “Acabou”, no qual a voz de Dary adverte sobre o perigo de cometer um erro tão grave pela segunda vez. Sabemos bem do que ele fala. “Um brinde a quem sobreviveu. O peso da memória, leve o seu como quiser”.

 

“Ensaio Sobre a Urgência” é vital. Tristemente necessário. Ouça e passe adiante.

 

Ouça primeiro: o disco todo. Várias vezes.

 

 

Baixe o disco aqui.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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