“Guerra Mundial Z” na quarentena

 

 

Eu ontem revi “Guerra Mundial Z”. Quando a gente gosta de um filme, revê-lo é muito mais que um exercício de amor. É uma busca constante por algum detalhe não revelado, por alguma nuance. Sempre existe algo a ser notado pela primeira vez, acredite. Neste caso específico, revi o filme com a ideia de que estamos vivendo uma situação muito atípica, talvez o mais próximo que chegamos de um “apocalipse zumbi”, guardadas as devidas – e grandes – proporções. A pandemia de Covid-19 é a materialização de um mito cinematográfico, o do fim do mundo por conta de uma doença. Claro, os precedentes de Peste Negra, Gripe Espanhola e outros estão aí para servirem de parâmetro, mas, depois da Covid-19, talvez seja necessária uma atualização de arquétipos neste tipo de filme.

 

Brad Pitt estrelou e produziu. Marc Forster, que dirigiu “007 Quantum Of Solace” – pilotou as filmagens. Dizem que a última parte foi toda refilmada, pois a história original – inspirada no livro de Max Brooks – era totalmente diferente e, pelo que soube, bem pior. Claro que “Guerra Mundial Z”, de 2013, já introduz algumas mudanças de parâmetros. Os zumbis são rápidos, se movem como se fossem insetos cutucados. Há pouco sangue ao longo do filme e ele não incute medo no espectador, seu forte é suspense. Até o terço final dos quase 120 minutos de ação, temos quase certeza de que a humanidade caminha a passos largos para sua extinção por conta de uma doença novíssima e desconhecida, cuja velocidade de contágio é de 12 segundos. Cidades inteiras entram em colapso em questão de poucos dias. As cenas ambientadas na Filadélfia e em Jerusalém são impressionantes.

 

A história mostra este contágio acontecendo à medida em que o ex-investigador da ONU, Gerry Lane, é salvo com sua família e recrutado para averiguar a origem do vírus. A reunião que antecede a partida de Lane parece feita hoje, com virologistas e especialistas falando sobre a Gripe Espanhola e possíveis fraquezas do agente viral. Ao longo da investigação, tudo dá errado para Lane, que vai da Coreia do Sul ao País de Gales, passando por Jerusalém, vendo seus esforços e os das cidades caírem por terra diante da fúria e da rapidez dos zumbis. Claro, no fim das contas, ele perceberá uma brecha no modus operandi das criaturas e elaborará uma teoria, que dará uma chance na batalha.

 

O interessante em ver o filme nos nossos tempos é, justamente, a reflexão do que são os zumbis em 2020, porque, a ideia que norteia essas criaturas é a de que são seres humanos desprovidos de sua … humanidade. Vão-se embora o pensamento, o raciocínio, o sentimento, tudo o que nos faz humanos, permanecendo apenas os instintos mais primordiais – os da alimentação e da sobrevivência, por exemplo. A doença que infecta as pessoas e as transforma em mortos-vivos – sem mente – é sempre causada por algum vírus, algo que se desenvolvou por ganância – criado por militares como arma biológica – ou por descuido com o planeta. Desmatamentos, desnutrição de populações inteiras, mineração desenfreada…Ou seja, o que nos torna zumbis é, em alguma instância, o sistema e sua inevitabilidade. Certo?

 

Pois bem. E quem seriam os seres humanos desprovidos de humanidade? Nos filmes clássicos, eles são “o inimigo”. Não só zumbis, mas alienígenas, insetos, índios americanos, árabes… ele sempre está lá, seja em plano pessoal ou coletivo. Em pleno 2020, quais seriam esses nossos inimigos? Quais seriam os seres humanos sem compaixão, sem cuidado, sem afeto, sem preocupação? Os que autorizam queimadas, desmatamentos, não impedem a desigualdade, achatam o modo de vida sustentável. Os que chegam a negar a necessidade de um isolamento social para que os semelhantes não sejam contaminados por uma doença de difícil tratamento. Neste caso, os doentes não são os zumbis, mas as vítimas, sem capacidade de reação. São potenciais mortos-mortos, se nada for feito. E os mortos-vivos, que já perderam sua humanidade, estão à frente de empresas e governos.

 

Um dado novíssimo surgido em 2020, que talvez sirva para novos livros e filmes de zumbis no futuro: os negacionistas. Aqueles que pensam que as criaturas são produto da mídia comunista. Dos países comunistas. Dos comunistas que habitam Marte, afinal de contas, um planeta vermelho.

 

Os zumbis são eles. E estão mais perto do que pensávamos.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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