Gal Costa – A Pele do Presente

Gal Costa é uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. Ponto. Houve tempo em que ela concorria com Elis Regina e, provavelmente, com Clara Nunes e Nara Leão, cada uma a seu jeito, responsáveis diretas por reinventar e encantar as composições que interpretavam, numa raia em que ainda corria por fora Maria Bethânia. Mas Gal sempre foi a que teve timbre mais límpido e classudo. Onde Elis tinha a força dos elementos, ela tinha aquela aparência de que cantava as notas mais altas sem fazer qualquer esforço, como se não pudesse evitar o canto mais perfeito. Onde Clara tinha pé no chão, Nara tinha inteligência pra fazer muito com pouco e Bethânia invocava os elementos para participar de seu canto, Gal tinha a serenidade. Sempre teve e ainda tem. Por essas e outras, é tão importante saber que ela está em atividade, lançando discos e, principalmente, fazendo shows.

Na verdade, Gal está gravando um DVD ao vivo, a partir da turnê que segue seu último álbum, o maravilhoso “A Pele do Futuro”. Nos próximos dias 29 e 30, ela estará no mais que adequado Circo Voador, cantando o repertório do disco, devidamente misturado a sucessos imemoriais de sua carreira. É mais do que justo, uma vez que “A Pele do Futuro” é um clássico trabalho de Gal, nos mesmos parâmetros de diversidade e modernidade que ela exibia nos anos 1970 e, sobretudo, nos anos 1980, quando se aventurou pelo pop brasileiro de estúdio da época, quando, a partir da modernização de maquinário e instrumentos, vários álbuns maravilhosos foram concebidos e gravados em pé de igualdade com o que vinha de fora. Gal, sempre atenta e consciente, embarcou nessa onda já na virada dos anos 1970/80, a bordo de trabalhos luminosos como “Fantasia” (1981), “Minha Voz” (1982), “Baby Gal” e “Profana” (1984). Estes discos trouxeram Gal para aquele momento, de efervescência do surgimento do rock nacional oitentista e de uma nova linguagem de música pop, a qual Gal abraçou.

“A Pele do Futuro” é o terceiro álbum de uma trilogia que Gal iniciou em 2011, com “Recanto” e ampliou com “Estratosférica” (2015), na qual faz um movimento semelhante ao do início dos anos 1980: é um novo abraço à música brasileira contemporânea, compreendendo sua fragmentação em múltiplos gêneros, incorporando a eletrônica e reafirmando sua identidade como intérprete, tudo ao mesmo tempo, além de se apropriar
automaticamente de um novo time de compositores e criadores, no qual estão Tim Bernardes, Kassin, Pupillo, Moreno Veloso, Sliva e César Lacerda, presentes ao longo dos três álbuns.

A exemplo do que fez Caetano Veloso com sua “trilogia Cê”, Gal também gravou os shows de sua própria trinca de discos. Houve “Recanto Ao Vivo” e “Estratosférica Ao Vivo”, sempre se valendo da permissão de ampliar o repertório dos originais de estúdio, conectando-os com outras canções de outros tempos, sem qualquer necessidade de ajustes. Os encaixas já estavam lá, disponíveis, como se pedissem. No caso de “A Pele do Futuro”, saltam aos ouvidos os momentos de beleza e inovação. Há um flerte com a disco music em “Sublime”, a doçura de “Palavras no Corpo”, composta por Silva e Omar Salomão. Tem a impressionante “Vida Que Segue”, uma das mais belas gravações recentes de Gal, do mestre Hyldon, com arranjo classudo feito por Felipe Pacheco Ventura (da banda carioca Baleia).

Há os duetos sensacionais: “Cuidando de Longe”, original de Marília Mendonça, cantora da nova safra sertaneja universitária, surge reconectada e natural. O outro dueto é com ninguém menos que Maria Bethânia, que surge como uma divindade, em “Minha Mãe”, composta por outro grande nome desta novíssima geração: Cesar Lacerda, que divide sua autoria com o interminável Jorge Mautner.

“A Pele do Futuro” ainda tem “Puro Sangue (Libelo do Perdão)”, de Guilherme Arantes, que participa com teclados e sintetizadores; “Realmente Lindo”, composição solar, assinada por Tim Bernardes, que ostenta o verso redentor “eu agora já sei quem sou”. Fechando a galeria de novos clássico, “Viagem Passageira”, de Gilberto Gil, emblemática de sua atual fase de vivência da velhice, da qual saiu o título do disco, brincando com tempos e concepções, tal qual um historiador do tempo presente.

Gal praticamente exige nossa presença nesta nova empreitada nos palcos. É uma artista que retomou sua inquietação criativa e seu desejo de manter-se presente. É cada vez mais raro ver alguém tão importante de tão perto. Obedeçamos, pois.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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