Foi-se a Flip

 

A Flip sempre me pareceu um evento elitista, que se beneficiava de um momento histórico próspero, para divulgar mais a indústria do livro do que os grandes vultos da nossa literatura. Sabemos que o “I” da sigla significa “internacional”, mas, daí a homenagearmos uma autora americana, que viveu no Brasil e emitiu suas opiniões com olhos geograficamente turísticos, é bastante representativo do que vivemos no país hoje. A Feira de Paraty me parecia um convescote de uma elite intelectual mercantilista, o fascínio exercido por ela sempre soou como algo forçado e que dava a entender que pessoas iam orbitá-la por conta do polimento de suas próprias identidades intelectualizadas. Imagino como estão agora, diante da homenagem à americana Elizabeth Bishop. em sua edição 2020.

 

Bishop foi uma poeta nascida em  Massachussets, em 1911,  que veio morar no Brasil em 1951, com bolsa concedida por instituição universitária de seu país.  Conheceu e viveu com Maria Carlota de Macedo Soares, arquiteta e urbanista, amiga de Carlos Lacerda. Não por acaso, ambas compartilhavam de sua opinião política. Logo, Bishop foi uma artista que apoiou o golpe militar de 1964, dizendo tratar-se de uma “revolução rápida e bonita”? Como lidamos com este movimento claro de ressignificação do passado do país? O diretor artístico do evento, Mauro Munhoz, ainda soltou esta pérola:

 

“Não é por ter sido escrita em língua inglesa que a poesia de Bishop está menos encharcada do Brasil que a de Drummond ou João Cabral de Melo Neto.

 

Detalhe: 2020 é o ano do centenário de nascimento de João Cabral.

 

A Flip é um evento da indústria, mas, nem mesmo em seus momentos mais evidentes de divulgação da viabilidade do prazer ler – não, necessariamente, de quem nos fez/faz ler – parecia acenar para algo tão terrível quanto o simbolismo de homenagear Bishop.

 

Se pensarmos na presença recente do prefeito do Rio na Bienal do Livro, tentando impor censura sobre HQs da Marvel, a Flip, mesmo elitista, é só mais um capítulo da agenda de ocupação dos espaços do conhecimento por gente que, conscientemente, está lá com a missão de deturpá-lo e impedir sua circulação. Nada é por acaso, creiam. Em tempo de ataque do próprio governo ao patrimônio cultural nacional e no corte de verbas destinadas a projetos desta natureza, esta edição da Flip não poderia ser mais conveniente.

 

Enquanto o evento homenageia Elizabeth Bishop, nomes como João do Rio, Cora Coralina, Erico Verissimo e Ariano Suassuna seguem ignorados pelos “intelectuais” da Flip.

 

Em tempo: houve boato de que o atual ocupante do Palácio do Planalto iria participar da abertura do evento.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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