Eu Quero Me Consumir

Não, eu não fui assistir o filme dos Vingadores.

Não senti a menor vontade…pra falar a verdade, pagaria R$5 pra não ter que ir lá.

E isso não tem só a ver com minha já antiga teoria de que “quanto maior o uso de efeitos especiais, menor o interesse que eu tenho em assistir o filme”…

Tem a ver com alguns fatores que me fazem, em tempos como esse nosso, conceitualmente consumir majoritariamente arte brasileira.

“Se “Vingadores” fosse um filme brasileiro vc assistiria?” Digamos que teria mais chance de que eu pagasse o ingresso…

Um filme estrangeiro que chega tomando 80% das salas de cinema,na tora, não vai me ver entre seus pagantes…Pra mim é uma questão de honra não dar meu dinheiro pra essa zorra dessa indústria predatória.

Além do mais, eu comparo a indústria mainstream/blockbuster com a indústria do fast food: depois que você para de comer, depura o paladar e nem se imagina trocando um prato de comida “de verdade” por um Big Mac com batata frita e refrigerante. Aquilo simplesmente não te enche mais os olhos e o que fica é “como eu consumi esse troço opilante na minha vida?”

E a resposta é: você foi ensinado pela indústria que aquilo era bom, que era um consumo massa, in, cool…Quando na verdade aquela comida nem comida era, mas um artigo caro que não te nutria e se vacilar, ainda ia te fazer mal.

É a indústria que, citando Renato Russo em “Geração Coca-Cola”, “nos empurra os enlatados dos USA de 9 às 6”. Nos ensinando, desde pequenos, a “comer lixo comercial e industrial”.

Nossa cultura brasileira é uma das mais ricas do mundo; plural,diversa…nesse caldeirão de indios, portugueses e africanos, e mais quem pintou desde 1500 e nos formou como povo único no mundo, tem muito mais sustança do que importamos das “metrópoles”.

Temos, digo isso sem qualquer dúvida, a melhor musica do mundo…uma harmonia inigualável, compositores do quilate de um Tom Jobim, um ritmo que pulsa na batida mais humana do mundo, o coração, e letras/poesias numa das mais belas línguas: o português (com todos os seus ãos e pegadinhas gramaticais).

Cerca de 95% do que ouço no Spotify é brasileiro. Não troco Racionais MC’s por nenhum rapper americano!

Me debruço com atenção às discografias dos clássicos como Dorival Caymmi ao mesmo tempo que leio Jorge Amado e já emendo com o novo do BaianaSystem e o single novo de Adriana Calcanhotto, logo depois de assistir “Rasga Coração”ou um episódio de “Homens?”( bem bom! assistam).

Por quê esse amor à cultura brasileira? Porque ela sou eu. Nela eu me vejo falando.

Nela eu olho o espelho.

Vejo nossa imensa alegria e histórica desigualdade.

Somente nos conhecendo vamos nos entender. Nenhum Thor vai me mostrar isso…

Num período de hiper-informação e grana curta, escolhemos e o que vamos consumir.

Eu quero ME consumir.

Eu quero consumir o que o Brasil tem pra me oferecer.

Inclusive porque somos melhores que a enorme maioria da indústria cultural multinacional e porque, se for pra pagar, que seja pra quem trabalha e produz a NOSSA cultura.

Troco “Cidadão Kane” pelo “Pagador de Promessas”. Troco.

Troco Beatles por Chico. Troco.

Troco Kanye West pela versão baiana. Troco. Bob Marley por Edson Gomes eu não troco…fico com os dois…mas com a sensação real que Edson fala direto pra mim,como quem anda pelas mesmas ruas e respira o mesmo ar.

Viva o Brasil! Bolsonaro que se foda.

 

Crédito da Imagem: Jornal da USP

André Mendes

André L.R. Mendes é compositor/artista/músico/cantor, integrante do grupo baiano Maria Bacana.

Um comentário em “Eu Quero Me Consumir

  • 16 de maio de 2019 em 18:59
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    Cara… é um ponto válido sua análise. Mas eu particularmente não troco nada. Fico sempre com os dois (caso acredite que os dois em questão tenha valor, claro). Não vou deixar de ouvir ella fitzgerald ou patti Smith porque aprecio escuto Adriana Calcanhato , Gal Costa e Josyara. Acho que da pra conviver na vitrola um Chico e um Leonard Cohen. Sem drama algum. Acho que o ponto principal é ser consumidor de uma monocultura. Como sinônimo de referência de qualidade máxima, relegando os registros “periféricos” para o limbo cultural. Aí acredito que seja necessário realmente estarmos atentos. No mais, acho que o caldeirão musical do mundo contribui muito para a formação.do indivíduo : abracemos Serge Gainsbourg e Gilberto Gil; Turma da Mônica e tio patinhas, Murakami e Caio.Fernando Abreu , ramones e Maria Bacana! Tudo me interessa.

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