Dois discos de Tina Turner

 

 

Dona Tina está completando oitenta anos hoje. É uma senhora coleção de primaveras para qualquer um, imagina para uma estrela da música. Tina é uma baita de uma cantora soul mas teve seu apogeu e fama – os quais ela perseguiu durante anos – como uma intérprete do mais puro e virtuoso pop dos anos 1980. Quem estava vivo e ouvindo música naquela primeira metade de década, tem na figura de Tina um dos referenciais visuais da época, a silhueta esguia, o penteado característico, o vestido curto e as belas pernas à mostra. E a voz.

 

Tina viveu muito tempo com Ike Turner, com quem teve um casamento tumultuado. Como Ike & Tina, eles tiveram carreira interessante nos anos 1960/70, mas nada próximo do que ela conseguiria a partir de 1983, quando estourou mundialmente com uma versão do clássico de Al Green, “Let’s Stay Together”. Em seguida veio um de seus maiores clássicos, “What’s Love Got To Do With It”, que varreu o mundo. A gravação é uma das mais belas de seu tempo, muito por conta de um arranjo econômico atípico para uma época em que vários e vários detalhes da nascente eletrônica pop dos estúdios pareciam distinguir valores. Tina surgia com a voz domada, mas cheia de potencial e nuances. Outras duas canções completaram seu domínio das paradas, quase simultaneamente: “We Don’t Need Another Hero” (de 1985), que foi tema do terceiro filme do herói pós-apocalíptico Mad Max, “Além da Cúpula do Trovão”, sendo inversamente proporcional ao filme, que era péssimo. Fechando o quarteto de canções matadoras de Tina, a versão impressionante de “Help”, dos Beatles.

 

Em 1984 ela lançou o disco “Private Dancer”, que tinha a produção de um time de pessoas, além da participação de outro tanto de gente. Foi, ao lado de “Diamond Life”, do mesmo ano, da cantora anglo-nigeriana Sade Adu, um dos responsáveis por uma certa atualização do soul-pop nas paradas de sucesso. A faixa-título, por exemplo, é de autoria de Mark Knopfler e tem solo de guitarra marcante de Jeff Beck, foi outro sucesso nas paradas de sucesso. Um nível abaixo em termos de sucesso mundial, mas igualmente sensacional, é “Better Be Good To Me”, que tem uma pegada dançante/new wave, que era o máximo da modernidade nas paradas de sucesso de então. Não por acaso, seu a Tina o Grammy de melhor performance rock de 1985, enquanto “What’s Love Got To Do With It” levou os Grammys de melhor performance pop, gravação do ano e canção do ano, tudo em 1985. Não é pouca coisa, não.

 

Tudo isso deu a Tina presença garantida no hall dos popstars mundiais do meio dos anos 1980. Ela não deixou a peteca cair e veio com um outro álbum, espécie de sucessor de “Private Dancer”, que seria o igualmente ótimo “Break Every Rule”, que viu a luz do dia no fim de setembro de 1986. O disco foi antecedido por um single matador, “Typical Male”, cuja levada ainda é uma das mais legais que Tina registrou nos anos 1980.

 

Do disco participaram Phil Collins, Eric Clapton, David Bowie, Bryan Adams, Steve Winwood e mais Brandford Marsalis, entre muitos outros, que transformam “Break Every Rule” em outro peso-pesado nas paradas de sucesso. Depois de “Typical Male”, outro single matador foi extraído do álbum, “Two People”. A canção parecia uma continuação de “What’s Love Got To Do With It”, seja pelo arranjo, seja pela levada. Ela se perpetuou nas programações de rádios FM brasileiras, muito pela inclusão na trilha sonora da novela global “O Outro”. Fechando a trinca de hits, “Paradise Is Here”, cujo arranjo de saxofone é outro marco daquele tempo.

 

Tina ainda seguiu na chamada “crista da onda” por algum tempo, lançando o duplo ao vivo “Tina Live In Europe”, no qual trazia o melhor de sua fase pop e vários sucessos dos primórdios da carreira. Em 1989 lançaria “Foreign Affair”, disco que ainda seguia no mesmo caminho dos anteriores, mas não tinha um arsenal de hits tão poderoso. Mesmo assim, são dignas de nota “The Best” e “I Don’t Wanna Lose You”.

 

Neste dia de 80º aniversário de Tina, batizada como Anna Mae Bullock, seja você um fã de seu tempo como estrela superpop ou incandescente cantora soul, o melhor é lembrar de sua excelência como artista e do tanto que precisou enfrentar para chegar onde chegou. Tina é dez. Ou melhor, oitenta!

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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