Baratos da Ribeiro agora é selo musical

 

Livrarias promovem encontros entre livros e leitores, ideias e pessoas. O mesmo vale para lojas de discos. Quem conhece o sebo Baratos da Ribeiro, sabe que ele não é só uma livraria. Há quadrinhos, discos, shows, gente interessante. Poetas decidem publicar fanzines, um diretor de audiovisual descobre seu elenco (e até a locação!), o romancista conhece seu capista, um roteirista de quadrinhos encontra o ilustrador ideal e o guitarrista esbarra naquele baixista que faltava para começar uma banda. Por vezes, a livraria consegue até acolher o resultado final: promover o sarau, exibir o curta-metragem ou virar palco para a banda se apresentar ao vivo.

 

Fundada em 2001 pelo ex-fanzineiro e estudante de jornalismo Maurício Gouveia,  a livraria Baratos da Ribeiro, inicialmente localizada na rua Barata Ribeiro, quase de mesmo nome, em Copacabana (Rio de Janeiro), sempre esteve a serviço da produção cultural local. E o interesse do Maurício pelo rock autoral de seus contemporâneos acabou criando certa tradição e identidade para o estabelecimento. Logo em seus primeiros meses no Rio, o Maurício viu shows do Zumbi do Mato, Funk Fuckers e até Los Hermanos no sebo Berinjela, outro polo informal de efervescência cultural, localizado no Centro do Rio. Então, quando um amigo sugeriu que o Zumbi do Mato também fizesse um show no seu recém-inaugurado sebo, o livreiro não pestanejou. Abriu espaço entre as estantes para a banda e ainda ofereceu emprego ao amigo que teve a sacada. Rock´n´roll em meio aos livros e discos exige certo jogo de cintura – o pessoal precisa se adaptar às limitações de um espaço planejado para outros fins -, o que acabou sendo um dos charmes desses eventos: acesso gratuito ao público e proximidade com os artistas, clima intimista, músicos testando novas canções, à vontade para improvisar.

 

O período entre 2004 e 2007 foi especialmente intenso de shows e eventos musicais, em geral, no sebo, graças à parceria com a MOSH!, revista em quadrinhos de temática roqueira editada por S. Lobo e Renato Lima. Foram eles que batizaram as apresentações musicais ao vivo na Baratos de “Vespeiros” e botaram grandes ilustradores cariocas para criarem flyers para os eventos – Fábio Lyra, Vinícius Mitchell e Fábio Monstro assinaram vários deles.

Em 2006 nasceu o Clube do Vinil, noites em que os frequentadores da Baratos atacam de DJ, dividindo com os amigos o prazer de escutarem seus LPs. Pedro de Freitas Branco, compositor e musicólogo que acaba de lançar o livro “Sobreviventes: o Rock em Portugal na Era do Vinil” pela Editorial Presença, é um dos colaboradores mais assíduos – e sua refinada coleção, em torno de 5 mil discos, das mais impressionantes. Outros autores participaram do Clube, como o jornalista Ricardo Schott (“Heróis da Guitarra Brasileira”, escrito em parceria com também jornalista Leandro Souto Maior), Rômulo Mattos (“Memórias de um Legionário”, com Dado Villa-Lobos) e Sílvio Essinger (“Batidão: uma história do Funk”, “Punk: anarquia planetária e a cena brasileira”, “Almanaque dos anos 90” etc). E alguns desses Clubes funcionaram como evento de lançamento de livros, caso do “Discobiografia Mutante”, da Chris Fuscaldo, e “Júpiter Maçã: a efervescente vida e obra”, de Pedro Brant e Cristiano Bastos. Desde o nascimento da Rádio Graviola, em 2008, o Clube do Vinil é também um programa de rádio. Na verdade, foi o primeiro programa fixo da Graviola, que já ganhou três vezes o Prêmio Profissionais da Música e é atualmente a web rádio brasileira campeã de audiência.

 

Nos últimos anos o Sebo Baratos diminuiu o ritmo dos shows e se concentrou no Clube do Vinil. Desde 2015, a partir da mudança da loja de Copacabana para o lindo e espaçoso sobrado azul situado no número 15 da Rua Paulino Fernandes, em Botafogo, foram gravados mais de 150 edições do Clube, o que significa mais de 300 horas de música captada de vinil e bate-papo. Shows foram poucos, mas caprichadíssimos: Picassos Falsos; Jonnata Doll & Os Garotos Solventes (Fortaleza / São Paulo); Fred Zero Quatro (Mundo Livre S/A); Verônica Vallentino (da Verônica Decide Morrer, num show só com canções do Belchior); Melvin & Os Inoxidáveis; Tagore (Recife); Gilber T & Gerson King Combo; Jorge Vadio (Portugal); O Branco & O Índio e Estranhos Românticos; entre outros. E diferentemente daqueles anos em Copacabana, houve distribuição de senha e, em alguns casos, vaquinha para arcar com os custos da produção.

 

A Baratos da Ribeiro também patrocinou lançamentos dos icônicos selos musicais indie Midsummer Madness e Transfusão Noise Records. Mas faltava um “modelo de negócio” que justificasse um selo próprio. E, obviamente, pesam as dificuldades de se manter um negócio de pé nessa montanha-russa que é a economia brasileira. Parte da solução dessa questão seria a tal da vaquinha, ou, recorrendo ao jargão atual: o crowdfunding, ou financiamento coletivo.

 

O SELO BARATOS DA RIBEIRO/ CLUBE DO VINIL nasce então de uma proposta que Maurício Gouveia recebeu do Fabio L. Caldeira e da Gabriela Camilo, integrantes da dupla de electrorock Latexxx: eles sonhavam com um EP em vinil, um compacto duplo 7” (polegadas), reunindo quatro canções com afinidade temática, no que seria o seu novo trabalho. Combinaram que a Baratos bancaria 25% dos custos de fabricação e os 75% restantes seriam captados através da plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria, onde o público mesmo se tornaria avalista do lançamento – pois é ele que ajuda efetivamente a tornar realidade a nossa proposta, adquirindo os discos ainda na pré-venda, viabilizando boa parte do seu financiamento. E, se desse certo, por que parar no primeiro? Por que não seguir lançando discos?! Fabio já havia dominado as “manhas” exigidas pelo formato vinil quando produziu o LP da banda Os Azuis e Maurício convidou Pedro de Freitas Branco para eventualmente ajudar na direção artística de futuros lançamentos.

 

Vitoriosa a campanha, o primeiro compacto do selo, o do Latexxx, sairá num vinil translúcido e será lançado em fevereiro de 2020, quando o sebo entra em seu vigésimo primeiro ano de vida. Antes disso, ainda em fevereiro, será realizado um show de pré-lançamento exclusivo para quem colaborou com o crowdfunding (o que é outra das características do projeto em seu modelo de negócios, junto com o formato de compactos em vinil sempre com apuro visual – coloridos ou transparentes –, e da banda/artista lançada ser dona da própria master do disco,).

 

Já foram definidos de quem serão os próximos lançamentos do nosso selo: Fausto Fawcett & Os Robôs Efêmeros, quebrando um hiato discográfico da banda que vinha desde 1989. Tendo recentemente assinado praticamente todas as músicas do novo álbum (digital) do Leela e reformulado os Robôs Efêmeros com seu parceiro e fiel escudeiro Carlos Laufer, Fausto está cheio de novas ideias, shows, performances. O outro lançamento confirmado é um compacto com músicas inéditas da Blastfemme – formada no final de 2016 por mulheres da cena independente carioca, a Blastfemme tem se destacado e impressionado plateias até na China, literalmente (a banda fez uma turnê por lá em 2018), com sua forte influência do Punk e do Noise, equilibrada com batidas da Disco Music e o teor do Pop, e que lançou álbum (independente) homônimo de estreia neste ano, coproduzido pela própria banda e Gustavo Benjão.

 

Juntos, Latexxx, Fausto Fawcett & Os Robôs Efêmeros e Blastfemme, serão os três primeiros lançamentos do selo, ao longo de 2020. E ideias para mais lançamentos adiante não faltam! Bandas e artistas com repertório incrível e com quem o sebo Baratos tem afinidades também não!

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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