O Fator Foo Fighters

 

Hoje tem Foo Fighters no Rock In Rio. Acho sempre pertinente discutir a posição da banda e dos fãs em relação ao rock feito hoje no planeta. Este texto já tem quase oito anos – tempo voa – mas talvez ainda esteja atual para a questão: Dave Grohl e sua banda são o máximo que o rock pode oferecer no mainstream?

 

 

Não se espante com o título estapafúrdio. É uma homenagem sem muito sentido a um filmeco dos anos 70, subproduto do gênero catástrofe/sci-fi, chamado “O Fator Netuno, Uma Crise Submarina”. Nem sei por que me lembrei disso, talvez porque queria batizar esse texto como apenas Fator Foo Fighters, ou ainda, Questão Foo Fighters e a “crise submarina” cairia bem. Não importa muito, a intenção aqui é investigar algo que tem me assustado bastante nesses últimos tempos: a idolatria extrema à banda de Dave Grohl, como se ela fosse um tipo qualquer de representante máximo do rock. Não sei o que é pior: achar isso do Foo ou endeusá-lo mesmo assim, sem mais nem por quê.

 

Você já deve saber que o festival itinerante Lollapalooza vai ter uma versão brasileira, a se realizar nos dias 7 e 8 de abril de 2012. Até aí, tudo bem. O headliner do primeiro dia é o Foo Fighters, aguardado ansiosamente, como se fosse a volta do Messias. Não será a primeira vez da banda no País, Grohl e sua gang já estiveram aqui em 2001, por ocasião do Rock In Rio III. Entre aquele show e o ano que vem, o Foo Fighters lançou quatro discos de inéditas, um trabalho acústico e uma coletânea. Também soltou um documentário retrospectivo interessante. Só que, a exemplo do que era em 1995/96, o Foo sempre foi um grupo coadjuvante, mediano, menos importante que outros. Será que o mundo de hoje vê a banda de Grohl como uma espécie de ícone, acima do bem e do mal?

 

Se isso é verdade, o que parece ser, de fato, há vários processos empobrecedores em curso, responsáveis, num futuro a curto prazo, pela imbecilização completa das pessoas com poder para fazer a diferença no mundo. E quem são elas? Eu e você, que está lendo essa coluna. Se não houver uma guerra mundial entre famintos e abastados, as pessoas das classes médias, com acesso à informação e a um mínimo de qualidade de vida, deverão ser as únicas capazes de coletar algum conjunto de dados capazes de tornar as coisas mais justas por aí. Mas, você dirá, esse cara está viajando, é apenas uma banda de rock, é o Foo Fighters, oras. Sim, é uma banda de rock, mas são as pequenas – e as grandes, claro – frações que mostram o quanto a estrutura está corroída, carcomida. Como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez, “será que mais uma geração caiu nas garras da arteriosclerose do “classic rock”?”

 

Senão, vejamos: o Foo Fighters tem uma carreira respeitável, já com sete discos de inéditas, em 16 anos de existência. Uma média interessante de pouco mais de um disco a cada dois anos, todos bem produzidos, bem tocados, com clipes fazendo sucesso aqui e ali. De todos os trabalhos da banda, não tenho medo de dizer que os dois primeiros discos são os melhores de sua carreira. São os únicos com algum risco, algo a ser provado, alguma satisfação a dar. E são os mais pesados e desordenados. “Foo Fighters” (1995) e “The Colour And The Shape” (1997) flagram a banda com disposição para encontrar seu lugar ao sol, com garra e urgência.

 

Há canções legais como “Big Me” ou “Floaty” (do primeiro) e “Monkey Wrench”, “My Hero” e o hit “Everlong” (do segundo), que se inserem entre o melhor da verve grohliana. Power pop, punk de arestas aparadas e um senso interessante de melodia. Não parecia em nada com o Nirvana, banda anterior de Dave (apesar do marketing da época vende-los como “uma nova banda que você já amava”). A partir de “There’s Nothing Left To Loose” de 1999, tudo começa a entrar num padrão controlado, asséptico, confortável. Dave Grohl tem uma banda confortável sob todos os aspectos. Ele é o “mastermind”, o rei da cocada preta, o dono da bola, balança a pança e comanda a massa em todos os níveis. Se a bateria de Taylor Hawkins não o agrada, ele vai e refaz tudo. Se há vontade de gravar tudo analogicamente em sua garagem com a produção de Butch Vig, há grana suficiente para bancar a empreitada. “Wasting Light”, seu último álbum, é pesado e dinâmico. Lembra o segundo disco, lembra que a banda supostamente faz rock mesmo, não há como negar. Também há a habitual sustentação visual, com clipes interessantes, cheios de referências pop dos anos 90. Afinal de contas, e é aí que mora o perigo, o Foo é uma banda dos anos 90.

 

Como tudo que é dos anos 90, o Foo é uma dedicada reciclagem de elementos estéticos. Só que a década marcou o início de uma nova lógica, a da descartabilidade artística aliada à monetarização da arte, ambas em níveis nunca vistos na história. Tudo passou a ser indexado apenas pela lucrabilidade que poderia trazer, pelos cifrões que poderia significar. Essa noção se amoldou a quase todos os aspectos da nossa vida, principalmente na percepção que temos do mundo e do juízo sobre o que vale realmente a pena na vida. Algo que não pode correr riscos, não pode comportar qualquer tipo de variável, incógnita ou a mínima imprevisibilidade.

 

Talvez o último grande momento da música da década de 1990, no que diz respeito à vulnerabilidade das pessoas diante disso tenha sido “OK Computer”, do Radiohead. Ali vinha uma espécie de diário de bordo da distopia (o contrário de utopia, só pra constar) a respeito do mundo, de como as coisas pareciam cinzentas diante do falso colorido e do remelexo vazio dos clipes e discos de rappers cafetões ou da rasteira invocação rocker de bandas como Killers ou Arctic Monkeys, sem eira nem beira num mundo que deixou de ouvir rock. Nem sou muito fã do “OK Computer” e acho pra lá de suspeita a babação de ovo em torno do disco, mas é impossível não ver seu aspecto textual, que é, numa moldura quase progressiva, cantar o não-amanhã, a não-mudança do mundo. Não por coincidência, vivia-se à época (1997), a idéia do “fim da história”, diante das quedas dos regimes socialistas e da guerra na Bósnia. De fato, o neoliberalismo venceu, engessou todas as possibilidades de troco por parte de todos nós.

 

O rock reflete isso, claro. Veio uma geração bunda molíssima, capitaneada pelos Strokes e seus clones, numa raia em que um revisionista assumido, Jack White, corria por fora, regurgitando clichês dos anos 70 sistematicamente. Afinal de contas, para que se trancar no quarto porque você não pode carcar a menininha da escola? Ora, monta uma banda de axé, cumbia, country, pagode, FICA RICO, e todas elas vão cair aos seus pés. Rock? Ora, rock com letras que falam algo, que têm mensagem, isso é coisa de… velho. Sendo assim, restou ao Foo uma confortável (olha o termo aí de novo) posição de representante de um inofensivo tipo de rock de um tempo que não mais existia, dentro de um contexto de passado recente. Com essa legitimidade temporal, senso comercial e estético apurados, Dave Grohl moldou a carreira de sua banda ao sabor previsível do vento e, talvez antevendo uma onda nostálgica pelos anos 90, soltou um disco com cara de 1997 em pleno 2011. Se levarmos em conta que a idade do ouvinte de Foo Fighters varia entre 20 e 40 anos, lançar algo como “Wasting Light”, cheio de “veracidade”, com participação de Bob Mould, retorno de Pat Smear (ausente desde…1997), produção “grunge” de Butch Vig (que já se adianta para reunir sua “banda pós-Nirvana”, o Garbage), é uma belíssima jogada para velhos e novos fãs, movidos pela lembrança de tempos melhores para o rock ou memória afetiva de quando não precisavam se preocupar com as agruras da vida adulta.

 

O que sempre aflige é que as pessoas vão, cada vez mais, ignorando a existência de bandas de outros tempos, que tiveram responsabilidade por mudanças nas mentes de seus ouvintes, que compuseram músicas com a intenção declarada de transformar alguma coisa. Dave Grohl teve chance de ouvir gente boa como Who, Led Zeppelin, Beatles, Sex Pistols, Replacements, Big Star, Cars, Cheap Trick, só pra citar a amplitude que o espectro de influências de uma formação como o Foo Fighters pode comportar. O que é inegável é que o melhor momento de Grohl, bom baterista, em toda a década de 00 aconteceu quando ele deu um tempo no Foo e foi tocar com o Queens Of The Stone Age. Ali tudo pareceu meio improvisado, com genuína vontade de fazer algo novo e legal . Não espanta que “Wasting Light” tenha sido indicado para receber SEIS prêmios Grammy. Já faz um bom tempo que ganhar um Grammy é receber um carimbo de coadunação com o establishment. Aliás, bandas de rock nunca deveriam receber prêmios por qualquer coisa. Certo?

 

 

 

Texto originalmente publicado no Scream & Yell, em 6 de dezembro de 2011, neste link.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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