Guilherme Arantes desafia o tempo em novo álbum

Guilherme Arantes – Interdimensional
68′, 15 faixas
(Coaxo do Sapo)
(4,5 / 5)
Em julho de 2021, Guilherme Arantes lançou seu disco anterior, “Desordem dos Templários” (resenha aqui). Era um trabalho com intenção de usar alguns elementos do rock progressivo estilizado para adornar arranjos grandiosos, pianísticos e roqueiros. Ainda que a origem da carreira de Guilherme tenha sido o progressivo, a bordo do grupo Moto Perpétuo, ele não havia dedicado um álbum a este conceito. O talento dele sempre foi a mistura de influências, partindo deste progressivo intuitivo, passando pelo pop anglófono setentista e oitentista, além das pelas melodias perfeitas derivadas do cânone beatle, da bossa nova, com pitadas aqui e ali de música clássica. É consenso dizer que, caso fosse inglês ou estadunidense, Guilherme Arantes seria um dos grandes da música pop mundial. E é essa musicalidade exuberante que permeia todas as faixas de “Interdimensional”, seu novíssimo trabalho. Uma olhada em sua discografia vai mostrar que Arantes é um cara muito mais afeito a singles majestosos do que discos inspirados do início ao fim. Talvez este álbum seja um dos que mais contraria esta regra, trazendo uma quantidade impressionante de ótimas canções.
Guilherme é bem ativo nas redes sociais e tem um discurso recente pautado pela desilusão com a face mais rápida da pós-modernidade. Não é raro vê-lo escrevendo longos textos falando sobre como as coisas costumavam ser melhores ou “diferentes para melhor” no passado, mas, de uma forma paradoxal, esta visão não faz dele um saudosista vazio. Pelo contrário. Essa crença é transformada em força criativa e um compromisso artístico que renova o prazer de ouvir suas canções, visto que, por exemplo, Guilherme não acredita em algoritmos e convenções digitais com a que obriga os artistas a lançarem EPs ou faixas com menos de três minutos de duração. Em “Interdimensional” ele vai fundo em baladas e faixas que ultrapassam os cinco, seis minutos de duração, alegando que sua arte não se define por essas convenções. A julgar pelo resultado, não mesmo. O prazer de ouvir as melodias perfeitas que ele é capaz de criar é muito maior se elas seguirem as regras intuitivas do autor, deixando o tempo necessário para refrãos, instrumentais e arranjos tomarem o tempo que for necessário do ouvinte.
Guilherme compôs todas as melodias e letras do álbum, exceto por “A Vida Vale A Pena (I Believe In Love)”, que tem os versos assinados pelo velho parceiro Nelson Motta. Além disso, Arantes toca vários instrumentos, arranja e produz o álbum, tendo registrado as gravações em estúdios situados em Ávila (Espanha), São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Além dele, há participações valiosas pelo disco adentro, caso do guitarrista Luiz Carlini, monstro sagrado do rock setentista brasileiro e velhos integrantes da banda de apoio de Guilherme, e da cantora Monica Salmaso, que participa da belíssima “Luar de Prata”. As melodias que desfilam ao longo das quinze faixas do álbum são, via de regra, lindas e as letras de Guilherme, quase todas muito românticas, soam como uma novidade já conhecida de seus fãs. Tudo o que se ouve por aqui é totalmente familiar dentro de sua obra, mas, de alguma forma, parece potencializado, mais forte, decidido. Talvez seja o álbum mais coeso que ele grava desde seu período áureo, nos anos 1980.
A quantidade de canções ótimas é muito grande. “Libido da Alma”, o primeiro single, tem pinta de canção pop soul lentinha do início dos anos 1980, com uma produção nitidamente inspirada em Lincoln Olivetti em seus melhores momentos. “Intergaláctica” é épica, tipicamente aranteana, existencial e espacial, olhando para o éter em busca de respostas em meio a uma estrutura épica e baladeira. “Enredo de Romance” tem, ao mesmo tempo, uma pegada yacht rock e pedigree inequívoco do Arantes de “Deixa Chover”, que tinha seu instrumental totalmente inspirado em Earth, Wind And Fire. Aqui o guitarrista Luiz Carlini fornece um baita solo. Em “O Prazer De Amar Pra Mim É Você”, Guilherme se sai com uma melodia lindíssima, com letra muito derramada e arranjo de sintetizadores e cordas que flutuam sem medo de exagerar no amor assumido. “Luar de Prata”, com introdução que parece citar o sucesso “Um Dia, Um Adeus”, é uma valsa que mistura, ao mesmo tempo, Pixinguinha e Francis Hime, com uma lindeza que não tem medo de ser feliz. Outra faceta de Arantes dá as caras em “O Espelho”: o apreço pelo technopop oitentista, algo que ele já assumiu em vários momentos. Aqui ele lembra Erasure, cheio de efeitos, timbres eletrônicos e melodia fofa. “Puro Sangue (Libelo do Perdão)”, que já foi gravada por Gal Costa, é o melhor momento do álbum. O piano grandioso cai como gotas sobre o arranjo, que também tem o cello de Jaques Morelenbaum e uma nítida influência de Flávio Venturini e Lô Borges, seja no andamento, seja na letra, seja no arranjo. Uma explosão de beleza. E, falando nisso, “50 Anos-Luz” é outro momento belíssimo, aceno assumido a este rock progressivo que está impresso na identidade de Guilherme Arantes.
“Interdimensional” é um discaço. Mais de uma hora de ótima música, produção exemplar, timbres lapidados com atenção e esmero, realmente um desfile de música feita para ser ouvida, saboreada, compreendida e apreciada. Guilherme Arantes continua um ourives da música brasileira. Demais para 2026.
Ouça primeiro: “Luar de Prata”, “Puro Sangue (Libelo do Perdão)”, “O Prazer de Amara Para Mim É Você”, “Enredo de Romance”, “Libido da Alma”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

O Guilherme para mim é um dos melhores cantores da MPB!