Extreme Makeover BR é insuportável

 

 

Reality shows de culinária e decoração despertam em mim uma curiosidade enorme. Talvez porque comida e casa sejam – junto com a pessoa amada e/ou a família – os alicerces reais da existência humana neste nosso tempo. Talvez por terem esta percepção da importância desses itens, os grandes conglomerados de mídia estão sempre abertos para este tipo de assunto, especialmente quando eles podem ser manipulados e distorcidos. Veja, por exemplo, o Extreme Makeover. Criado pela companhia holandesa Endemol, a mesma do BBB, ele propõe ajudar uma família em situação difícil a reformar sua casa em dez dias. Pra isso, conta com o apoio de vários profissionais, um time de pensadores – designers, engenheiros, arquitetos – e um apresentador. Foi sucesso nos Estados Unidos por dez anos, entre 2003 e 2012 e agora chegou ao Brasil pelas mãos da GNT. Quem apresenta é … Otaviano Costa.

 

O programa é lamentável, ainda que seja considerado por muitos como “o grande acerto do GNT nos últimos anos”. É lamentável porque há vários detalhes que o tornam absolutamente fake, criando aquela empatia efêmera entre personagens e elenco, usando várias abordagens com ar coach motivacional. Também há muita falação, muita superficialidade e momentos de constrangimento real. Sem falar que as soluções de design e arquitetura optam sempre por mostrar o óbvio, por dar uma cara de hotel aos cômodos, tornando tudo absolutamente impessoal, ao contrário, por exemplo, do Decora, outra atração do GNT que tem na arquitetura e na reforma o seu assunto principal. Enquanto Maurício Arruda – que comanda o Decora há anos – opta por remodelar apenas um cômodo, Otaviano e seu “squad” seguem a receita do original e refazem uma casa inteira.

 

O Extreme Makeover BR é uma mistura de Fábrica de Casamentos com Irmãos À Obra. É um programa sobre os profissionais e os desafios enfrentados. O foco é neles, em suas habilidades, na sua capacidade de resolver qualquer problema. O programa não pode falhar. A família que habita o imóvel é reduzida à vala comum dos “necessitados”, mas que são fortes e enfrentam os desafios do dia a dia. Logo, eles “merecem” que aconteça a reforma, que vai significar “um novo começo” para eles. É uma maneira do programa se travestir de “destino”, proporcionando algo que era aguardado há muito tempo e que, se não fosse por sua intervenção, provavelmente jamais se realizaria. É triste ver como a emoção das pessoas é aproveitada nessas horas. Tome cena de gente chorando, se lamentando, falando sobre como o programa fez com que a família se aproximasse mais e etc e tal. No episódio da Família Malaquias, por exemplo, os quatro integrantes – pai, mãe e duas filhas – se emocionam comendo um churrasco num espaço gourmet, porque ele os fez lembrar de como costumavam se reunir aos domingos e comer “uma carne”. E tome esfregar os olhos para cair uma lágrima ao menos…

 

Tudo é patético no programa, mas há dois detalhes que ultrapassam o nível normal de irritação. A presença de Otaviano Costa, uma das criaturas com menor propósito na TV. Ele não tem graça, fala muito alto, fala com a voz empostada em todos os momentos, tem carisma equivalente ao de uma samambaia e, pior de tudo, conduz o programa com um ritmo frenético, que dá cansaço no espectador. Ele tem falsa animação, tudo soa falso em suas aparições, é um verdadeiro desastre. Ainda por cima, chama os profissionais que planejam a reforma de … SQUAD. Não é o “time” de profissionais ou o “grupo” ou seja lá o que for…é o SQUAD. É como se os americanos, lá no original do programa, chamassem os seus de GRUPO.

 

Verborragia patética, assistencialismo raso, canastrice generalizada, impessoalidade nos resultados…nada disso parece ser importante para a audiência, que é grande e já faz a Globo pensar em incluir a atração em sua grade de programação, logo após a pandemia. Enquanto isso, por sua total conta e risco, Otaviano e seu SQUAD dão as caras no GNT, numa primeira temporada de dez episódios.

 

Veja por sua conta e risco.

3+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Extreme Makeover BR é insuportável

  • 28 de abril de 2020 em 21:13
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    Crítica super necessária. Lembrando que o “Caldeirão do Huck” tem um quadro na mesma linha, Lar Doce Lar. Um passo além: já pensaram no Otaviano como candidato à presidência?
    Quando assisti o programa, percebi algo nele que dialoga com um certo imaginário religioso. A reforma realiza-se como um milagre, uma graça, abrindo a oportunidade de um recomeço de vida. Bem parecido com que algumas igrejas prometem, com a diferença que na religião as pessoas têm que trabalhar mais…

    1+
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    • 29 de abril de 2020 em 07:38
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      Nada é por acaso nesses programas. As intenções são as piores possíveis.

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