Entrevista com Giovanna Moraes

 

Giovanna Moraes é uma das cantoras mais talentosas em atividade no país hoje e, provavelmente, você nunca a ouviu. Articulada, inteligente, talentosa e versátil, ela tem uma voz com registro agudo que não soa alta ou estranha, pelo contrário. Seu registro é pungente e sofrido, quando necessário, mas também doce e convidativo na hora que precisa ser. Além disso, ela é compositora, pianista e dona de uma carreira que já tem alguns itens bem interessantes, que você já viu aqui na Célula. Batemos um papo com ela e vimos que Giovanna é uma dessas artistas que prezam sua arte como forma de sobreviver e se posicionar sobre o mundo. E isso, senhoras, senhores e demais configurações, é raro.

 

Abaixo está o resultado da conversa. Divirtam-se e conheçam a obra da moça. Garantia total de boa viagem.

 

 

– “III” é o seu mais novo lançamento. Conta pra gente como ele veio e do que ele fala.

Eu escrevo música todo dia, como uma maneira de lidar com o que sinto, como resposta ao que leio, e ao que vivo e vejo. Por isso, minha trajetória e evolução são diárias. Todos os dias penso em jeitos para aprimorar minha arte, seja na escrita das letras, no desenvolver de melodias inesperadas, no aprender novos instrumentos, ou ferramentas na edição de vídeos.

Estou sempre buscando mais recursos para dar vida aos sentimentos por trás de cada trabalho. No III me vi mais hábil da minha capacidade interpretativa e no controle vocal para deixar a emoção do trabalho cada vez mais palpável. Me senti mais confortável com o português para me permitir sentir tudo que às vezes evito, intencionalmente, usando a música para enfrentar em vez de ofuscar o que sentia. Tive que lidar com os temas que vieram à lona. Senti-me mais à vontade para misturar línguas e/ou estilos musicais para ampliar as camadas por trás do significado do trabalho. Comecei a enxergar vídeo como uma extensão da minha arte, como maneira de transmitir a emoção por trás da arte.

São músicas que foram escritas durante a pandemia que refletem coisas como isolamento, solidão, saudades, sanidade e um amadurecimento frente a traumas e dificuldades da vida. Por isso tem uma certa melancolia por trás das letras, refletindo as dores de crescimento. Mesmo assim é um som leve, dançante e otimista, consola o ouvinte que também sente dores parecidas – reflexos de um momento histórico – como um abraço, um convite para se permitir sentir.

 

– Você não se vê apenas como uma cantora/compositora, mas como uma “artista”, especialmente na transmissão de emoções. Como funciona isso?

Adorei essa pergunta! Sou uma pessoa muito emotiva e para mim emoção reage à criação.

Criar para mim sempre foi catarse emocional, uma maneira de lidar com tudo que sinto. É uma maneira de conectar também – através de uma emoção compartilhada. Na raiz da arte está a emoção, aquilo que vem do coração.

Sou uma pessoa com muita variância emocional. Além disso sou uma profissional da voz, e trabalhando com a voz todos dias percebo variações naturais de timbre e tessitura. Se estou cansada, feliz, triste – o que comi -, tudo afeta a voz.

Percebendo isso, procuro escrever sentimentos com palavras, mas também com sons, com a intenção emocional certa. Levo esse pensamento em tudo que faço, desde arranjos instrumentais aos vídeos.

 

 

– Você já tem dois discos e dois EPs, todos interligados e autorreferentes. Conta um pouco deles pra quem tá te lendo pela primeira vez.

Meu catálogo é bem diverso, cada trabalho foi um terreno de experimentação e aprendizado.

Eu escrevo música desde que me lembro como pessoa. A irmã do meu pai me dava aula de violão e desde meus sete anos de idade bastava ela tocar uma harmonia base para eu sair improvisando em cima.

As músicas do Àchromatics (2018) existiam há muito tempo. São músicas que passei grande parte da minha vida escrevendo e reescrevendo conforme o que eu estava sentindo. Mudava letra, mudava arranjo, criava novas versões para explorar novos sentimentos. Essa colagem criativa se culminou com o lançamento do Àchromatics com versões bem diferentes das originais que ampliaram minha visão do fazer musical muito além do voz-violão que estive por tanto tempo acostumada. O disco inclui duas versões da música Have You Ever, com a versão intitulada Part 2 tendo efeito de rádio, mostrando um recorte do passado.

Caso queira ouvir algumas versões diferentes das músicas do Àchromatics te convido para ouvir os EPs Mis Tapes (2018) – versões gravadas no meu quadro na faculdade antes de me ingressar no mundo da música – e À/b (2018) – com versões jazz piano voz e contrabaixo gravado ao vivo. Tem também Às Aventuras de Tim, que trás uma aventura literária com acompanhamento das linhas instrumentais do Àchromatics. É um baita universo.

Depois de me esgotar com as possibilidades Àchromatics, parti pro próximo projeto: Direto da Gringa. O desafio da vez era escrever em português, algo que nunca tinha feito. Para isso me submergi em muita música, literatura e arte brasileira. Muita Clarice, muita Elis, muito tom Zé, muito Gil, Caetano. Me apaixonei pelo movimento tropicalista e procurei colocar elementos disso no som. Estudei letras e fui percebendo o que as músicas que eu gostava tinham em comum. Nesse projeto me percebo brasileira depois de ter passado tanto tempo fora do Brasil.

Por isso o nome Direto da Gringa (2020), a brincadeira sendo que a Gringa era eu, e o projeto vinha direto de mim. O Direto da Gringa começa com um som de rádio onde escutamos um pedaço da Have You Ever Ever como memória do que veio antes, e um personagem indagando sobre livre arbítrio como um jeito de convidar o ouvinte a filosofar/questionar o caminho que o trouxe até aqui também.

Como alguém que adora uma boa versão, e que também adora e sente falta do rock, resolvi gravar o Rockin’ Gringa (2020), que trouxe interpretações roqueiras de algumas músicas do Direto da Gringa com direito a guitarra distorcida e um cover da No One Knows, da banda Queens of the Stone Age.

 

 

– Aproveita e fala um pouco de você também porque – ainda que estejamos trabalhando nisso – você ainda está sendo conhecida pelo público.

Minha trajetória é um pouco peculiar, embora sempre tive muita musicalidade, demorei um bom tempo pra me assumir artista.

Sai do Brasil em 2010, aos meus 17 anos, para cursar Neurociência nos Estados Unidos. Tinha o intuito de prestar medicina, mas após pouco tempo me percebi mais interessada pela pesquisa acadêmica, pela sua experimentação e me especializei em Neurociência Cognitiva, que estuda sistemas computacionais como meio de explicar processos de função executiva, como atenção, tomada de decisão e memória. Sempre curti muita literatura e escrita criativa, por isso, também nos EUA, cursei artes literárias com um enfoque em dimensões performáticas de texto – ou seja, como trazer elementos de performance para dar vida à personagens na escrita criativa. Depois de me formar e seguir um tempo como acadêmica, me vi com dificuldade para encontrar oportunidades para minha especialidade no Brasil. Recebi proposta para fazer PhD em Londres, mas decidi não ir, preferindo dar uma chance a um velho sonho de artista que eu havia reprimido por tantos anos.

Às vezes me frustro pensando no tempo perdido tentando evitar o que para mim era tão natural: sentir, cantar, criar. Mas não tenho dúvidas que estou no meu caminho. Sei que estou fazendo o que vim aqui fazer. Mesmo assim, demorou muito. Ao mesmo tempo vejo que uso tudo o que carrego, não foi tempo perdido. Tudo o que aprendi de alguma maneira influencia, e acho que muita da minha perspectiva vem como consequência dessa minha trajetória única.

 

 

-A sua música transmite uma dualidade entre força e fragilidade. Você também acha isso ou é sintoma de algum momento específico?

Eu super acho que minha voz traz à tona esses conceitos, mas não acho que força e fragilidade são polos opostos. Inclusive considero que leva muita força para se permitir ser frágil, vulnerável. Leva muita coragem enfrentar e expor seus sentimentos. Para mim, é sinal de grande força e fortalecimento – sinal que você está disposto a enxergar coisas difíceis para começar a lidar com elas.

 

-Você morou nos Estados Unidos e na Espanha. Como essas experiências ajudaram a formatar a sua música?

Todas as experiências ajudam a formatar o indivíduo.

Meu tempo tanto nos Estados Unidos quanto na Espanha me ajudaram a crescer como pessoa. Você aprende novas realidades, culturas, costumes e valores – aprende coisas sobre os outros e sobre você. Você aprende a se comunicar com pessoas realmente diferentes de você. Amplia muito sua cabeça. Estar em um lugar novo te joga pra fora da zona de conforto, te mostra além da sua bolha. Um novo lugar te permite/ te estimula a se reinventar de um jeito maravilhoso. Sensações novas são estímulo, berço para arte e para a criação.

 

 

– Como você está lidando com a arte neste tempo que estamos vivendo? Seja fazendo, seja consumindo. Como funciona isso pra você?

Consumo e crio diariamente. Estou sempre antenada a novos sons, novos livros, novas ideias para interagir com as minhas. Com o mundo fechado, sem poder ir pra show e/ou exposição, e tendo que adaptar a um mundo onde a arte é virtual, ando estudando outros tipos de conteúdos. Ando me interessando muito por cinema e explorando o vídeo como recurso para criar experiências interessantes para o público que vão além do espectro sonoro.

 

– Se você fosse citar suas maiores influências musicais, quais seriam?

Sou uma pessoa de muitas influências. Tudo é referência! Não precisa ter nada a ver com a proposta do meu som em gênero, mesmo assim sempre tem algo que pode servir como referência, como jeito de expandir as possibilidades do meu som. Ouço de tudo, compulsivamente procurando mais jeitos de expandir o fazer e comunicar musical.

Tem poucas coisas que acompanho minha vida inteira, tenho dificuldade em colocar aqui nomes que encapsulam minhas maiores influências musicais. O máximo que consigo atestar são algumas coisas que ando ouvindo muito recentemente

Paul McCartney – mestre, praticamente Deus encarnado. Lenda da história da música.

Raul Seixas – pai do rock nacional. Puta letrista e baita performer.

Elis Regina, melhor intérprete de todos os tempos.

Portishead pioneiros do trip hop com letras sombrias introspectivas a voz deliciosa de Beth Gibbons.

Mulheres como Fiona Apple, Regina Spektor, Amy Winehouse e Céu que misturam elementos do jazz, o rock e o pop de uma maneira visceral e experimental no seu som.

 

 

– Ao longo da sua carreira, você já gravou canções com arranjos eletrônicos e com banda mais convencional. Qual tua relação com a música eletrônica?

Eu gosto de experimentar novos tipos de som. Sou uma pessoa de muitas referências, e gosto de me desafiar no fazer musical.

A música eletrônica hoje está na frente da experimentação com misturas de ritmos e sonoridades inéditas e também quebras drásticas na estrutura de como enxergamos uma música. É uma fronteira interessante e há alguns sons venho vazendo esse mergulho no universo de experimentação eletrônica.

 

 

– No EP “Rock’n’Gringa” você fez uma cover arrasa-quarteirão de “No One Knows”, do Queens Of The Stone Age”. Como veio essa escolha?

Eu adoro Queens e Songs for the Deaf é um dos álbuns da minha vida. Fazia tempo que queria fazer um cover deles, colocar uma voz feminina nesse som de macho! Escolhi a No One Knows pela letra e pelo efeito de rádio que finaliza a música e virou referência para a entrada “Let ‘s Get Mental”, do Direto da Gringa – como um jeito de explicitar a influência deles no meu som, e de mostrar para todo mundo que o futuro do rock está na voz das minas!

 

 

– Pra fechar: como ficar são nestes nossos tempos?

Difícil. Estou ainda procurando resposta, caso alguém tenha, estou aberta a sugestões!

O que mais tem me ajudado é me manter ocupada e engajada com meus projetos. Aproveitando meu tempo para aprender novos instrumentos musicais e ferramentas para aumentar o alcance da minha arte. Bolando novos conteúdos, novas maneiras para usar a internet e me comunicar e transmitir a emoção por trás do meu som.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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