O Brasil dos bolsofeministas.

 

O CEL escreveu sobre os bolsomédicos, personagens bizarros do cotidiano de filme de terror mal escrito que nós estamos vivendo. Lembrei de algumas histórias que ouvi e acabei dando nome a um outro espécime criado na era do “acho muito e na verdade não sei de coisa nenhuma”: os bolsofeministas.

Talvez você conheça um desses: eles passam o ano dizendo que as feministas são feias (adoro o grau de maturidade), mal depiladas e nada resolvidas, enquanto seus exemplares femininos repetem que jamais precisaram do movimento, para na primeira e conveniente oportunidade jogarem nos ombros de quem se identifica com ele a responsabilidade por posicionamentos em relação às mais estapafúrdias situações.

 

 

No absurdo da vez a comoção é porque não demonstramos solidariedade à médica cúmplice de um plano de descaso e maldade contra a população brasileira, já que uma atriz que se orgulha da sua neutralidade em tempos de destruição invocou sua sororidade seletiva para se indignar com o jeito com que a oncologista e imunologista, alinhada a um governo que tripudia da morte do povo por quem deveria ser responsável foi tratada pela CPI que apura justamente tamanha barbaridade.

 

Toda vez que alguém levanta a bandeira do feminismo com a intenção clara de desvalidar o movimento o livro “O feminismo é para todo mundo”, da americana bell hooks,  se mostra cada vez mais necessário. Lançado em 2000 ele levou 18 anos para chegar ao Brasil, pela editora Rosa dos Ventos.

 

Com uma linguagem que foge do academicismo, bell discorre sobre corpo, políticas feministas, sororidade, educação feminista para uma consciência crítica, trabalho, raça e gênero entre outros temas importantes para afirmar o feminismo como um movimento que pode trazer uma vida mais digna para todas as partes de uma sociedade.

 

No capítulo 11, “Pelo fim da violência”, ela fala da importância de se desconstruir as crenças sobre violência patriarcal, o que pode ser estendido para outros aspectos do Brasil de 2021 e suas demonstrações de violência que nos destroçam todos os dias.

 

Como todo movimento social o feminismo é cercado por equívocos e o trecho abaixo fala de um dos maiores deles.

 

“Até então, o movimento feminista se concentrou primordialmente em violência masculina e como consequência, proporciona credibilidade para estereótipos sexistas que sugerem que homens são violentos e mulheres não; homens são algozes, mulheres são vítimas. Esse tipo de pensamento nos permite ignorar a extensão de que mulheres (e homens), nesta sociedade, aceitam e perpetuam a ideia de que é aceitável que uma parte ou grupo dominante mantenha seu poder sobre o dominado por meio de força coercitiva. Isso nos faz negligenciar ou ignorar até que ponto mulheres exercem autoridade coercitiva ou atos violentos contra outras pessoas. O fato de que mulheres talvez não cometam atos de violência com tanta frequência quanto os homens não nega a realidade da violência feminina”

 

É paradoxal que pessoas que desprezam qualquer manifestação de apoio feminino diante de situações que não convém às suas ideologias subam hashtags a favor de uma profissional de saúde que por trás de sua voz baixa e rosto sorridente traga a participação em uma das maiores violências perpetradas contra nós.

 

Como bell (com letra minúscula mesmo, pseudônimo escolhido para homenagear os sobrenomes da mãe e da avó) magistralmente nos ensina, uma sociedade justa e o feminismo que pense no bem de todos precisam caminhar juntos e tal realização jamais será possível se normalizamos a violência, seja ela a cometida por homens ou mulheres.

 

São quase 500.000 mortos, milhões de famílias destroçadas, pessoas que não voltarão a ter suas vidas como conheciam de volta.

 

Não dá para deixarmos nosso sofrimento e empatia verdadeira de lado para corrompermos o conceito tão bonito da sororidade.

 

Já tem bolsofeministas demais fazendo esse serviço lamentável.

 

Não sejamos um deles.

 

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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