E a estreia do Chicago, hein?

 

 

Digam-me: quando vocês olham para os discos de rock gravados no ano de 1969, o que vocês vêem? “Abbey Road”, dos Beatles? “Let It Bleed”, dos Rolling Stones? O disco homônimo dos Mutantes? O segundo do Led Zeppelin? Todas as respostas são certas, afinal de contas, o seu preferido é o seu preferido e tudo bem. Um álbum, também lançado há exatos cinquenta anos, estreia de uma banda de Chicago, também tem seu lugar guardado na galeria dos grandes discos. Mais ainda: é um trabalho que tem o mérito de ser uma espécie de ponte para influências jazzísticas incontestáveis, misturando-as com um rockão enguitarrado e virtuoso, que surgia espontaneamente. O nome do disco – e da banda – era Chicago Transit Authority.

 

Sim, é do mesmo Chicago que estamos tratando. Logo depois a banda cortaria o nome original e manteria apenas a menção à cidade e, com o passar do tempo, deixaria de lado as fusões ritmicas em favor de um pop rock feito para as FMs americanas, com ênfase nas baladas e nas canções mais curtas, calcadas na voz do baixista Peter Cetera. Só para constar, Cetera é o mesmo cara que canta clássicos como “If You Leave Me Now” e “Hard To Say I’m Sorry”, além de “Glory Of Love”, tema do filme Karate Kid II. Apesar disso, esta estreia – bem como os primeiros álbuns do grupo – guarda momentos sensacionais em que a mistura de jazz com rock ainda era algo relativamente novo, especialmente se fosse feita por artistas do próprio rock. Pensando generosamente na cena musical da época, o Chicago tinha como paralelo, ainda que em outro idioma sonoro, mais latino, a banda do Santana. Enquanto esta tinha em Carlos Santana um guitarrista extraordinário, o Chicago tinha um naipe de metais que tornou-se sua marca musical durante, pelo menos, todos os anos 1970. Além de outras características.

 

Como dissemos, jazz e rock pareciam possíveis se fossem misturados por artistas oriundos das fileiras do primeiro. O próprio Miles Davis, a partir de 1968, é um dos monstros jazzistas que olha com bom olhos para o rock como forma de modernizar o discurso de sua música. O próprio rock progressivo, especialmente de algumas bandas, como King Crimson ou Soft Machine, também é uma forma de aproximação, mas, nem estas, nem Miles, tinham a manha da música pop. E isso é o que transborda na estreia do Chicago Transit Authority. Formado, além de Cetera, por Robert Lamm, Terry Kath, Danny Seraphine. Estes quatro eram os responsáveis pela aproximação com o rock da época, enquanto um naipe de metais, composto por Lee Loughanane, Walter Parazaider e James Pankow, dava o molho especial para as faixas mais próximas do jazz.

 

Mas, não era apenas misturar dois estilos. O CTA conseguiu criar uma marca sonora já no primeiro disco e veio com pinta de campeão, com um álbum duplo, lançado pela poderosa CBS, visando entrar na onda mercadológica que se erguia no mar daquele fim de década. Com doze faixas e 77 minutos de duração, apenas uma canção não é da autoria do pessoal do grupo. A versão para a ótima “I’m a Man”, de Steve Winwood, encaixa-se como uma luva no cenário sonoro do álbum, fazendo uma ponte interessante entre as bandas de blues inglesas e o CTA, que não parecia ter muita competição no cenário americano da época.

 

O disco foi remasterizado em 2003, melhorando significativamente a sua qualidade sonora e agora ganha uma nova remasterização por conta de seu 50º aniversário. Originalmente lançado em 28 de abril de 1969, “Chicago Transit Authority” liderou as paradas de álbuns, foi certificado como duplo platina e concedeu à banda uma indicação ao Grammy na categoria “Best New Artist”. O álbum também tem a distinção única por ter ficado nas paradas por três anos consecutivos (171 semanas), um recorde na época do lançamento. O disco inclui vários dos sucessos mais duradouros do grupo: “Beginnings”, “Does Anybody Really Know What Time It Is?” e ” Questions 67 and 68”.

 

Não deixe de ouvir e pode ir até o “Chicago VI” sem erro.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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