O novo disco de Ringo Starr é adorável

Ringo Starr – Long Long Road
33′, 10 faixas
(UMG)
(4,5 / 5)
Em pleno 2026, ninguém poderia imaginar que viveríamos a expectativa de dois ex-Beatles lançando discos de inéditas no mesmo ano. Mas é o que acontece – Paul McCartney lançará em muito breve seu aguardadíssimo “The Boys Of Dungeon Road” e Ringo Starr acaba de apresentar seu novo álbum, “Long Long Road” ao mundo. Paul anunciou que este será seu álbum mais introspectivo e sentimental, algo que pode ser comprovado pelo lindíssimo single “Days We Left Behind”, enquanto Ringo repete a parceira com o produtor T-Bone Burnett, iniciada no trabalho anterior, “Look Up”. Pode parecer incrível, mas talvez este seja o disco mais bacana da carreira do baterista. Muita gente pode dizer que este posto fica com “Ringo”, álbum de 1973, que contém participações de todos os ex-Beatles e algumas canções memoráveis, mas ouso dizer que não. E explico o motivo.
Do alto de seus 85 anos, Ringo achou sua persona artística mais adequada não faz muito tempo. Mais que um ótimo baterista e vocalista esforçado, ele conseguiu deixar de lado o peso de seu passado em favor de assumir-se como um coroa de bem com a vida, adepto do “paz e amor” e, mais que tudo, muito bem resolvido quanto ao que quer fazer. Se antes ele padecia com comparações entre suas habilidades e de seu ex-companheiros de banda, de fato, lançando álbuns que não eram páreo para os melhores momentos de John, Paul e George, ele hoje se esmera em gravar apenas o que quer, do jeito que bem entende e sem dar satisfações a ninguém. Arrisco dizer que Ringo poderia abandonar o projeto da All Starr Band, com músicos camaradas convidados fazendo covers e excursionar apenas com repertório próprio, gravado a partir dos anos 2000. E este “Long Long Road” certamente seria o ponto altíssimo dessa empreitada. T-Bone Burnett repete parte do time que esteve presente no álbum anterior, “Look Up”, com destaque para Molly Tuttle e Billy Strings, dois músicos e vocalistas da cena do bluegrass, jovens e já muito cascudos, cujas harmonizações casam perfeitamente com o registro vocal de Ringo, compensando qualquer dureza com adoráveis contrastes. E ainda temos St.Vincent e Sheryl Crow nos vocais de apoio em duas faixas, também parecendo se divertir bastante com o espírito do álbum.
A colaboração com T-Bone Burnett parece ter despertado em Ringo uma sensibilidade que o rock mais convencional e polido de seus discos anteriores costumava soterrar. Em “Long Long Road”, a produção opta por uma estética orgânica, quase táctil, onde o estalar das cordas do violão e a marcação seca da bateria — ainda com aquele balanço inconfundível que só ele possui — criam uma moldura de honestidade rara. Ao contrário de tentar emular a grandiosidade de uma produção de arena, o álbum soa como uma jam session de luxo em uma varanda ensolarada, onde a urgência foi substituída pela fluidez. As composições não tentam inventar a roda, mas se sustentam em estruturas de country-rock e folk que parecem ter sido esculpidas sob medida para a voz de Ringo, que aqui soa mais segura e calorosa do que nunca, abraçando as marcas do tempo com uma dignidade que emociona sem precisar de esforço.
O repertório de “Long Long Road” é um desfile de canções que celebram a permanência em vez da nostalgia barata. Enquanto “Look Up” flertava com o country mais tradicional, este novo trabalho expande os horizontes para um som que evoca o Laurel Canyon dos anos 1970, fundindo a simplicidade melódica com arranjos de cordas e metais que surgem nos momentos certos para elevar o espírito das composições. Faixas como a canção-título, a ótima “It’s Been Too Long”, a linda cover de Carl Perkins “I Don’t See Me In Your Eyes Anymore” e a everlybrotheriana “Why” mostram um Ringo interessado em narrar histórias de resiliência e amizade, distanciando-se do otimismo protocolar para abraçar uma alegria mais profunda e consciente. É um disco que respira, que tem espaço para o silêncio entre as notas e que, curiosamente, faz com que o ouvinte se sinta parte do círculo íntimo de músicos que parecem tocar uns para os outros, dividindo o prazer genuíno da criação.
Por fim, o que coloca este trabalho em um patamar superior aos seus antecessores é a ausência total de pretensão em soar “relevante” para as paradas atuais, o que, ironicamente, o torna extremamente vital. Ringo Starr não precisa mais provar que é um beatle; ele está ocupado demais sendo um artista que compreende a beleza da simplicidade. “Long Long Road” encerra com uma sensação de completude, como se o baterista tivesse finalmente encontrado o tom exato para sua fase outonal, transformando sua música em um porto seguro de autenticidade. Se em 1973 ele precisava do apoio maciço de seus velhos amigos para brilhar, em 2026 ele brilha por conta própria, amparado por uma nova geração de talentos que o vê não apenas como uma lenda viva, mas como um mestre da batida e do sentimento. É, sem dúvida, o testamento definitivo de que a estrada, por mais longa que seja, continua valendo a pena ser percorrida.
Ouça primeiro: “Why”, “Long Long Road”, “I Don’t See Me In Your Eyes Anymore”, “Choose Love”, “It’s Been Too Long”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
