Lucas Santtana atinge ápice em álbum sobre nossa língua

Lucas Santtana – Brasiliano
41′, 11 faixas
(No Format)
(5 / 5)
Quando escrevemos sobre “O Paraíso”, disco anterior de Lucas Santtana, logo no início de 2023, usamos uma sigla para definir sua música: MBFB, Música Brasileira de Fora do Brasil. O motivo era pelo fato do cantor e compositor baiano viver em Paris há muito tempo e tal situação certamente lhe concede uma visão diferente do Brasil. Parece simples, mas não é. Viver fora daqui, sendo brasileiro, concede a possibilidade de compararmos realidades, cotidianos e saberes, certamente construindo uma identidade que, nem que seja por mera soma de experiências, tende a ser mais diversificada. Por mais que a vida esteja complicada em todos os cantos do planeta, viver num lugar em que não existem as agruras, burrices e tiques sociais brasileiros já é algo a celebrar. No caso de Lucas – e de outros artistas que vivem lá fora – estas diferenças e detalhes alimentam obras que não param de agregar novos trabalhos sensacionais. Seu “Brasiliano” é um triunfo completo, algo que parece impossível de ser feito por aqui, se pensarmos no panorama musical nacional de hoje. Um trabalho sobre as origens da nossa língua, cantado em oito idiomas diferentes, mapeando a trajetória e influências que nosso idioma sofreu ao longo da História, com participações estelares, multinacionais e, ao fim de tudo isso, ainda contem canções praticamente perfeitas. “Brasiliano” é tudo isso e muito mais.
Há um aceno estético ao som obtido em “O Paraíso”, até mesmo na capa, que repete o estilo da anterior, mostrando continuidade. Se o trabalho anterior falava sobre modernidade como meio de buscar sustentabilidade, sem cair num discurso caricato, mas mostrando uma beleza atemporal para esta empreitada, “Brasiliano” propõe outra busca, dessa vez por identidade. Mas algo que passe bem longe das velhas e ultrapassadas visões europeizadas de Brasil, brancas, católicas, colonizadoras, pelo contrário. Ele disse ao podcast “Sabe Som”: “Se a gente assume que a nossa língua é uma língua brasileira, imediatamente a gente salta para as línguas mais faladas do mundo. Isso é soft power, isso é geopolítica. É uma coisa de soberania”. Lucas, tal qual um historiador contemporâneo, expõe suas pesquisas e resultados de forma cativante, interessante, sedutora, entendendo que o saber e o conhecimento não podem e devem escapar do tédio e da pretensão para atingir seus alvos. Inspirado no livro “Latim em Pó” (2022), de Caetano Galindo, ele opta por percorrer essa trajetória de centenas de anos a bordo de canções que traduzem com perfeição estas informações.
“Brasiliano” tem letras cantadas em português do Brasil (ou brasiliano), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau. E faz menção a idiomas anteriores à chegada dos portugueses, chamados de “línguas grais”, mostrando a visão caleidoscópica que precisa ser adotada em algo que se pretenda coerente sobre esse tipo de pesquisa. Mas, como dissemos, o que temos aqui passa longe de uma eventual sala de aula. Já na faixa de abertura, “A História da Nossa Língua”, com participação de Gilberto Gil, Lucas fala sobre o longo caminho que foi trilhado pela “flor do lácio”, originada na região que hoje é a Itália, a partir de um latim vulgar, que cruzou mares – Mediterrâneo e Atlântico – para chegar aqui, mudando e sendo mudado. O arranjo traz cordas e sintetizadores mesclados e a voz de Gil, membro da ABL, dá uma aura de certeza – histórica e pessoal. O duo Cocanha, de música occitana (da Aquitânia, sudoeste da França, próxima à Espanha), dá uma tonalidade interessantíssima a “Liga”, que tem um arranjo tributário da versão ao vivo de “Reconvexo”, de Caetano Veloso.
Há muito mais. “Strati di Tempo”, é uma lindeza em que Lucas divide vocais com o italiano DiMartino, enquanto a maravilhosa “Dans le Sud”, cantada em francês ao lado de Flavia Coelho, parece uma canção praiana de Henry Salvador. “Ver meu povo se abraçar” é herdeira direta da sonoridade de “O Paraíso”, mas traz sanfona e andamento de forró, ao lado de Chico César. “Eu ainda te amo” é uma beleza de canção de amor, com participação de Rachel Reis, já “Battre des alles” também evoca certo caetanismo na mescla de timbres acústicos com batucada afro, algo que é muito bem feito e bem-vindo no contexto do álbum. Os camaradas Paralamas do Sucesso tocam e arranjam, dividindo vocais em “Que seja um reggae”, uma perfeição pop-reggae, com traço identitário marcante do trio. E “Independência”, com Karyna Gomes, fecha o percurso com mais balanço afro, novamente tendo Caetano Veloso, com o verso que sintetiza todo o álbum: “Independência não pede a bença // A língua solta chama de outra // De boca em boca esse é o plano // A rua fala brasiliano”.
Lucas Santtana tem vinte e cinco anos de carreira, sendo este o seu décimo álbum. Dá pra dizer que ele é um compositor em constante evolução, lançando álbuns maravilhosos neste percurso. Com “Brasiliano” ele atinge seu ápice e olha que “O Paraíso” já era uma lindeza total. Ouça e passe adiante.
Ouça primeiro: todo o álbum.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
