Dançando na Varanda, um dia de cada vez

 

Fevereiro de 2018, um casal estacionava o carro em frente ao hospital São Francisco, na Tijuca, trazendo no banco de trás uma moça que olhava para o vazio sem esboçar reação, um dos vários sintomas do colapso emocional que enfrentava. A passageira do carro era a professora de francês e escritora carioca Nicole Ayres e o casal os seus pais, no momento em que sua internação era a ajuda que a família precisava para acabar com tanto sofrimento. As lições aprendidas nesta jornada rumo à serenidade inspiraram Nicole a escrever seu primeiro livro, “Dançando na varanda”, lançado em edição independente e disponível no Kindle unlimited.

 

Ciente de que os pedidos de socorro das nossas emoções não vêm apenas de uma causa, de um desajuste, Nicole conta que se tornou paciente do São Francisco por causa de pequenas rachaduras que quebraram tudo o que ela entendia por tranquilidade: cobranças por resultados sobre humanos, uma decepção amorosa, um assalto do qual foi vítima. Ainda que já fizesse terapia com uma psicóloga, aquele foi o momento de ruptura da autossuficiência, que nos prende no engano de querermos superar sozinhos os nossos terrores.

 

 

“Ter começado a frequentar a psicóloga, cerca de um ano antes, me ajudou bastante, mas não foi o suficiente. A terapia que funcionou, nesse caso, foi a do choque mesmo. Só quando ultrapassei, e muito, meus, limites, descobri que eles existiam”

 

Sem autopiedade e com desprendimento. Nicole se aproxima do leitor ao mostrar desde o primeiro capítulo e numa prática que foge da literatura de autoajuda, os instrumentos que usou para alcançar a cura real. Quando diz que o livro “é um desabafo, um desatino e um desaforo” ela traz à luz o primeiro passo previsto no livro Os 12 passos e as 12 tradições, adotado nas reuniões das irmandades anônimas (aqui quero destacar os Neuróticos Anônimos).

 

“Admitimos que éramos impotentes perante nossas emoções- que tínhamos perdido o controle das nossas vidas”

 

Ao admitir que precisava de ajuda e era impotente diante das próprias sensações, Nicole faz a gente se reconhecer no seu relato. A dor que os outros não podem ver muitas vezes nos faz achar que estamos sozinhos, que somos loucos, fracos, iludidos pela ideia de que nossa ansiedade e depressão é única e que só nos resta o isolamento. Ela acolhe e comove com seu jeito compreensivo de escrever, porque sabe que a única forma de não nos afogarmos em nossas tempestades emocionais é termos uma mão amiga na qual segurar.

 

“Amor-próprio e amor à humanidade: não se trata na verdade da minha coisa? Ainda bem que hoje eu sei que não preciso de ninguém, só de todo mundo”

 

Os capítulos terminam com letras de músicas que se encaixam perfeitamente com cada parte da narrativa. Canções como Sal da Terra e Paciência ora emocionam, ora surpreendem e Como me curar de mim, que encerra o capítulo em que Nicole define sua personalidade como a mistura de princesa da Disney e uma seria killer sanguinária, vira canto no meio da nossa leitura, mantra a lembrar que não somos apenas uma definição, um temperamento imutável, sem lacunas.

 

O nome do livro é “Dançando na varanda”, mas poderia também ser “Conversando na varanda”. Nicole escreve muito bem, tem bom humor, doçura e um quê de ironia e sarcasmo que a gente curtiria num bom bate papo sobre coisas leves e assuntos da alma e do coração. Temas múltiplos e únicos como somos todos nós.

 

Li o livro em setembro, tive que recordar algumas páginas para escrever este texto e me surpreendi com o número de trechos grifados por mim. Um deles até foi parar na minha biografia no Facebook.

 

Nicole me disse que começou os rascunhos do livro na época em que saiu do hospital, mas aquele não era o momento de finalizar o seu relato. Vivendo um dia de cada vez, foi o agora o momento da sua experiência chegar até nós para mostrar que não estamos sozinhos e não há anormalidade ou pecado nenhum em sentir demais.

 

“Nada passa batido, tudo passa batendo. E eu não me canso de apanhar.”

 

Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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