Cine Quarentena: Não vejam “The Postcard Killings”

 

 

Nestes tempos de quarentena, ver filmes e séries ganha ares terapêuticos, certo? A gente se distrai, revê produções antigas, mas sempre em cartaz na memória afetiva, descobre coisas legais e … dá de cara com verdadeiras bombas atômicas, caso explícito de “The Postcard Killings”. A sinopse até pode atrair os fãs de filmes de assassinatos em série, com um detetive obstinado tentando solucioná-los. Este tem Jeffrey Dean Morgan, o Negan de “The Walking Dead”, como Jacob Kanon, detetive da Polícia de Nova York, que vai a Londres após receber a notícia de que sua filha foi assassinada de forma brutal, em plena lua de mel. Ao chegar na cena do crime, os corpos dela e do marido foram deixados em posição estranha, com detalhes e características inquietantes. Como única pista, um cartão postal enviado para um jornalista do The Guardian, com uma frase misteriosa.

 

Jacob começa a investigar por conta própria, diante das restrições a seu acesso por conta da polícia britânica. Até aí, tudo parece bem com o filme. Ele vai tomando conhecimento do caso, constata que houve um assassinato em Madrid dias antes, da mesma forma, com um postal enviado a um jornalista espanhol e com os corpos deixados numa determinada posição. Aos poucos, Jacob vai entendendo processo do assassino e novos casos vão acontecendo em outros países, obrigando-o a fazer uma espécie de mochilão involuntário pela Europa. Ao mesmo tempo, o filme mostra um jovem casal americano em férias, Sylvia e Mac. A trama faz o espectador acreditar que eles são as próximas vítimas, uma vez que o assassino mata casais e …

 

Quando nos damos conta da roubada que é o filme, a trama já passou de Munique e chegou a Estocolmo, com Jacob fazendo sua investigação paralela e descobrindo mais do que as polícias locais. Ele é durão, amargurado, não segue as regras, típico personagem clichezaço de policial americano. E o filme perde completamente a mão quando o assassino é desmascarado muito antes do fim e a trama se modifica para uma caçada aos criminosos. A partir daí, todo mundo já acredita em Jacob, sua percepção da relação dos crimes com obras de arte é feita naturalmente, todo mundo entende o modus operandi e a pista que leva à solução do crime cai no colo do investigador sem qualquer esforço.

 

O filme é péssimo, pessoal. Vou dar um spoiler aqui. Se você se anima a ver, não leia as próximas linhas.

 

Não é um assassino, mas um casal de assassinos. Os motivos para que cometam a série de crimes bárbaros é inadmissível e tosca. Os atores que os interpretam – assim como todo o elenco – são péssimos e não convenceriam a ninguém, mesmo que falassem se suas vidas. O roteiro é uma viagem na montanha russa sem trava de segurança e tudo sai dos trilhos faltando uns quarenta minutos para o fim do filme, ou seja, praticamente na metade final da trama. Se você tem uns 100 minutos de vida para perder, não hesite em usar “Postcard Killings” como motivo para isso.

 

Jeffrey Dean Morgan, galã de filmes e séries, está péssimo. Ele nunca foi um bom ator, convenhamos e não convence como policial durão amargurado em busca de vingança. Famke Jansen, que fez a Jean Grey nos primeiros “X-Men” surge como coadjuvante de luxo, péssima, com um rosto ligeiramente modificado, talvez por conta de algum botox lamentável. O resto do elenco é de desconhecidos, inclusive o casal de assassinos, que vai na onda do “lobo em pele de cordeiro”, irritando muito mais do que metendo algum tipo de medo. No fim das contas, toda a trilha de assassinatos brutais poderia ter sido resolvida com algumas sessões de terapia.

 

Sei que este texto desabonador pode despertar a sua curiosidade, mas, sério, vão por mim: não percam seu tempo. Vocês podem precisar dele mais tarde.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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