Chega de listas de melhores discos, gente

 

 

Há cerca de um mês recebemos a notícia de que “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento e Lô Borges, fora escolhido como o MELHOR DISCO BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS. A informação veio junto com a lista dos dez melhores álbuns selecionados por um grupo importante de jornalistas, produtores, músicos e pessoas ligadas ao mundo da música popular, que foram consultados pelo jornalista Ricardo Alexandre, do podcast Discoteca Básica. Os resultados de todos os votantes serão divulgados no vindouro livro que Ricardo está editando, viabilizado por conta de financiamento coletivo, com um total arrecadado – até agora – que ultrapassa a meta inicial em mais de quatro vezes. Se, por um lado, o sucesso da empreitada aponta para uma demanda de interesse sobre a música feita no país, por outro, o critério editorial mostra que, em termos epistemológicos, é complicado aferir valor de forma absoluta a esta ou àquela obra musical.

 

Sim, você leu “epistemológico” no parágrafo anterior e é importante que a gente fale sobre isso. Traduzindo: sempre que se publica um artigo ou livro desta natureza, o conhecimento manifestado por ele – e nele – está, irremediavelmente, datado e preso a um contexto histórico. Ou seja – se a gente publicasse um livro equivalente há vinte anos, o resultado seria outro, da mesma forma que, se publicarmos daqui a cinquenta anos, também veremos algo diferente. Por isso, de saída, não dá pra usar os termos “definitivo” ou “o melhor de todos os tempos” em publicações assim. Melhor ficar com o velho e prudente método de disfarçar esse tipo de aferição de valor de O MELHOR para OS MAIS IMPORTANTES ou OS MAIS REPRESENTATIVOS, até porque, esta visão tenderia a explicitar os pontos de vista pessoais dos votantes, proporcionando mais diversidade à lista final.

 

Conheço muita gente que participou da votação e tive acesso a algumas listas pessoais, fruto de vivências próprias, que mesclam gosto, relevância e trabalho no ramo há tempos. Mas, uma olhada nas dez primeiras posições, que saíram como teaser na imprensa – muito eficaz, aliás – aponta para velhas banalizações em escolhas que já são fruto de equívocos anteriores nessas escolhas, sempre com esta aferição de valor x desvalor. Será que dá pra cravar que as pessoas escolhidas para votar têm o total conhecimento da obra de um artista? Vamos pegar, por exemplo, o próprio Milton Nascimento. Dono de uma extensa carreira fonográfica, será que o Clube é mesmo o melhor trabalho dele? De cara, dá pra mencionar outros dois álbuns que têm até mais força que o trabalho duplo com Lô Borges: “Minas” e “Geraes”. Lançados entre 1975 e 1976, são quase um disco duplo, no qual Milton e sua turma homenageiam o estado, as tradições e a própria história de Minas, usando-a como uma espécie de Brasil encapsulado. Será que estas obras são tão conhecidas dos votantes como o “Clube”, que é mais badalado e projetado internacionalmente?

 

Algumas outras figurinhas fáceis surgem na lista, como “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben, ou “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos. No caso de Jorge, sua carreira na Philips, até 1976, tem uma verdadeira sucessão de acertos musicais. Dá pra dizer que discos como “Negro é Lindo”, “Força Bruta”, “Ben” e até o ótimo, mas irregular “África Brasil”, têm condições de encarar “Tábua” de igual para igual. E “Acabou Chorare”, que parece ser o único álbum dos Novos Baianos? O que acontece com “Novos Baianos FC”, por exemplo, tão ou mais exuberante que o anterior? A pergunta é sempre a mesma: será que o senso comum – até o senso comum do jornalista “especializado” – conhece esses trabalhos? Não é mais fácil escolher “Elis e Tom”, que ocupa o décimo posto, do que, por exemplo, trabalhos como “Matita Perê”, “Urubu” ou “Stone Flower”? Essa gente os conhece? Novamente entra o senso comum banalizante.

 

É deste senso comum preguiçoso que parece vir a escolha de “Da Lama Ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi, como o MELHOR DISCO NACIONAL DOS ÚLTIMOS 40 ANOS, em votação promovida pelo Jornal O Globo, a partir dos votos de 25 especialistas. Sinceramente, este não é o melhor álbum nem da carreira curtíssima de Chico, o que dirá dos últimos 40 anos, gente? Sabemos que a produção de Liminha comprometeu o feeling do som dos pernambucanos, algo que, por exemplo, não aconteceu com um álbum como ‘Samba Esquema Noise”, estreia do mundo livre s/a, que foi produzida por Carlos Eduardo Miranda. Ou com o sucessor de “Da Lama”, “Afrociberdelia”. Agora, se a gente realmente olhar para o intervalo de 40 anos, como vamos deixar de lado o primeiro disco da Blitz? Ou “Selvagen?”, dos Paralamas do Sucesso? Ou a trilogia titânica, lançada entre 1986 e 1989? E, claro, “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s? Ou, sei lá, qualquer outro…

 

Porque, essencialmente, cultura não foi feita para ser valorizada dessa forma. Não dá pra a gente escolher “Clube da Esquina” e não escolher o disco do Roberto Carlos de 1969. Ou o “Stone Flower”, do Tom Jobim. Ou, é sempre bom lembrar, qualquer outro álbum nacional lançado antes de 1959. Sim, porque a lista do Discoteca Básica parece ignorar os primeiros anos de produção discográfica nacional. Não é culpa de ninguém, mas, novamente, é o senso comum empreguiçante.

 

Em tempos de flexibilização dos conceitos de arte, cultura e valor, listar obras com a intenção de fazê-las disputar posto na preferência de um eleitorado, é diminuir a importância delas, ao invés de aumentá-la. Por outro lado, é, sim, motivo de assunto, cliques e likes. E segue o baile.

 

 

OBS: a gente faz listas de melhores do ano, um intervalo de tempo que é menor e mais factível do que “toda a história da musica brasileira”.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Chega de listas de melhores discos, gente

  • 21 de junho de 2022 em 09:16
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    é aquela coisa, ninguém aguenta mais listas mas sempre há um fascínio quando soltam uma ou outra polêmica ou pomposa. E sempre haverá um dilema entre listas manjadas ou excessivamente subjetivas – leia-se, do gosto específico de um jornalista. Há espaço para ambas, dependendo do que está sendo proposto. Aqui no Célula sinto que a segunda opção é a escolha frequente do editor, o que me agrada muito quando busco “novidades”, mas também é legal ter listões reunindo os ditos clássicos para preencher lacunas de ouvintes. Sobre o Discoteca Básica, o trabalho do Ricardo é primoroso e imagino que o nível será replicado na publicação. Merece e muito o sucesso pelo capricho e muita gente deveria estudar aquele formato do podcast em seus detalhes para termos mais conteúdos daquele nível por aí.

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  • 14 de junho de 2022 em 11:24
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    Ótimo!
    Fora a questão Clube da Esquina, pois nada se compara ao disco composto em Niterói. Mas concordo, principalmente com o uso do termo “REPRESENTATIVO”.

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