Black Keys: De volta ao começo

 

 

Black Keys – Delta Kream

Gênero: Rock, blues

Duração: 58:12 min
Faixas: 12
Produção: Dan Auerbach
Gravadora: Nonesuch

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

Onze discos em 19 anos. Essa é a carreira do Black Keys. De uma forma muito natural e justa, “Delta Kream”, o mais novo registro de Dan Auerbach e Patrick Carney é o retorno ao princípio, quando surgiram com o primeiro trabalho, “The Big Come Up”, em 2002. Era apenas mais uma dupla de sujeitos estranhos tocando blues e rock como se toda a evolução técnica e estética obtida dos anos 1980 para frente nunca tivesse existido. Estava na moda, basta lembrar do sucesso que o White Stripes fez naquele momento, ele também um duo de gente esquisita do meio oeste americano. Mas o Black Keys sempre soou mais blues e mais dedicado às origens. Não por acaso, o primeiro álbum trazia uma versão de “Do The Romp”, canção de um sujeito chamado Junior Kimbrough, representante do blues rural da terra dos Keys, o Mississippi. É bem significativo que a dupla faça uma nova cover dessa mesma música neste novo álbum, uma vez que a ideia aqui é prestar tributo a esta influência primordial em sua carreira.

 

O clima é de descontração. Três dias no estúdio de Auerbach foram suficientes para registrar a dúzia de canções. Além dele e de Carney, estão presentes o guitarrista Kenny Brown e o baixita Eric Deaton, com a missão de reler e investigar canções compostas Kimbrough, RL Burnside, John Lee Hooker e Big Joe Williams. O clima é de total liberdade, os ruídos da gravação antecipam as canções, tudo é audível e ninguém se preocupou muito em pegar leve. As interpretações são rascantes, incendiárias e devem servir para despertar no ouvinte médio da dupla a vontade de correr atrás desses veteranos do blues rural do Mississippi. Dan explicou a rapidez para concluir o disco: – crescemos ouvindo e tocando essas músicas. Está no nosso sangue.

 

Isso certamente explica o nível do ataque que a banda obtém em relação às canções. Riffs envenenados convivem com andamentos bem pensados de bateria e as presenças dos dois músicos de apoio confere uma dinâmica de banda clássica ao Black Keys, possibilitando um som muito orgânico e adequado a este tipo de empreitada, na qual o purismo é um elemento importante. Há alguns momentos em que a banda consegue adicionar seu toque pessoal a algumas versões, caso especial de “Crawling King Snake”, na qual há uma nítida presença de levada mais funky, conferindo um sabor muito interessante ao original.

 

Os grandes momentos surgem quando a abrasividade das canções combina com a pegada direta e reta dos músicos. A nova-velha “Do The Romp” tem turbilhões de guitarras e levada hipnótica, certamente um dos grandes momentos do disco. “Louise”, de Mississippi Fred McDowell, é outra que tem a levada hipnótica e vocais saturados de efeitos, narrando a história de uma mulher que seduz o cantor, chamando-o para morar em Chicago. “Walk With Me”, outra composição de Junior Kimbrough, tem riff permanente, mais vocais com efeitos e dobrados com guitarras e peso na gravação. “Mellow Peaches”, com detalhe para a presença de órgão, é de Big Joe Williams e tem ótimo desempenho guitarrístico.

 

A capa de “Delta Kream” entrega seu habitat: uma sorveteria no meio do nada, com um Oldsmobile Cutlass estacionado em sua porta, com placa de Tunica, Mississippi. A foto foi tirada por William Eggleston e traz várias referências ao álbum. A ideia não é voltar aos anos 1920, 1930, mas ao tempo em que os integrantes da banda tomaram contato com tais canções. Este é um trabalho revisionista, preciso, respeitoso e muito bacana.

 

Ouça primeiro: “Do The Romp”, “Louise”, “Crawling Kingsnake”, “Mellow Peaches”

 

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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