Bebel Gilberto – Agora

 

 

Gênero: Eletrônico

Duração: 39 min.
Faixas: 11
Produção:Thomas Bartlett
Gravadora: Pias

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

Bebel Gilberto é influência capital para toda uma geração de cantoras brasileiras surgidas no novo milênio. Seu álbum “Tanto Tempo”, lançado exatamente em 2000, mostrou como era possível fazer um disco de música braseira que fosse moderno, eletrônico mas que fosse capaz de conservar brasilidade, referência e aquela influência bossanovista nunca muito bem resolvida. Ela não conseguiu reeditar o êxito daquele trabalho, mas não dá pra dizer que os lançamentos que Bebel fez nestes vinte anos não foram bastante dignos do parâmetro alto que ela estabeleceu. “Agora” é mais um desses sucessores, tentando equilibrar ainda os mesmos elementos primordiais, tentando buscar o mesmo ponto exato entre moderno, tradicional, Rio e Nova York, guardando um trunfo na manga: ser o primeiro trabalho da cantora após a morte dos pais – Miúcha e João Gilberto – falecidos em 2018 e 2019, respectivamente.

 

“Agora” traz a produção de Thomas Bartlett e uma característica bastante interessante: é o mais eletrônico álbum da cantora, mais até que “Tanto Tempo”. Os timbres são diferentes, mais noturnos, suaves, tangentes do que poderia ser uma reinterpretação do trip hop noventista. Quase não há bateria nas canções, uma vez que as batidas e ritmos estão submersos num oceano de teclados e sintetizadores que criam um padrão cinzento-esbranquiçado, que faz muito bem às composições, todas de Bebel e de Thomas, com adição de Mart’nália (em “Na Cara”) e de Jennifer Charles em “Bolero” e “Yet Another Love Song”. Bartlett tem a manha de mexer em timbres sintéticos e acústicos, já tendo pilotado os estúdios para gente boa e diversa como Norah Jones, Yoko Ono, Sufjan Stevens, Florence + The Machine e The National. A parceria funciona bem.

 

Há momentos muito interessantes em “Agora”, um disco que pede várias audições para ser compreendido totalmente. Mais austero, mais dolorido, é uma Bebel menos alegre que sai das caixas de som. Ora mais sensual, ora mais tristonha, ela vai construindo um painel sensível que se mostra belo na maioria das vezes, especialmente porque o conceito que ela e Bartlett conferem à eletrônica é denso, porém acolhedor. O choque desse minimalismo com as letras dá ótimos resultados. Logo de cara, “Tão Bom” é uma espécie de câmara de descompressão para o sol ficar lá fora. Há uma percussão meio desencontrada, erguendo um samba meio torto, que funciona bem. A faixa seguinte, “Agora”, já é declamada e quase parece uma conversa em algum lugar, no qual a música ambiente é marcante e se confunde com as vozes presentes, modificando a mensagem e sua compreensão. “Cliché” é outro caso de percussão que foi soterrada pela eletrônica, mas o teclado sampleado em looping e as cordas sampleadas dão um clima muito interessante de um impossível Portishead praiano, ou algo assim.

 

“Deixa” também é bastante interessante pelo uso da eletrônica e dos timbres e por ter um andamento próximo de um samba ou algo para se dançar em câmera lenta. “Raio” é outra faixa que desafia o movimento lento, parece algo que teria lugar num bom disco da Céu, enquanto “Yet Another Love Song” também tem letra sussurrada, mas em inglês. Normalmente um álbum assim terminaria soturno, ainda mais pela presença de “O Que Não Foi Dito” no penúltimo posto, mas é com a “animada” “Teletransporte” que o fecho vem, e, ainda que haja nuvens cinzentas num céu entre Ipanema e Manhattan, uma nesguinha de sol teima em aparecer.

 

“Agora” é denso, surpreendente até certo ponto e tem poucos erros, como, por exemplo, a badalada parceria com Mart’nália, que não rende bons frutos. No restante, é um trabalho que tem um lugar de destaque na discografia de Bebel.

 

Ouça primeiro: “Cliché”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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