Os vinte anos de “Under The Iron Sea”

Lançado em maio de 2006, “Under the Iron Sea” é um desses discos raros que desafiam corajosamente as regras do mercado fonográfico no início dos anos 2000, um momento em que a indústria do rock alternativo e do pop britânico parecia enxergar apenas o gigantismo e a grandiosidade das arenas. Naquela primeira metade da década, enquanto o rock alternativo tentava se equilibrar entre o revival do pós-punk e a corrida para o estrelato em grandes estádios, o cenário musical assistia a uma bifurcação interessante em termos de caminhos. Por exemplo, o Coldplay escolheria a rota pirotécnica, colorida e de apelo global, impulsionados por produções hiperpolidas, visuais suntuosos e hinos de estádio que buscavam a catarse coletiva e a grandiosidade luminosa de álbuns como “X&Y” e o posterior “Viva la Vida”. Era uma música feita para inflar o peito sob chuvas de papel picado e luzes de neon em grandes festivais, abraçando um otimismo conceitual universal. Outra banda importante da época, o Muse, optaria por um abraço vigoroso a sonoridades de rock clássico setentista, de gente como Rush ou Queen, atualizando-as e reempacotando-as para o início do milênio, com distopias e ficção-científica existencialista, também com grande sucesso de público.
Em total oposição a esse movimento, o Keane optou por uma rota de coragem artística e integridade teimosa, recusando boa parte do verniz comercial fácil e preferindo encolher reflexões sentimentais e existenciais para aprofundar a fratura psicológica. Em vez de recriar a fórmula eufórica e campestre de sua estreia multiventedora com “Hopes and Fears” (2004), o trio mergulhou de cabeça em uma paleta sonora acinzentada, relativamente industrial e eletrônica, distanciando-se do pop bombástico-otimista para abraçar texturas metálicas, distorções no piano Yamaha CP70 e uma urgência existencial profunda gerada pelo esgotamento físico e pelas crises internas nos bastidores. Esse mergulho em águas mais escuras resultou em um retrato honesto das cicatrizes do estrelato pop, transformando o piano rock em algo denso, claustrofóbico e marcante. Este foi “Under The Iron Sea”, que veio à luz em 2006.
A partir desse ambiente de exaustão de turnês intermináveis e atritos entre os integrantes por conta da pressão por sucesso e tudo mais, o processo de gravação do disco — conduzido inicialmente nos estúdios Helioscentric, em uma área rural isolada de Sussex, e finalizado posteriormente no Magic Shop, em Nova York — refletiu esse estado de espírito fragmentado da banda. O estúdio transformou-se em um espaço de tensão, onde o produtor Andy Green ajudou a traduzir o esgotamento físico e mental do trio em decisões estéticas radicais e desafiadoras. Foi nesse cenário que o tecladista Tim Rice-Oxley expandiu suas pesquisas sonoras com pedais de efeitos, sintetizadores analógicos e as célebres distorções elétricas no piano, enquanto o baterista Richard Hughes encontrou na percussão seca e mecânica uma forma de dar firmeza para o ritmo tenso do disco. Já o vocalista Tom Chaplin canalizou todas as vulnerabilidades e o desgaste emocional da estrada em interpretações vocais ainda mais dramáticas que as do disco anterior. Desse pequeno caos veio o material e a essência de “Under The Iron Sea”, cujo título já reflete a barra pesada que a banda enfrentava.
Essa sensação já desponta em “Atlantic”, a faixa que abre o álbum com um abismo de camadas vocais quase corais e uma tensão que cresce devagar até explodir em texturas distorcidas, anunciando de vez que a inocência cristalina do passado havia ficado para trás. Na sequência, “Is It Any Wonder?” destila paranoia e urgência com um dos riffs de piano mais agressivos e processados do grupo, usando os pedais de distorção para traduzir o som de uma banda implodindo criativamente de dentro para fora em um ritmo catártic. O peso emocional continua logo depois no grande hit que é “Nothing in My Way”, que esconde sob ganchos pop altamente acessíveis uma letra amarga sobre arrependimento, o peso das escolhas erradas e a ruína silenciosa de relações de longa data, enquanto “Leaving So Soon” aposta num andamento que parece belo e inofensivo, até que a caminhada para o refrão acelera o ritmo e a voz de Tom Chaplin explode em raiva e termina reação no verso “Don’t look back if I’m a weight around your neck // Because if you don’t need me I don’t need you”.
O coração conceitual e melódico do disco brilha com força absoluta em “Crystal Ball”, uma faixa arrebatadora que une o medo de crescer, de perder o rumo e de encarar o reflexo no espelho a uma construção melódica que remonta a contos de fada e perda da inocência, logo antes de “Try Again” oferecer um respiro agridoce focado na exaustão dos relacionamentos e no esforço frágil e doloroso de tentar reconstruir o que já nasceu quebrado. O clima de desolação emocional se aprofunda ainda mais em “Broken Toy”, utilizando metáforas melancólicas sobre o descarte imposto pela máquina da indústria musical. Logo em seguida, uma favorita pessoal, “The Frog Prince”, que tem uma melodia linda e um refrão ainda mais sensacional, com Chaplin se esgoelando sobre aparências que se perderam com o tempo e que revelaram verdades bem diferentes. Por fim, “Let It Slide” encerra o percurso com uma melodia mais linear e em tom maior, mas que esconde sombras e detalhes obscuros.
Duas décadas após seu lançamento original, a chegada da edição comemorativa de 20 anos em formato de 3 CDs coloca em perspectiva a real dimensão desse álbum. Longe de ser apenas um exercício nostálgico para colecionadores, o pacote funciona como um documento desse processo, trazendo as doze faixas originais remasterizadas, demos inéditas, sessões de rádio e lados B que revelam a turbulência de um processo criativo à beira do colapso. Ao resgatar esse material, a edição reforça o acerto histórico de uma banda que preferiu deixar de lado sua zona de conforto, lembrando do momento em que o Keane preferiu a franqueza. “Under The Iron Sea” permanece um discaço, cheio de melodias e canções maravilhosas, de uma banda que deveria ter mais reconhecimento.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
